quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Enquanto espero

Este soneto pra passar as horas
Só foi escrito para matar o tempo;
Pois longos minutos causam a demora
Do que espero que não seja lento.

Essa areia que teima na ampulheta,
Essa água na clepsidra engasgada
Parece que parou todo o planeta,
Saber da rotação vale de nada!

Que ciência ingrata e maldita esta é
Do relógio e dos números exatos,
Mas frios e por isso não dou fé.

Prefiro a arte inexata das musas
Na qual me refugio com paixão
Para matar o tédio e a solidão.



Decassílabo, esquema de rimas: ABAB CDCD EFE GHH
Renan, 27 de agosto de 2014.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Breve olhar sobre os anos 60: a última grande revolução





Na história da humanidade (não confundir com a história natural) sempre houve períodos de turbulência revolucionária. Refiro-me a períodos de intensa produção e reformulação do pensamento, que mais tarde – e, em alguns casos, concomitantemente – também culminariam em mudanças práticas.

As condições materiais de vida impulsionam o pensamento, a consciência, e esta as revoluções. Exemplos:
1) Possibilidades reais de expansão marítima e geração de riqueza – condições materiais que levaram ao sonho, desejo e necessidade de exploração além-mar – culminando nas Grandes Navegações;
2) Exploração colonial – condições materiais que culminaram em pensamentos emancipatórios nas colônias – teorias que dariam luz ao nascimento de novas nações independentes;
3) Absolutismo monárquico e insatisfação burguesa – condições materiais que culminaram no pensamento iluminista – ideias que por sua vez levariam à revolução francesa;
4) Exploração da mão-de-obra – condições materiais que culminaram no pensamento comunista – consequentemente levando às revoluções russa, chinesa, cubana entre outras.

Além do Iluminismo, houve outros três períodos históricos marcados por grande produção filosófica, científica e literária, todos determinantes para o pensamento e o modo de vida: o Renascimento, o Romantismo (incluindo correntes antagônicas no mesmo período – o séc. XIX) e o Modernismo (séc. XX). Todos eles tiveram fundamental importância na estruturação social e no modo como o homem passou a perceber o mundo. Houve ainda mais um período com mesmo grau de importância, porém mais atual: o período que comporta a década de 1960 e início da década de 1970.

Este foi um período de grande turbulência social e cultural. As condições materiais para isso são inúmeras, mas poderiam ser resumidas em uma tese central: a juventude crescendo em um período pós-guerra (fim da 2ª Guerra Mundial) e temendo a hipótese de uma eminente guerra nuclear. Ao encarar a ideia da morte eminente, essa juventude – até então reprimida – tentou sugar ao máximo, ao seu modo inocente, o que a vida e o momento presente lhes poderiam ofertar em prazeres hedonistas.

A cultura surgida como fruto desse pensamento e que seria a força impulsionadora das revoluções que ocorreriam nesse período está ainda no final da década de 1950. Este antecedente tinha o nome de rock and roll. Em termos de poesia, o rock era a única alternativa até então que falava aos anseios do jovem: namorar. Letras que falam de carros possantes se traduziam ao imaginário da juventude como uma fuga, uma possibilidade de liberdade, longe da vista dos pais. Em termos de música, era um som que exigia a formação de casais para a dança, aproximando as pessoas, permitindo o contato corpo a corpo numa sociedade sexualmente reprimida. Em termos de atitude, a preparação com roupa de baile e a desinibição pelo uso de álcool eram os rituais que não apenas antecediam o namoro, mas começaram a fazer parte do estilo de vida dessa geração.

Foi nesse contexto que cresceram os Beatles, os Rolling Stones e seus contemporâneos. A diferença é que para esses meninos já não bastava apenas estar presente do baile, eles queriam comandar a festa. Inspirados por seus ídolos da década de 1950 (Elvis Presley, Chuck Berry etc) eles saíram da escola em busca de um sonho: ser como os seus heróis.

Com muito trabalho eles conseguiram chegar ao estrelato no início da década de 1960. Tornaram-se então ídolos dos jovens da época e de sua própria geração. Mas em meados da década, as turbulências sociais e políticas se intensificaram, o que motivou um abandono da inocência e um engajamento artístico e popular em prol de melhores condições de vida. Entre 1966 e 1967 irrompeu o auge da cultura hippie, em protesto à Guerra do Vietnã, com modo de vida anticapitalista, slogans pacifistas, passeatas e apelos à liberdade de expressão, aos direitos das mulheres, ao fim da segregação racista.

Nesse contexto, a música já não era mais composta para bailes. Aqueles arranjos simples com três acordes deram lugar a arranjos complexos, mesclando rock e música clássica, às vezes com influência da música oriental, e com tudo mais o que a criatividade artística concebesse livremente, abolindo preconceitos. O ritmo mudou tanto que já não podia mais ser dançado, exigindo apenas a audição e apreciação do ouvinte. As letras então se tornaram mais elaboradas poeticamente e engajadas politicamente. E a música passou a ser apenas ouvida, e quando cantada, as canções converteram-se em hinos daquela geração.

Os Beatles reinavam absolutos como a voz mais influente da época, mas seus discípulos diretos e indiretos também estavam presentes, não só unindo-se ao coro, mas tentando levar a revolução cultural a níveis cada vez maiores.

No centro do mundo capitalista, os EUA, o festival de Woodstock em 1969 reuniu artistas como The Who, Janis Joplin, Jimi Hendrix e um público recorde de jovens em torno de uma única celebração. Era também uma fuga da agitação e dos problemas daquela época conturbada.

No ano seguinte, Jimi Hendrix e Janis Joplin morreriam aos 27 anos. Nove meses depois Jim Morrison juntar-se-ia a eles, também aos 27. Parecia o destino cobrando o seu preço por uma vida de muitos exageros: muitas festas, muitas drogas e muito trabalho.

No mesmo ano em que Jimi e Janis transcenderam deste mundo, os Beatles se separaram. Eles já não eram mais tão jovens, estavam chegando aos 30 e haviam tocado juntos por mais de 10 anos. Cada um foi se dedicar à sua própria família e carreira solo. Assim, 1970 foi um ano de perdas inestimáveis para aquela geração, causando algumas desilusões, marcando o fim de uma era, mas aquela agitação ainda perduraria por mais uns anos como um efeito ressaca. Bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd se propuseram à missão de elevar o som dos anos 60 a patamares ainda mais complexos.


A poesia do Rock

Em “My Generation” (1965) o grupo The Who cantava ao espírito jovem contestador que questionava os valores pelos quais os pais educavam seus filhos. Um dos hinos daquela geração. A seguir um trecho da letra:

As pessoas tentam nos colocar pra baixo
Só porque nos damos bem
As coisas que eles fazem parecem terrivelmente frias
Espero morrer antes de ficar velho
Essa é a minha geração, baby

Por que vocês todos não desaparecem?
E parem de tentar entender o que nós dizemos
Não estou tentando causar nenhuma confusão
Só estou falando sobre a minha geração


No auge da agitação eis que surge um poeta tímido, Jim Morrison, mas ao assumir uma personalidade dionisíaca, tornar-se-ia um símbolo da liberação sexual. Nas apresentações ao vivo da banda, o poeta convocava os jovens à revolução:

The Doors - Five to One, 1968 (trecho):

Cinco contra um, baby
Um e cinco
Ninguém sai daqui vivo, agora
você leva os seus e eu levo os meus
Vamos conseguir, baby, se tentarmos

Todos nós envelhecemos e os jovens se fortalecem
Pode levar uma semana e pode levar mais tempo
Eles têm as armas, mas nós temos a maioria
Vamos vencer, sim, estamos dominando!

Seus dias de baile acabaram, baby


As condições de vida formaram o espírito da época que inspirou os jovens a acreditarem que um mundo melhor era possível e que isso dependia apenas deles, cobrando da juventude uma mobilização para tomarem o controle da política e de suas vidas, caso contrário poderia não haver futuro. Sonhando em fazer um mundo ideal, lutava-se contra problemas concretos: a guerra, o racismo, os valores machistas e as ditaduras (cada país tinha a sua a seu modo).


John Lennon - Imagine, 1971 (trecho):


Imagine não haver propriedades
Eu me pergunto se você consegue
Nenhuma necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens

Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só.



Era uma época diferente. Alguns daqueles anseios parecem não fazer mais sentido hoje, outros como a luta pela igualdade, o fim da fome e a paz, ainda são utopias de toda a humanidade.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Precisa-se de profissionais de Letras






Profissões que ainda não existem ou não têm nome reconhecido, mas extremamente necessárias no mercado de trabalho hoje, e que no futuro poderão ser indispensáveis.



FACILITADOR LINGUÍSTA EMPRESARIAL
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Redação Empresarial, Linguística Textual, Gramática e Semântica; Noções de Marketing.
Atributos: Solucionar e prever problemas de comunicação interna em empresas. Criar e gerenciar estrategicamente a comunicação interna, podendo também revisar a comunicação externa.

* O profissional bilíngue traduz a comunicação empresarial no caso de empresas bilíngues ou de comércio internacional.



LINGUÍSTA FORENSE
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Gramática, Semântica, Análise do Discurso, Literatura e Retórica; Noções de Direito.
Atributos: Revisar qualquer texto jurídico tornando-o formal, claro e objetivo; auxiliar na redação de Leis resolvendo problemas como: falta de coesão e coerência, ambiguidade, redundância, cacofonia etc. Como consultor de retórica e analista de discurso, revisar depoimentos e criar estratégias eficazes de interrogar testemunhas.

* O profissional bilíngue traduz a comunicação jurídica em casos de Direito Internacional.



SOCIOLIGUÍSTA CLÍNICO
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Socioliguística, Fonomorfologia, Literatura, Estilística, Oratória e Teatro; Noções de Psicanálise.
Atributos: Seguindo a lógica da psicologia clínica, da psicanálise clínica e da filosofia clínica, porém, com o foco na linguagem, o sociolinguísta clínico desmistifica supostos “problemas” de fala, atuando como um agente motivacional da fala e da auto-estima. Pode atuar também como Professor de Oratória e como treinador técnico de profissionais da fala (professores, advogados, palestrantes, políticos etc). Na consultoria, prepara atores para papéis que requerem treino linguístico específico, buscando fidelidade com a fala autêntica ou idealizada para a construção da personagem, evitando estereótipos grosseiros.

* O profissional bilíngue oferece cursos para quem precisa se expressar melhor em outra língua, com ou sem marcas de regionalidade (sotaque), de acordo com o objetivo da comunicação.



CONSULTOR BIBLIOGRÁFICO
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Gramática, Redação, Literatura, Filosofia, Retórica, Ciências Sociais e Normas da ABNT; Noções de Biblioteconomia.
Atributos: Apontar caminhos, abordagens, teorias, textos e bibliografia para pesquisadores e empresas; revisar normas científicas ou padrões de formatação textual; solucionar problemas epistemológicos, revisar textos dissertativos e propor melhorias no argumento.


Obs: em todas as profissões, o estudo da Ética deve ser um requisito.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Padre Anchieta e seu polêmico legado


“Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro... Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar... Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!” (Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel, 1500).


Esse era o pensamento comum da época. Acreditava-se que impor o evangelho ao nativo seria o maior testemunho de bondade que os portugueses deviam fazer. Como instituição, a Igreja errou feio. Alguns índios se salvaram da escravidão colonial [laica] a troco de serem escravos das obras da Igreja. Porém, os jesuítas fizeram o que acreditavam ser para o bem do índio, resgatando-o de seus vícios: o uso de cauim, do fumo, a poligamia, a antropofagia; costumes que Pe. José de Anchieta combateu por meio de seu teatro alegórico.


Há que se considerar o contexto histórico antes de condená-lo. Como homem, José de Anchieta não pode ser julgado pelos valores em que hoje acreditamos, até porque no futuro muitas de nossas ideologias e até nossa ciência serão também consideradas torpes.


Entretanto, o mesmo relativismo não pode ser usado para justificar crimes hediondos tais aqueles cometidos pelos militares nos anos de chumbo. Como recentemente revelou a Comissão da Verdade, houve extermínio de aldeias indígenas por parte da ditadura. A aculturação promovida pelo Padre no contexto do séc. XVI não é do mesmo tipo de atrocidade que os bombardeios de aviões sobre aldeias, o uso da varíola como arma biológica, as prisões e torturas de índios no Brasil do séc. XX.


Sem julgamentos morais, prefiro pensar em Anchieta como o autor da primeira gramática de língua indígena brasileira, impressa em 1595. Também como poeta, dramaturgo e historiador ele nos legou documentos que nos permitem vislumbrar um pouco do Brasil quinhentista, das batalhas travadas, dos costumes nativos e da fé que se propagava naquele período.


A recente canonização do Padre Anchieta torna mais atrativo aos olhos do turista os Passos de Anchieta, as ruínas da igreja jesuíta em Guarapari e tudo o que ainda cerca a história de vida do padre no estado do Espírito Santo.

Ruínas da igreja jesuíta em Guarapari-ES


segunda-feira, 17 de março de 2014

Música + Cinema: produções para ver e rever



Dicas de filmes que tratam da música e tudo o que o seu universo envolve.



Amadeus (Amadeus, 1984) – Adaptado de uma peça teatral, este filme foi vencedor de 8 (merecidos) Oscars, incluindo o de melhor filme. A vida do compositor classicista Wolfgang Amadeus Mozart é contada na ótica de seu rival Antonio Salieri (F. Murray Abraham numa atuação emocionante!). Há muitas coisas para se destacar nesta obra-prima, mas escolho a cena em que o réquiem de Mozart é composto, na qual o espectador ouve instrumento a instrumento, como se estivesse dentro da cabeça do compositor. Mas não poderia deixar de mencionar também a cena em que Salieri descreve de forma arrebatadora a música que lê nas partituras de seu rival. O texto é belíssimo, enquanto a trama envolve questionamentos sobre a fé e sentimentos como a inveja e a ambição. Nesta produção a música parece reger o filme, e não o oposto como é de costume. Desde o seu início, som e imagem prendem o fôlego do espectador. A direção é de Milos Forman.



Quase Famosos (Almoust Famous, 2000) – No início da década de 70 tá rolando tudo! – como diria a personagem Penny Lane. O enredo semiautobiográfico escrito e dirigido por Cameron Crowe gira em torno de um jovem de 15 anos que tem a chance de excursionar com uma banda de rock, fazendo a cobertura da turnê para a revista Rolling Stone, publicação especializada em crítica musical. A banda em questão é Stillwater, um grupo fictício com repertório criado especialmente para o filme. O roteiro é leve, adorável, divertido e empolgante. Ao assistir a esta história, não estranhe se você se sentir nostálgico de uma época em que a música era mais apaixonante do que é hoje e o mercado fonográfico era mais inocente, antes de ele arruinar o rock and roll e tudo o que amamos nele. É um filme sobre viagens, festas, ilusões e pessoas tentando não dizer adeus. A trilha sonora também inclui canções de Led Zeppelin, Yes, Simon & Garfunkel, Deep Purple, Black Sabbath, Jimi Hendrix, Elton John, entre outras.



Hair (Hair, 1979) – Musical adaptado da Broadway para o cinema, conta de modo bem humorado sobre o modo hippie de viver. Tudo começa quando um jovem do interior vai à Nova York para se alistar no exército, mas no caminho depara-se com um grupo de hippies. Desse encontro surge paixão, amizade e aventuras que conduzem a trama a um final inesperado. As canções abordam temas como sexo, uso drogas, misticismo e, é claro, a Guerra do Vietnã. A cena em que Berger dança sobre a mesa é impagável! Esta e muitas outras cenas, além da trilha sonora e de um ótimo roteiro, fazem desta produção uma obra para ser vista e revista. Direção de Milos Forman.



 The Doors (The Doors, 1991) – Apesar das críticas de Ray Manzarek (tecladista dos Doors) sobre o roteiro ter exagerado ao mostrar um Jim Morrison sempre bêbado, o filme de Oliver Stone vale a pena pela trilha sonora e atuação impecável de Val Kilmer no papel do poeta do rock. Data máxima venia, o exagero torna-se justificado pela fama lendária que cerca de forma quase indissociável a breve carreira de Jim Morrison. Se o diretor focou demais nas extravagâncias do cantor é porque elas ajudaram a fazer dele uma lenda do rock e se não fosse por essa excentricidade o filme não despertaria tanto interesse. Mas fica a dica: é um filme baseado em fatos reais, mas não é um documentário, portanto, não devemos encará-lo como sendo uma biografia do ídolo. Em resumo, o filme é válido na sua intenção e sublime na sua arte. O casamento entre músicas e cenas é de um primor raro, superando em muito os videoclipes da MTV.



 Backbeat – Os 5 rapazes de Liverpool (Backbeat, 1994) – Filme baseado na história dos Beatles antes de alcançarem fama, ainda na época em que começaram a tocar em casas noturnas da Alemanha. O enredo tem a banda como pano de fundo, mas prefere focar na curiosa história do artista plástico Stuart Sutcliffe, que por um breve período tocou com os Beatles. A amizade entre Stuart e John Lennon, a paixão de ambos pela fotógrafa Astrid Kirchherr, as brigas, sonhos e dilemas são mostrados como o gatilho para o que viria a ser o fenômeno Beatles. Mas não espere ouvir canções de Lennon-McCartney aqui. A trilha sonora é composta de canções de Chuck Berry e outros dessa geração que inspirou os Beatles e sempre fez parte de seu repertório de covers. A produção é pequena, mas cumpre bem o seu papel. O filme cria uma atmosfera em torno da pintura abstrata, da poesia simbolista francesa, da fotografia artística, casando tudo isso com rock and roll. Neste casamento, acertou em cheio!


Bônus: não poderia deixar de fora estas produções nacionais...


Cazuza – O tempo não para – Uma história chocante contada por uma poesia inspiradora. A narração do Cazuza-personagem explicando suas motivações em cada ato é o maior acerto desta produção. A cena de Cazuza no mar, com música de Lobão: “Vida louca, Vida breve, Já que eu não posso te levar, Quero que você me leve” é a entrega final, a aceitação do irremediável destino.


Somos tão jovens – Thiago Mendonça interpreta Renato Russo para contar nesta produção a história do nascimento do punk-rock de Brasília. A trama se concentra no Aborto Elétrico, mencionando a Plebe Rude e o Capital Inicial, até que a Legião Urbana se forme e faça a sua grande estreia.  A cena em que tocam “Ainda é Cedo” se destaca como a mais cativante do filme.

Gonzaga de pai pra filho – Excelente produção nacional sobre a vida de Luiz Gonzaga, o rei do baião, e Gonzaguinha: dois entre os maiores nomes da música popular brasileira. Atuações emocionantes, direção impecável e trilha sonora perfeita!


Outros que considero muito bons e recomendo:

- La Bamba (La Bamba, 1987) sobre o astro do rock Ritchie Vallens.
- A Fera do rock (Great balls of fire, 1987) sobre o pianista Jerry Lee Lewis.
- The Commitments – Loucos pela fama (The Commitments, 1991) sobre uma banda fictícia que tenta reviver as emoções da soul music na Irlanda.
- Minha amada imortal (Immortal Beloved, 1994) sobre Ludwig Van Beethoven.
- Dois filhos de Francisco, produção nacional sobre a infância e início do sucesso de Zezé Di Camargo. 
 

sábado, 15 de março de 2014

Para quem não lê, para quem lê e não entende e para quem escreve...

Erros comuns de quem lê, mas não CONHECE poesia:

1- Achar que poesia é algo “bonitinho” feito para confortar, alegrar ou enfeitar.

2- Achar que poesia pode ser interpretada de qualquer forma, dependendo da vontade ou subjetividade de cada um.

3- Achar que o conteúdo escrito é válido para todas as épocas, em especial, a SUA.

4- Achar que aquilo foi escrito para alguém específico, digamos... VOCÊ.

5- Achar que qualquer pensamento ou expressão de sentimentos é uma boa poesia.

ENTENDER a poesia é sempre um desafio. Costumo dizer que quem lê e entende poesia, entende qualquer tipo de texto (além de ler o mundo de forma mais crítica e consciente).

A seguir, apresento uma justificativa para cada item numerado acima.


1 - A poesia é uma forma de reflexão retórica. Embora seja bela, por trazer musicalidade em sua forma; e cativante, por organizar o conteúdo de forma lógica, ela não tem o objetivo de agradar, mas apenas de ser uma bela reflexão, isto é, ser a expressão organizada (artística) de uma subjetividade única (original). Então, nunca pense em poesia como sendo algo “bonitinho”, mas sendo uma técnica de argumentação.

2- A poesia tem como objetivo passar uma mensagem esteticamente organizada. Se essa mensagem pudesse ser interpretada de qualquer forma, não haveria razão de ela existir. Todo texto tem uma mensagem que é comunicada ao leitor pelo autor. Embora a poesia tenha sentido amplo, isto não significa que ela possa ser interpretada ao bel prazer do leitor. A motivação do autor (formada pelo seu contexto histórico e psicológico) deve ser levada em consideração para se entender a mensagem de um texto.

3- Nada é tão universal que possa ser interpretado fora de seu contexto (exceto para o New Criticism que valoriza a ambiguidade e as múltiplas interpretações). Cada autor tem uma motivação própria ao escrever. O contexto histórico e psicológico de cada um é dialeticamente determinante na produção do texto (contexto histórico e condições materiais de existência + subjetividade do autor = poesia).

4- É verdade que a poesia une todas as subjetividades individuais em sentimentos comuns a toda espécie humana, mas isto não significa que o autor entenda a subjetividade de seus leitores. Pelo contrário, o leitor deve se esforçar para entender a subjetividade do autor. Esta tarefa nunca será perfeitamente possível, mas o leitor deve se esforçar para assim apreender pelo menos o essencial de cada texto. Ler é um exercício de empatia e isto devemos colocar em prática também em nossas vidas.

5- Se você escreve poesia, não se iluda pensando que seus leitores o entenderão. A moeda mais válida na poesia é a estética, então, ao escrever, capriche na organização formal e na argumentação. Só assim sua produção textual será considerada bela pelos seus leitores, ainda que seja impossível compreenderem inteiramente a sua subjetividade. Ao escrever, ouse ir aos lugares incomuns de sua consciência, mas faça-o de modo textualmente organizado. O bom texto é original em conteúdo, mas técnico em sua forma.

Em resumo, a leitura requer empatia e prática do leitor. A escrita exige, além de uma boa vivência de mundo, um grande conhecimento das ferramentas linguísticas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Abordagens Humanas

Abordagens que explicam o ser humano internamente (seus desejos e angústias):
- As artes;
- As psicologias;
- A psicanálise.

Abordagens que explicam o ser humano externamente (relações comunitárias e políticas):
- A filosofia;
- As ciências sociais (sociologia e antropologia);
- A história.



As abordagens externas, para serem mais bem sucedidas, devem passar antes pelas abordagens internas. Isto porque o ser humano não é apenas "fruto do meio", mas o resultado dialético (síntese) entre o interior e o exterior.

Para entender as motivações humanas e a obra de um indivíduo ou de uma sociedade, deve-se antes analisar a subjetividade exteriorizada no meio. Essa subjetividade humana é o motor que impulsiona a chamada "contextualização histórica" da qual todos somos cúmplices e vítimas.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Breve análise do soneto “A pá”



Para não perder o costume, fiz uma breve análise sobre um soneto de minha autoria. Segue o poema:

A pá


Não, a palavra não é metafórica
Quando é forte para plantar os ossos
E colher o perdão dos entes nossos
Numa elegia muda e pictórica.

A palavra num enterro é concreta:
A pá lavra o pó antes do epitáfio
E a sua própria função leva a fio
Para deixar a tarefa completa.

Apaga a triste mágoa já passada.
A pá – gastrite da terra – já cega,
Surda, só, junto ao defunto ela encerra:

A lágrima da remissão negada
Ou a silenciosa dor que teve em vida –
Ao som seco e sacro de pá – rompida.


Renan, abril de 2013.
Publicado em:
http://interludico.blogspot.com.br/2013/04/soneto-sobre-o-perdao-dado-apos-morte.html


Breve análise

Decassílabo com rimas no esquema: ABBA, CDDC, EFF, EGG.
As rimas FF são imperfeitas.

Há aliteração do S para reproduzir o som da pá cavando um túmulo, 
algo como: s, s, s..

Ficou assim:
A pá – gastrite da terra – já cega,
Surda, só, junto ao defunto ela encerra (...)
(...) a silenciosa dor que teve em vida –
Ao som seco e sacro de pá – rompida.


Há paranomásia em:

A palavra num velório é concreta:
A pá lavra o pó antes do epitáfio

Apaga a triste mágoa já passada.
A págastrite da terra – já cega,


Outras semelhanças fonéticas na 3ª estrofe:

terra/encerra (rima interna)
junto ao defunto (rima interna)

Semântica:
A primeira estrofe lança uma tese que será defendida nas duas estrofes seguintes. A última estrofe apresenta uma conclusão.

Há metáfora em “elegia muda e pictórica” (1ª estrofe) = [O triste silêncio na hora do enterro].

Há uma figura de oposição entre “metafórica” (1ª estrofe) e “concreta” (2ª estrofe).

Há metáfora em “A pá [no ato de cavar]” = “gastrite da terra” (3ª estrofe).

Há prosopopeia em “A pá já cega, surda, só” (3ª estrofe)

Há figura de inversão (hipérbato) entre a 3ª e 4ª estrofe. Na ordem direta seria: “a pá encerra [termina com]: a lágrima da remissão negada ou a silenciosa dor que o defunto teve em vida”.

Há hipérbato na 4ª estrofe. Na ordem direta seria assim: “silenciosa dor rompida ao som de pá”