Este soneto pra passar as horas
Só foi escrito para matar o tempo;
Pois longos minutos causam a demora
Do que espero que não seja lento.
Essa areia que teima na ampulheta,
Essa água na clepsidra engasgada
Parece que parou todo o planeta,
Saber da rotação vale de nada!
Que ciência ingrata e maldita esta é
Do relógio e dos números exatos,
Mas frios e por isso não dou fé.
Prefiro a arte inexata das musas
Na qual me refugio com paixão
Para matar o tédio e a solidão.
Decassílabo, esquema de rimas: ABAB CDCD EFE GHH
Renan, 27 de agosto de 2014.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Breve olhar sobre os anos 60: a última grande revolução
Na história da
humanidade (não confundir com a história natural) sempre houve períodos de
turbulência revolucionária. Refiro-me a períodos de intensa produção e
reformulação do pensamento, que mais tarde – e, em alguns casos,
concomitantemente – também culminariam em mudanças práticas.
As condições
materiais de vida impulsionam o pensamento, a consciência, e esta as
revoluções. Exemplos:
1)
Possibilidades reais de expansão marítima e geração de riqueza – condições
materiais que levaram ao sonho, desejo e necessidade de exploração além-mar –
culminando nas Grandes Navegações;
2) Exploração
colonial – condições materiais que culminaram em pensamentos emancipatórios nas
colônias – teorias que dariam luz ao nascimento de novas nações independentes;
3) Absolutismo
monárquico e insatisfação burguesa – condições materiais que culminaram no
pensamento iluminista – ideias que por sua vez levariam à revolução francesa;
4) Exploração da
mão-de-obra – condições materiais que culminaram no pensamento comunista –
consequentemente levando às revoluções russa, chinesa, cubana entre outras.
Além do
Iluminismo, houve outros três períodos históricos marcados por grande produção
filosófica, científica e literária, todos determinantes para o pensamento e o
modo de vida: o Renascimento, o Romantismo (incluindo correntes antagônicas no
mesmo período – o séc. XIX) e o Modernismo (séc. XX). Todos eles tiveram
fundamental importância na estruturação social e no modo como o homem passou a
perceber o mundo. Houve ainda mais um período com mesmo grau de importância,
porém mais atual: o período que comporta a década de 1960 e início da década de
1970.
Este foi um
período de grande turbulência social e cultural. As condições materiais para
isso são inúmeras, mas poderiam ser resumidas em uma tese central: a juventude
crescendo em um período pós-guerra (fim da 2ª Guerra Mundial) e temendo a
hipótese de uma eminente guerra nuclear. Ao encarar a ideia da morte eminente,
essa juventude – até então reprimida – tentou sugar ao máximo, ao seu modo
inocente, o que a vida e o momento presente lhes poderiam ofertar em prazeres
hedonistas.
A cultura
surgida como fruto desse pensamento e que seria a força impulsionadora das
revoluções que ocorreriam nesse período está ainda no final da década de 1950.
Este antecedente tinha o nome de rock and
roll. Em termos de poesia, o rock era a única alternativa até então que
falava aos anseios do jovem: namorar. Letras que falam de carros possantes se
traduziam ao imaginário da juventude como uma fuga, uma possibilidade de
liberdade, longe da vista dos pais. Em termos de música, era um som que exigia
a formação de casais para a dança, aproximando as pessoas, permitindo o contato
corpo a corpo numa sociedade sexualmente reprimida. Em termos de atitude, a
preparação com roupa de baile e a desinibição pelo uso de álcool eram os
rituais que não apenas antecediam o namoro, mas começaram a fazer parte do
estilo de vida dessa geração.
Foi nesse
contexto que cresceram os Beatles, os Rolling Stones e seus contemporâneos. A
diferença é que para esses meninos já não bastava apenas estar presente do
baile, eles queriam comandar a festa. Inspirados por seus ídolos da década de
1950 (Elvis Presley, Chuck Berry etc) eles saíram da escola em busca de um
sonho: ser como os seus heróis.
Com muito
trabalho eles conseguiram chegar ao estrelato no início da década de 1960.
Tornaram-se então ídolos dos jovens da época e de sua própria geração. Mas em
meados da década, as turbulências sociais e políticas se intensificaram, o que
motivou um abandono da inocência e um engajamento artístico e popular em prol
de melhores condições de vida. Entre 1966 e 1967 irrompeu o auge da cultura
hippie, em protesto à Guerra do Vietnã, com modo de vida anticapitalista, slogans
pacifistas, passeatas e apelos à liberdade de expressão, aos direitos das
mulheres, ao fim da segregação racista.
Nesse contexto,
a música já não era mais composta para bailes. Aqueles arranjos simples com
três acordes deram lugar a arranjos complexos, mesclando rock e música
clássica, às vezes com influência da música oriental, e com tudo mais o que a
criatividade artística concebesse livremente, abolindo preconceitos. O ritmo
mudou tanto que já não podia mais ser dançado, exigindo apenas a audição e
apreciação do ouvinte. As letras então se tornaram mais elaboradas poeticamente
e engajadas politicamente. E a música passou a ser apenas ouvida, e quando
cantada, as canções converteram-se em hinos daquela geração.
Os Beatles
reinavam absolutos como a voz mais influente da época, mas seus discípulos
diretos e indiretos também estavam presentes, não só unindo-se ao coro, mas
tentando levar a revolução cultural a níveis cada vez maiores.
No centro do
mundo capitalista, os EUA, o festival de Woodstock em 1969 reuniu artistas como
The Who, Janis Joplin, Jimi Hendrix e um público recorde de jovens em torno de
uma única celebração. Era também uma fuga da agitação e dos problemas daquela
época conturbada.
No ano seguinte,
Jimi Hendrix e Janis Joplin morreriam aos 27 anos. Nove meses depois Jim Morrison
juntar-se-ia a eles, também aos 27. Parecia o destino cobrando o seu preço por
uma vida de muitos exageros: muitas festas, muitas drogas e muito trabalho.
No mesmo ano em que Jimi e Janis
transcenderam deste mundo, os Beatles se separaram. Eles já não eram mais tão
jovens, estavam chegando aos 30 e haviam tocado juntos por mais de 10 anos.
Cada um foi se dedicar à sua própria família e carreira solo. Assim, 1970 foi
um ano de perdas inestimáveis para aquela geração, causando algumas desilusões,
marcando o fim de uma era, mas aquela agitação ainda perduraria por mais uns
anos como um efeito ressaca. Bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd se
propuseram à missão de elevar o som dos anos 60 a patamares ainda mais
complexos.
A poesia do Rock
Em “My
Generation” (1965) o grupo The Who cantava
ao espírito jovem contestador que questionava os valores pelos quais os pais
educavam seus filhos. Um dos hinos daquela geração. A seguir um trecho da letra:
As
pessoas tentam nos colocar pra baixo
Só porque nos damos bem
As coisas que eles fazem parecem terrivelmente frias
Espero morrer antes de ficar velho
Essa é a minha geração, baby
Por que vocês todos não desaparecem?
E parem de tentar entender o que nós dizemos
Não estou tentando causar nenhuma confusão
Só porque nos damos bem
As coisas que eles fazem parecem terrivelmente frias
Espero morrer antes de ficar velho
Essa é a minha geração, baby
Por que vocês todos não desaparecem?
E parem de tentar entender o que nós dizemos
Não estou tentando causar nenhuma confusão
Só
estou falando sobre a minha geração
No auge da
agitação eis que surge um poeta tímido, Jim Morrison, mas ao assumir uma
personalidade dionisíaca, tornar-se-ia um símbolo da liberação sexual. Nas
apresentações ao vivo da banda, o poeta convocava os jovens à revolução:
The Doors - Five to One, 1968 (trecho):
Cinco
contra um, baby
Um e cinco
Ninguém sai daqui vivo, agora
você leva os seus e eu levo os meus
Vamos conseguir, baby, se tentarmos
Todos nós envelhecemos e os jovens se fortalecem
Pode levar uma semana e pode levar mais tempo
Eles têm as armas, mas nós temos a maioria
Vamos vencer, sim, estamos dominando!
Seus dias de baile acabaram, baby
Um e cinco
Ninguém sai daqui vivo, agora
você leva os seus e eu levo os meus
Vamos conseguir, baby, se tentarmos
Todos nós envelhecemos e os jovens se fortalecem
Pode levar uma semana e pode levar mais tempo
Eles têm as armas, mas nós temos a maioria
Vamos vencer, sim, estamos dominando!
Seus dias de baile acabaram, baby
As condições de
vida formaram o espírito da época que inspirou os jovens a acreditarem que um
mundo melhor era possível e que isso dependia apenas deles, cobrando da
juventude uma mobilização para tomarem o controle da política e de suas vidas,
caso contrário poderia não haver futuro. Sonhando em fazer um mundo ideal,
lutava-se contra problemas concretos: a guerra, o racismo, os valores machistas
e as ditaduras (cada país tinha a sua a seu modo).
John Lennon -
Imagine, 1971 (trecho):
Imagine não haver propriedades
Eu
me pergunto se você consegue
Nenhuma
necessidade de ganância ou fome
Uma
irmandade de homens
Você
pode dizer que eu sou um sonhador
Mas
eu não sou o único
Espero
que um dia você junte-se a nós
E
o mundo viverá como um só.
Era uma época
diferente. Alguns daqueles anseios parecem não fazer mais sentido hoje, outros
como a luta pela igualdade, o fim da fome e a paz, ainda são utopias de toda a
humanidade.
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Precisa-se de profissionais de Letras
Profissões que ainda não existem ou não têm nome
reconhecido, mas extremamente necessárias no mercado de trabalho hoje, e que no futuro poderão ser indispensáveis.
FACILITADOR LINGUÍSTA EMPRESARIAL
Requisitos: Formação em Letras, amplos
conhecimentos em Redação
Empresarial, Linguística Textual, Gramática e Semântica;
Noções de Marketing.
Atributos: Solucionar e prever problemas de
comunicação interna em
empresas. Criar e gerenciar estrategicamente a comunicação interna,
podendo também revisar a comunicação externa.
* O profissional bilíngue traduz a comunicação empresarial
no caso de empresas bilíngues ou de comércio internacional.
LINGUÍSTA FORENSE
Requisitos: Formação em Letras, amplos
conhecimentos em Gramática, Semântica, Análise do Discurso, Literatura e
Retórica; Noções de Direito.
Atributos: Revisar qualquer texto jurídico
tornando-o formal, claro e objetivo; auxiliar na redação de Leis resolvendo
problemas como: falta de coesão e coerência, ambiguidade, redundância,
cacofonia etc. Como consultor de retórica e analista de discurso, revisar
depoimentos e criar estratégias eficazes de interrogar testemunhas.
* O profissional bilíngue traduz a comunicação jurídica em
casos de Direito Internacional.
SOCIOLIGUÍSTA CLÍNICO
Requisitos: Formação em Letras, amplos
conhecimentos em Socioliguística, Fonomorfologia, Literatura, Estilística, Oratória
e Teatro; Noções de Psicanálise.
Atributos: Seguindo a lógica da psicologia
clínica, da psicanálise clínica e da filosofia clínica, porém, com o foco na
linguagem, o sociolinguísta clínico desmistifica supostos “problemas” de fala,
atuando como um agente motivacional da fala e da auto-estima. Pode atuar também
como Professor de Oratória e como treinador técnico de profissionais da fala
(professores, advogados, palestrantes, políticos etc). Na consultoria, prepara
atores para papéis que requerem treino linguístico específico, buscando
fidelidade com a fala autêntica ou idealizada para a construção da personagem,
evitando estereótipos grosseiros.
* O profissional bilíngue oferece cursos para quem precisa
se expressar melhor em outra língua, com ou sem marcas de regionalidade
(sotaque), de acordo com o objetivo da comunicação.
CONSULTOR BIBLIOGRÁFICO
Requisitos: Formação em Letras, amplos
conhecimentos em Gramática, Redação, Literatura, Filosofia, Retórica, Ciências
Sociais e Normas da ABNT; Noções de Biblioteconomia.
Atributos: Apontar caminhos, abordagens, teorias,
textos e bibliografia para pesquisadores e empresas; revisar normas científicas
ou padrões de formatação textual; solucionar problemas epistemológicos, revisar
textos dissertativos e propor melhorias no argumento.
Obs: em todas as profissões, o estudo da Ética deve ser um requisito.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Padre Anchieta e seu polêmico legado
“Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata
nela, ou outra coisa de metal, ou ferro... Contudo, o melhor fruto que dela se
pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal
semente que Vossa Alteza nela deve lançar... Quanto mais, disposição para se
nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento
da nossa fé!” (Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel, 1500).
Esse era o pensamento comum da época. Acreditava-se
que impor o evangelho ao nativo seria o maior testemunho de bondade que os
portugueses deviam fazer. Como instituição, a Igreja errou feio. Alguns índios
se salvaram da escravidão colonial [laica] a troco de serem escravos das obras da
Igreja. Porém, os jesuítas fizeram o que acreditavam ser para o bem do índio, resgatando-o
de seus vícios: o uso de cauim, do fumo, a poligamia, a antropofagia; costumes
que Pe. José de Anchieta combateu por meio de seu teatro alegórico.
Há que se considerar o contexto histórico antes
de condená-lo. Como homem, José de Anchieta não pode ser julgado pelos valores
em que hoje acreditamos, até porque no futuro muitas de nossas ideologias e até
nossa ciência serão também consideradas torpes.
Entretanto, o mesmo relativismo não pode ser
usado para justificar crimes hediondos tais aqueles cometidos pelos militares
nos anos de chumbo. Como recentemente revelou a Comissão da Verdade, houve extermínio de aldeias indígenas por
parte da ditadura. A aculturação promovida pelo Padre no contexto do séc. XVI não é do mesmo tipo de atrocidade que os bombardeios de aviões sobre aldeias, o
uso da varíola como arma biológica, as prisões e torturas de índios no Brasil
do séc. XX.
Sem julgamentos morais, prefiro pensar em
Anchieta como o autor da primeira gramática de língua indígena brasileira,
impressa em 1595. Também como poeta, dramaturgo e historiador ele nos legou
documentos que nos permitem vislumbrar um pouco do Brasil quinhentista, das
batalhas travadas, dos costumes nativos e da fé que se propagava naquele
período.
A recente canonização do Padre Anchieta torna
mais atrativo aos olhos do turista os Passos de Anchieta, as ruínas da igreja jesuíta em Guarapari e tudo o que ainda
cerca a história de vida do padre no estado do Espírito Santo.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Música + Cinema: produções para ver e rever
Dicas de filmes que tratam da música e tudo o que o seu
universo envolve.
Amadeus (Amadeus, 1984) –
Adaptado de uma peça teatral, este filme foi vencedor de 8 (merecidos) Oscars, incluindo o de melhor filme. A
vida do compositor classicista Wolfgang Amadeus Mozart é contada na ótica de
seu rival Antonio Salieri (F. Murray Abraham numa atuação emocionante!). Há muitas
coisas para se destacar nesta obra-prima, mas escolho a cena em que o réquiem
de Mozart é composto, na qual o espectador ouve instrumento a instrumento, como
se estivesse dentro da cabeça do compositor. Mas não poderia deixar de
mencionar também a cena em
que Salieri descreve de forma arrebatadora a música que lê
nas partituras de seu rival. O texto é belíssimo, enquanto a trama envolve
questionamentos sobre a fé e sentimentos como a inveja e a ambição. Nesta
produção a música parece reger o filme, e não o oposto como é de costume. Desde
o seu início, som e imagem prendem o fôlego do espectador. A direção é de Milos
Forman.
Quase Famosos (Almoust Famous,
2000) – No início da década de 70 tá
rolando tudo! – como diria a personagem Penny Lane. O enredo
semiautobiográfico escrito e dirigido por Cameron Crowe gira em torno de um
jovem de 15 anos que tem a chance de excursionar com uma banda de rock, fazendo
a cobertura da turnê para a revista Rolling
Stone, publicação especializada em crítica musical. A banda em questão é
Stillwater, um grupo fictício com repertório criado especialmente para o filme.
O roteiro é leve, adorável, divertido e empolgante. Ao assistir a esta história,
não estranhe se você se sentir nostálgico de uma época em que a música era mais
apaixonante do que é hoje e o mercado fonográfico era mais inocente, antes de
ele arruinar o rock and roll e tudo o que
amamos nele. É um filme sobre viagens, festas, ilusões e pessoas tentando não dizer adeus. A trilha
sonora também inclui canções de Led Zeppelin, Yes, Simon & Garfunkel, Deep
Purple, Black Sabbath, Jimi Hendrix, Elton John, entre outras.
Hair (Hair, 1979) –
Musical adaptado da Broadway para o cinema, conta de modo bem humorado sobre o
modo hippie de viver. Tudo começa quando um jovem do interior vai à Nova York
para se alistar no exército, mas no caminho depara-se com um grupo de hippies.
Desse encontro surge paixão, amizade e aventuras que conduzem a trama a um
final inesperado. As canções abordam temas como sexo, uso drogas, misticismo e,
é claro, a Guerra do Vietnã. A cena em que Berger dança sobre a mesa é impagável! Esta e
muitas outras cenas, além da trilha sonora e de um ótimo roteiro, fazem desta
produção uma obra para ser vista e revista. Direção de Milos Forman.
The Doors (The Doors,
1991) – Apesar das críticas de Ray Manzarek (tecladista dos Doors) sobre o
roteiro ter exagerado ao mostrar um Jim Morrison sempre bêbado, o filme de
Oliver Stone vale a pena pela trilha sonora e atuação impecável de Val Kilmer
no papel do poeta do rock. Data máxima venia, o exagero torna-se justificado
pela fama lendária que cerca de forma quase indissociável a breve carreira de
Jim Morrison. Se o diretor focou demais nas extravagâncias do cantor é porque
elas ajudaram a fazer dele uma lenda do rock e se não fosse por essa
excentricidade o filme não despertaria tanto interesse. Mas fica a dica: é um
filme baseado em fatos reais, mas não é um documentário, portanto, não devemos
encará-lo como sendo uma biografia do ídolo. Em resumo, o filme é válido na sua
intenção e sublime na sua arte. O casamento entre músicas e cenas é de um
primor raro, superando em muito os videoclipes da MTV.
Backbeat – Os 5 rapazes de Liverpool (Backbeat, 1994) – Filme baseado na história dos Beatles antes de
alcançarem fama, ainda na época em que começaram a tocar em casas noturnas da
Alemanha. O enredo tem a banda como pano de fundo, mas prefere focar na curiosa
história do artista plástico Stuart Sutcliffe, que por um breve período tocou
com os Beatles. A amizade entre Stuart e John Lennon, a paixão de ambos pela
fotógrafa Astrid Kirchherr, as brigas, sonhos e dilemas são mostrados como o gatilho
para o que viria a ser o fenômeno Beatles. Mas não espere ouvir canções de
Lennon-McCartney aqui. A trilha sonora é composta de canções de Chuck Berry e
outros dessa geração que inspirou os Beatles e sempre fez parte de seu repertório
de covers. A produção é pequena, mas cumpre
bem o seu papel. O filme cria uma atmosfera em torno da pintura abstrata, da
poesia simbolista francesa, da fotografia artística, casando tudo isso com rock
and roll. Neste casamento, acertou em cheio!
Bônus: não poderia deixar de fora
estas produções nacionais...
Cazuza – O tempo não para – Uma história chocante contada por uma
poesia inspiradora. A narração do Cazuza-personagem explicando suas motivações
em cada ato é o maior acerto desta produção. A cena de Cazuza no mar, com
música de Lobão: “Vida louca, Vida breve, Já que eu não posso te levar, Quero
que você me leve” é a entrega final, a aceitação do irremediável destino.
Somos tão jovens – Thiago Mendonça interpreta Renato Russo para
contar nesta produção a história do nascimento do punk-rock de Brasília. A
trama se concentra no Aborto Elétrico, mencionando a Plebe Rude e o Capital
Inicial, até que a Legião Urbana se forme e faça a sua grande estreia. A cena em que tocam “Ainda é Cedo” se destaca
como a mais cativante do filme.
Gonzaga – de pai pra filho – Excelente produção nacional sobre a vida de Luiz Gonzaga, o rei do baião, e Gonzaguinha: dois entre os maiores nomes da música popular brasileira. Atuações emocionantes, direção impecável e trilha sonora perfeita!
Outros que considero muito bons e
recomendo:
- La Bamba (La Bamba,
1987) sobre o astro do rock Ritchie Vallens.
- A Fera
do rock (Great balls of fire,
1987) sobre o pianista Jerry Lee Lewis.
- The Commitments – Loucos pela fama (The Commitments, 1991) sobre
uma banda fictícia que tenta reviver as emoções da soul music na Irlanda.
- Minha amada imortal (Immortal Beloved, 1994) sobre Ludwig Van Beethoven.
- Dois filhos de Francisco, produção nacional sobre a infância e início
do sucesso de Zezé Di Camargo.
sábado, 15 de março de 2014
Para quem não lê, para quem lê e não entende e para quem escreve...
Erros comuns de quem lê, mas não
CONHECE poesia:
1- Achar que poesia é algo
“bonitinho” feito para confortar, alegrar ou enfeitar.
2- Achar que poesia pode ser
interpretada de qualquer forma, dependendo da vontade ou subjetividade de cada
um.
3- Achar que o conteúdo escrito é
válido para todas as épocas, em especial, a SUA.
4- Achar que aquilo foi escrito
para alguém específico, digamos... VOCÊ.
5- Achar que qualquer pensamento
ou expressão de sentimentos é uma boa poesia.
ENTENDER a poesia é sempre um
desafio. Costumo dizer que quem lê e entende poesia, entende qualquer tipo de
texto (além de ler o mundo de forma mais crítica e consciente).
A seguir, apresento uma
justificativa para cada item numerado acima.
1 - A poesia é uma forma de
reflexão retórica. Embora seja bela, por trazer musicalidade em sua forma; e
cativante, por organizar o conteúdo de forma lógica, ela não tem o objetivo de
agradar, mas apenas de ser uma bela reflexão, isto é, ser a expressão
organizada (artística) de uma subjetividade única (original). Então, nunca
pense em poesia como sendo algo “bonitinho”, mas sendo uma técnica de
argumentação.
2- A poesia tem como objetivo
passar uma mensagem esteticamente organizada. Se essa mensagem pudesse ser
interpretada de qualquer forma, não haveria razão de ela existir. Todo texto tem
uma mensagem que é comunicada ao leitor pelo autor. Embora a poesia tenha
sentido amplo, isto não significa que ela possa ser interpretada ao bel prazer
do leitor. A motivação do autor (formada pelo seu contexto histórico e
psicológico) deve ser levada em consideração para se entender a mensagem de um
texto.
3- Nada é tão universal que possa
ser interpretado fora de seu contexto (exceto para o New Criticism que valoriza a ambiguidade e as múltiplas interpretações).
Cada autor tem uma motivação própria ao escrever. O contexto histórico e
psicológico de cada um é dialeticamente determinante na produção do texto
(contexto histórico e condições materiais de existência + subjetividade do
autor = poesia).
4- É verdade que a poesia une
todas as subjetividades individuais em sentimentos comuns a toda espécie
humana, mas isto não significa que o autor entenda a subjetividade de seus
leitores. Pelo contrário, o leitor deve se esforçar para entender a subjetividade
do autor. Esta tarefa nunca será perfeitamente possível, mas o leitor deve se
esforçar para assim apreender pelo menos o essencial de cada texto. Ler é um
exercício de empatia e isto devemos colocar em prática também em nossas vidas.
5- Se você escreve poesia, não se
iluda pensando que seus leitores o entenderão. A moeda mais válida na poesia é
a estética, então, ao escrever, capriche na organização formal e na
argumentação. Só assim sua produção textual será considerada bela pelos seus
leitores, ainda que seja impossível compreenderem inteiramente a sua
subjetividade. Ao escrever, ouse ir aos lugares incomuns de sua consciência,
mas faça-o de modo textualmente organizado. O bom texto é original em conteúdo,
mas técnico em sua forma.
Em resumo, a leitura requer empatia
e prática do leitor. A escrita exige, além de uma boa vivência de mundo, um
grande conhecimento das ferramentas linguísticas.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Abordagens Humanas
Abordagens que explicam o ser humano internamente (seus desejos e angústias):
- As artes;
- As psicologias;
- A psicanálise.
Abordagens que explicam o ser humano externamente (relações comunitárias e políticas):
- A filosofia;
- As ciências sociais (sociologia e antropologia);
- A história.
As abordagens externas, para serem mais bem sucedidas, devem passar antes pelas abordagens internas. Isto porque o ser humano não é apenas "fruto do meio", mas o resultado dialético (síntese) entre o interior e o exterior.
Para entender as motivações humanas e a obra de um indivíduo ou de uma sociedade, deve-se antes analisar a subjetividade exteriorizada no meio. Essa subjetividade humana é o motor que impulsiona a chamada "contextualização histórica" da qual todos somos cúmplices e vítimas.
- As artes;
- As psicologias;
- A psicanálise.
Abordagens que explicam o ser humano externamente (relações comunitárias e políticas):
- A filosofia;
- As ciências sociais (sociologia e antropologia);
- A história.
As abordagens externas, para serem mais bem sucedidas, devem passar antes pelas abordagens internas. Isto porque o ser humano não é apenas "fruto do meio", mas o resultado dialético (síntese) entre o interior e o exterior.
Para entender as motivações humanas e a obra de um indivíduo ou de uma sociedade, deve-se antes analisar a subjetividade exteriorizada no meio. Essa subjetividade humana é o motor que impulsiona a chamada "contextualização histórica" da qual todos somos cúmplices e vítimas.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Breve análise do soneto “A pá”
Para não perder o costume, fiz uma breve análise sobre um soneto de minha autoria. Segue o poema:
A pá
Não, a palavra não é
metafórica
Quando é forte para plantar
os ossos
E colher o perdão dos entes
nossos
Numa elegia muda e pictórica.
A palavra num enterro é
concreta:
A pá lavra o pó antes do
epitáfio
E a sua própria função leva a
fio
Para deixar a tarefa
completa.
Apaga a triste mágoa já
passada.
A pá – gastrite da terra – já
cega,
Surda, só, junto ao defunto
ela encerra:
A lágrima da remissão negada
Ou a silenciosa dor que teve
em vida –
Ao som seco e sacro de pá –
rompida.
Renan, abril de 2013.
Publicado em:
http://interludico.blogspot.com.br/2013/04/soneto-sobre-o-perdao-dado-apos-morte.html
Breve análise
Decassílabo com rimas no esquema: ABBA, CDDC, EFF, EGG.
As rimas FF são imperfeitas.
Há aliteração do S para reproduzir o som da pá
cavando um túmulo,
algo como: s, s, s..
Ficou assim:
A pá – gastrite da terra – já cega,
Surda, só, junto ao defunto ela encerra
(...)
(...) a silenciosa dor que teve em vida –
(...) a silenciosa dor que teve em vida –
Ao som seco e sacro de pá – rompida.
Há paranomásia em:
A palavra num
velório é concreta:
A pá lavra o pó
antes do epitáfio
Apaga a triste mágoa já passada.
A pá – gastrite
da terra – já cega,
Outras semelhanças fonéticas na 3ª estrofe:
terra/encerra (rima interna)
junto ao defunto (rima interna)
Semântica:
A primeira estrofe lança uma tese que será defendida nas
duas estrofes seguintes. A última estrofe apresenta uma conclusão.
Há metáfora em “elegia muda e pictórica” (1ª estrofe) = [O
triste silêncio na hora do enterro].
Há uma figura de oposição entre “metafórica” (1ª estrofe) e
“concreta” (2ª estrofe).
Há metáfora em “A pá [no ato de cavar]” = “gastrite da terra”
(3ª estrofe).
Há prosopopeia em “A pá já cega, surda, só” (3ª estrofe)
Há figura de inversão (hipérbato) entre a 3ª e 4ª estrofe. Na ordem direta seria: “a pá encerra [termina com]: a lágrima da remissão negada ou
a silenciosa dor que o defunto teve em vida”.
Há hipérbato na 4ª estrofe. Na ordem direta seria assim: “silenciosa dor
rompida ao som de pá”
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