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sábado, 27 de maio de 2023

Diferenças entre cultura grega e romana

Olhando para a Roma antiga vemos muito da cultura etrusca e também dos antigos gregos. Mas Roma, além de fagocitar a arte de povos vizinhos, desenvolveu e gerou sua própria arte. 

A seguir apontarei algumas diferenças de destaque na cultura romana.


Na arquitetura e urbanismo   

Grécia (Hellás)

Roma (SPQR)

Pilar e dintel


 
Templos com colunas. Ex: Partenon.
 

Ágora
 

Teatro.
 

Arcos triunfais e aquedutos.


 
Construções com abóbadas e domos. 
Ex: Panteão.
 

Fórum
 

Anfiteatro. Ex: o Coliseu de Roma e a Arena de Verona.
 

Além disso: mausoléus e sistema de esgoto.

 


 Na escultura, pintura e mosaico

Grécia (Hellás)

Roma (SPQR)

Nudez atlética de deuses e semideuses.

 

Mito, fantasia.

Bustos de imperadores.

 

Realismo.

 


Religião, política e literatura

Grécia (Hellás)

Roma (SPQR)

Paganismo, politeísmo.
(Zeus)


Democracia

 

Filosofia e retórica.

  

Três epopeias:
Teogonia;
ILIADA;
Odisseia.

 

Poesia lírica: idealização.



Teatro: tragédia e comédia [atores].

 


Noções de ateísmo.

Paganismo, politeísmo.
(Júpiter)


República, senado

 

Direito e oratória.

  

Uma epopeia:
Eneida.

 

 


Poesia lírica: pragmatismo.



 Pão e circo [gladiadores].

 


Cristianismo original.


Muito do que se via na Grécia antiga via-se também na Roma antiga. Mas assim como a Grécia, Roma também acrescentou muitas novidades ao mundo. O nosso modo de vida atual tem sua origem nessas culturas.

Por sua vez, Grécia e Roma tiveram influência de culturas mais antigas, como Egito e Fenícia.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Mix cultural: nossa herança

Culturas que formaram o Brasil
Indígena nativa [tupi, guarani e outras]
Portuguesa ³
Africana [bantu]
Italiana
Alemã
Pomerana
Sírio-libanesa [cultura árabe]
Japonesa
Judaica
Americana [EUA após a Segunda Guerra Mundial]

³ Povos que formaram a cultura de Portugal
Celtas [originários da região]
Fenícios
Romanos ¹
Mouros [cultura árabe] ²
Judeus
Franceses, espanhóis e ingleses

² Culturas influentes na cultura árabe
Indiana
Chinesa

¹ Povos com culturas influentes na formação do Império Romano
Etruscos
Gregos*
Egípcios

* Culturas que influenciaram a Grécia Antiga
Fenícios
Egípcios
Persas

Cultura é o modo de viver de um povo. Isso inclui suas tradições orais [mitos], religião, música, literatura [poesia, narrativa e teatro], arquitetura, pintura, escultura, culinária etc.

Vendo esse resumo que remonta até a História Antiga é possível perceber como a cultura brasileira é mais do que um mix entre indígenas, portugueses e africanos. 

Os portugueses nos legaram a cultura greco-romana, a cultura judaico-cristã e a cultura moura.

Os árabes e os mouros levaram a cultura da Índia e da China à Europa e isso veio até nós pelos europeus.

E a cultura greco-romana bebeu num mix de culturas orientais e africanas.

Enfim, por esse ponto de vista, o povo brasileiro está ligado a todos esses povos e culturas. E a muitos outros, pois isto aqui é apenas um resumo. 

A nossa identidade cultural não conhece fronteiras. E o mesmo vale para os povos que nos formaram. Nossa nacionalidade até pode ser definida por um mísero papel: certidão de nascimento, RG ou passaporte. Mas as nossas raízes culturais são muito mais profundas e cosmopolitas. Nosso inconsciente coletivo está povoado pelo imaginário de milhares de anos de trocas culturais entre esses povos e suas realizações artísticas.

Portanto, não pregue ideias pequenas e preconceituosas, como nacionalismo e xenofobismo. Somos maiores do que isso! Não imponha limites a seu gosto artístico baseando-se em um território, um povo, uma língua, uma cultura, uma época... O Brasil não tem apenas 523 anos. Temos milênios de história em nossa formação, em nossa cultura, em nossa mente, sangue e DNA.

Durante milhares de anos o nosso habitat natural foi a savana africana. Por isso, até hoje, gostamos de um jardim com grama bem aparada, arbustos baixos e árvores bem espaçadas. É como nos sentimos seguros, tendo um campo de visão aberto. Durante milhares de anos fomos nômades, até inventarmos a agricultura e posteriormente as cidades, muito recentemente em termos históricos. A aventura do descobrimento está há muito mais tempo enraizada em nossa espécie do que o atual sedentarismo monótono.

Aprenda novas línguas, novos ritmos, novas formas de pensar e de viver. Amplie seus horizontes! Enriqueça seu vocabulário, seu gosto musical... Experimente novos sabores, na mesa e nas artes. Leia muito! Viaje pelo mundo através de livros, canções e pratos! Volte aos nossos antepassados. Conheça suas raízes históricas! Crie novas sinapses, pois elas serão úteis durante toda a sua vida.

A vida pode ser rica, feliz e longa para aqueles que se abrem ao prazer de agregar conhecimento! Ou a vida pode ser pobre, chata e curta para aqueles que se limitam a minúsculos espaços repetitivos em suas mentes e em seus hábitos diários.

Vale muito mais a pena 1 ano de experiências que engrandeçam a alma, do que 100 anos dormindo no escuro.

Acorde para a vida!





quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Resumo: História Ocidental

Antiguidade

Mosaico romano - A Odisseia

Filosofia: Tales, Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, epicuristas, estoicos.

Literatura grega: Homero, Píndaro, Safo, Anacreonte, Esopo, Aristófanes, Sófocles.

Literatura romana: Lucrécio, Cícero, Horácio, Ovídio, Virgílio, Sêneca.

Pintura e escultura: arte clássica [greco-romana].

Música: ditirambo, ode, epinício, elegia. 


Idade Média

Mosaico bizantino - o Imperador Justiniano

Filosofia: Averróis, Avicena, Agostinho, Tomás de Aquino.

Literatura: Trovadorismo.

Pintura e escultura: Bizantina.

Música: cantos gregorianos.


Renascimento

Michelangelo- Criação

Filosofia: Kepler, Copérnico, Galileu, Newton, Erasmo de Roterdã, Bacon.

Literatura: Dante, Boccaccio, Petrarca, Gil Vicente, Camões, Shakespeare, Cervantes.

Pintura e escultura: Da Vinci, Donatello, Rafael, Michelangelo.

Música: Palestrina, Claudio Monteverdi.


Barroco

Caravaggio - Salomé

Filosofia: Descartes, Locke, Leibniz, Spinosa, Maquiavel, Hobbes.

Literatura: John Milton, Padre Vieira, Gregório de Matos.

Pintura e escultura: Rembrandt, Velásquez, Aleijadinho.

Música: Pachelbel, Albinoni, Vivaldi, Bach, Händel.


Iluminismo/Neoclassicismo

J. Louis David - Napoleão

Filosofia: Hume, Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Kant.

Literatura: William Blake, Bocage.

Pintura e escultura: Jacques Louis David

Música: Haydn, Mozart, Beethoven.


Séc. XIX

Monet - Bazille et Camille

Filosofia: Hegel, Kierkegaard, Darwin, Marx, Comte, Nietzsche.

Literatura: Goethe, Dostoievski, Toltoi,  Edgar Allan Poe, Castro Alves, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Baudelaire.

Pintura e escultura: Goya, Flaubert, Manet, Monet, Renoir, Van Gogh.

Música: Paganini, Rossini, Puccini, Tchaikovski, Verdi, Schubert, Strauss, Chopin, Wagner, Brahms, Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga.


Séc. XX

Abelardo da Hora - Desamparados

Filosofia: Escola de Frankfurt, Sartre, Beauvoir, Heidegger, Husserl, Einstein, Frege, Propper, Barthes, Derrida, Camus, Foucault.

Literatura: Monteiro Lobato, Fernando Pessoa, Neruda, Kafka, Borges, García Marquez, Drummond, Clarice Lispector, Saramago.

Pintura e escultura: Pablo Picasso, Salvador Dalí, Frida Khalo, Munch.

Música: Stravinski, Ravel, Carl Orff, Heitor Villa-Lobos, Carlos Gardel, Louis Armstrong, Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Frank Sinatra, Chuck Berry, The Beatles, Jimi Hendrix.


terça-feira, 2 de julho de 2019

Diálogo entre Sócrates e Glauco


De olho no governo de Atenas, Glauco, filho de Aristão, nem vinte anos tinha e queria ser orador popular. E embora arrancado da tribuna, vaiado, nenhum parente nem amigo conseguia fazê-lo desistir. Sócrates, em razão de sua amizade a Platão, seu irmão, foi conversar com ele. 

- Glauco, – disse-lhe Sócrates – soube que pretendes governar a cidade. 

- É verdade, Sócrates. 

- Por Zeus! É o mais belo projeto que se pode arquitetar. Se conseguires, estarás em condições de conseguir tudo o que desejas, servirá a teus amigos, engrandecerá a casa de teus pais e a tua pátria. Começarás fazendo teu nome em tua terra, depois em toda a terra e, quem sabe, até entre os bárbaros. Aonde fores todos os olhares se voltarão sobre tua pessoa. 

Ouvindo estas palavras, Glauco encheu-se de orgulho e ficou todo alegre. Prosseguiu Sócrates: 

- Não é evidente que se quiser honras deverá servir à República? 

- Claro. 

- Em nome dos deuses! Não me esconda nada e me diz qual o primeiro serviço que pretende prestar à cidade. 

Glauco ficou em silêncio, procurando por onde começar. Como Glauco não decidia o que dizer, Sócrates continuou: 

- Não tentará enriquecer a cidade? Como se fosse casa de um amigo? 

- Sim. 

- Procurar maiores rendas não será o meio de torná-la mais rica? 

- Evidentemente. 

- Então, diga-me de onde tiram hoje as rendas do Estado e qual o seu montante. Certamente fizeste teus estudos, para suprir os produtos que faltarem. 

- Por Zeus! – respondeu Glauco – nunca pensei nisso. 

- Já que não pensaste neste ponto, diga-me, ao menos, quais são as despesas da cidade: porque não resta dúvida de que sua intenção é abater as supérfluas. 

- Palavra! Também não pensei nisso. 

- Tudo bem, deixemos para depois o projeto de enriquecer o Estado. Como poderíamos fazer isso antes de conhecer as despesas e as rendas? 

- Mas Sócrates, também podemos enriquecer a República com os despojos dos inimigos. 

- Sim, sem dúvida, se formos mais fortes que eles. Se formos mais fracos, nós é que seremos despojados... 

- Realmente. 

- Quem deseja empreender uma guerra precisa, pois, conhecer a força de sua nação e a dos inimigos, a fim de, se sua pátria for mais forte, poder atacar, se mais fraca, manter-se na defensiva. 

- Tens razão. 

- Diga-me quais são as forças de nossa cidade, em terra e mar, depois as dos inimigos. 

- Ora, assim desprevenido não posso te responder! 

- Se tens em casa alguma anotação sobre o assunto, esperarei com o maior prazer. 

- Não, nada tenho. 

- Muito bem, outro dia pensaremos sobre as guerras. O assunto é vasto, e como começa agora na administração, não teve tempo de estudá-lo. Mas sei que já se ocupou com a defesa da cidade. Sabe quais são as guarnições necessárias e quais são desnecessárias, em que pontos os guardas são mais numerosos, onde são insuficientes? Aconselharás que reforcem as guarnições e se suprimam as supérfluas? 

- Por Zeus! – disse Glauco – minha opinião é de que devemos acabar com todas, pois guardam a cidade tão mal que os inimigos roubam tudo. 

- Mas não acha que eliminar as guarnições seria deixar a cidade à mercê dos ladrões? Além do mais, visitastes as guarnições? Como sabes que não cumprem seu dever? 

- Suponho-o. 

- Então, quando tivermos algo mais que suposições , aí deliberaremos sobre o assunto. 

- Talvez seja melhor. 

- Sei Glauco – retomou Sócrates a conversa – que não estivestes nas minas de prata, de forma que não podes dizer por que produzem menos que outrora. 

- Ainda não estive lá – confirmou Glauco. 

- Dizem que o ar de lá é insalubre: tens nisso bom argumento se vierem te perguntar. 

- Estas caçoando de mim, Sócrates. 

- Mas tenho certeza de que pelo menos examinaste cuidadosamente quanto tempo pode o trigo colhido alimentar a nação, quanto se consome mais a cada ano, para que a escassez não te surpreenda e possas tomar as medidas preventivas. 

- Tu falas – disse Glauco – de tarefa muito cansativa, se for necessário ter atenção em tantos detalhes. 

- Mesmo assim – retorquiu Sócrates – nem a própria casa será capaz de administrar quem não conhece todas as necessidades e não souber satisfazê-las. Visto contar a cidade mais de dez mil casas e não ser fácil ocupar-se de tantas famílias ao mesmo tempo, por que não ensaiaste tentando engrandecer apenas uma, a de teu tio? Ela necessita de tua ajuda. Se desses conta da tarefa, então poderias procurar uma tarefa maior. Mas se não sabes ser prestativo para um único indivíduo, como poderias ser útil a todo um povo? 

- Ah! Certo! – exclamou Glauco – Isso se meu tio me desse ouvidos! 

- Como! – replicou Sócrates – Não foste Capaz de persuadir teu tio e esperas fazer-te ouvir por todos os atenienses, incluindo teu tio? Vê lá, Glauco, se de olho na glória não confunde as coisas. Não vês como é perigoso dizer ou fazer o que não se sabe? Pense nas pessoas que conheces que falam sem saber do que falam: são admiradas ou desprezadas? Olha, ao contrário, aqueles que sabem o que dizem, e verás que reúnem ao redor deles pessoas que os admiram, enquanto o desdém é o que resta aos ignorantes. Se amas a glória e queres ser admirado, procura saber, antes, sobre o que deseja realizar, e não me surpreenderei se alcançar o que ambicionas. 



Xenofonte. Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates. Livro III, Capítulo VI. Tradução de Líbero Rangel de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Coleção Os Pensadores.

Xenofonte (430 a.C. — 355 a.C.), discípulo de Sócrates e autor do texto.
Sócrates (469 a.C. — 399 a.C.), considerado um dos mais importantes filósofos ocidentais.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

12 pensamentos geniais de Oscar Wilde


“Todos estamos deitados na sarjeta, só que alguns estão olhando para as estrelas.”

“Um sonhador é aquele que só ao luar descobre seu caminho e que, como punição, vê o dia amanhecer antes do resto do mundo.”

“Só existem duas regras para escrever: ter algo a dizer e dizê-lo.”

“Se somos tão inclinados a julgar os outros, é porque tememos por nós mesmos.”

“O mundo é um palco, mas seu elenco é um horror." (parodiando Shakespeare)

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
(Isto ressoa como uma crítica ao 
"Cogito, ergo sum" de René Descartes)

“Afinal, o que é a moda? Do ponto de vista artístico, uma forma tão intolerável de horror que tem de ser mudada a cada seis meses.”

“Se a natureza tivesse sido confortável, o ser humano jamais teria inventado a arquitetura.”

“Qualquer um pode ter empatia com o sofrimento de um amigo. É simpatizar com o sucesso dele que exige uma natureza delicada.”

“Quando descobrirmos as leis que regem a vida, perceberemos que os homens de ação têm mais ilusões do que os sonhadores.”

“Dê uma máscara ao homem e ele dirá a verdade.”

“A arte nunca deve tentar ser popular. O público é que deve tentar ser artístico.”

Fonte: revista bula

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Supertramp - Logical Song (tradução)




Canção Lógica (The Logical Song)

Quando eu era jovem
Parecia que a vida era maravilhosa
Um milagre
Ah era tão bonita, mágica.

E todos os pássaros nas árvores
Cantavam tão felizes
Ah, alegres
Brincalhões, eles me observavam.

Mas depois eles me mandaram sair dali
Para me ensinar a ser sensato,
Lógico,
Ah responsável, prático.

E me mostraram um mundo
Onde eu poderia ser muito confiável,
Ah, clínico
Ah, intelectual, cínico.

Há momentos quando todo o mundo dorme
E os questionamentos são tão profundos
Para um homem tão simples.
Você não vai, por favor, me dizer o que aprendemos?
Eu sei que parece absurdo
Mas por favor, diga-me quem sou eu

Agora cuidado com o que você diz
Ou eles vão te chamar de radical,
Um liberal
Ah, fanático, criminoso.

Ah, por que você não assina o seu nome?
Gostaríamos de ver que você é aceitável,
Respeitável,
Ah, apresentável, um vegetal.

Durante a noite quando todo o mundo dorme
Os questionamentos são tão profundos
Para um homem tão simples
Por favor (você não me dirá?)
Por favor diga-me o que aprendemos (consegue me ouvir?)
Eu sei que parece absurdo
Mas por favor diga-me quem sou eu

Quem sou eu
Quem sou eu
Quem sou eu

(Pois me sinto tão ilógico
D-d-digital
Um, dois, três, quatro, cinco
Oh oh oh oh
Inacreditável
Incrivelmente maravilhoso).

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Contestando Rousseau

Disse Jean-Jacques Rosseau: "O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe".

Isso dito no contexto a que Rousseau se referia, talvez pareça mais verdadeiro. Mas num contexto geral, seria mais razoável afirmar: o homem nasce sem consciência de bondade e maldade, mas pode ser cruel por sua própria natureza instintiva. Cabe à sociedade aparar-lhe as arestas.

Bondade e maldade não são conceitos relativos. Por exemplo, uma criança na tenra idade que atira pedras em passarinhos pode não ter a consciência do que é ser bom ou mal, mas a prática que ela realiza é má em si própria, pois fere outra vida.

Cabe à sociedade [família, escola, igreja, governo e mídia] o papel de educar esse ser, tornando-o sociável.

A essa educação, dá-se o nome de moral, que pode ser entendida a grosso modo como sendo regras sociais de boa conduta.

Mas há outro autor que tem algo a acrescentar nesta discussão:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera. 
Somente a Ingratidão – esta pantera – 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera! 
O homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera.  

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto dos Anjos)


Rosseau fala num contexto Pré-Romântico, interpretando os índios como "bons selvagens", em detrimento da sociedade francesa da época, corrompida.

Augusto dos Anjos fala de seu lugar peculiar na literatura, mantendo a hipótese de que o homem se corrompe a partir do meio social, mas também trazendo isso para o seu ponto de vista pessoal, como quem dissesse algo do tipo: não aceite a piedade dos homens, pois estes são traiçoeiros.

Mas considerando um contexto geral e, portanto, rejeitando a hipótese de ambos, daria para afirmar que o homem tem uma natureza cruel e que a sociedade o tornaria sociável e ético. Mas isso depende do papel que esta sociedade deseja assumir para si: se ela é responsável e cumpre o papel de educar a todos ou se ela desiste da difícil tarefa.

Contudo, se o ser humano é cruel por sua natureza e a sociedade é o conjunto de seres humanos, é possível existir uma sociedade bondosa?

Contradizendo essa lógica, penso que sim. E aí introduzo o conceito de "fazer esforços diários", como no aprendizado diário de uma língua estrangeira. Uma sociedade que faz seus esforços em ser boa, contrariando sua natureza humana e cruel, poderia chegar a ser boa, ou pelo menos, esta seria a definição de uma sociedade utópica: um conjunto de indivíduos que diariamente se esforça em praticar apenas o bem, pensando no bem coletivo e não só no seu próprio bem-estar individual, consciente de que isso faria bem a todos, inclusive ao próprio indivíduo, como no conceito de karma, que olhando assim não tem nada de místico ou metafísico, é pura lógica e física.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Humanas: 4 cursos que...

Se você é curioso, gosta de ler e aprecia as artes, estes são os quatro cursos das Ciências Humanas que, a meu ver, transformarão a sua visão de mundo:


Psicologia – é uma ciência humana por excelência. Busca o resgate daquele sujeito que, por algum motivo, julga-se perdido em alguma área da sua vida. O psicólogo ouve, avalia o caso (individual ou coletivo) e orienta. Em última análise, é o profissional encarregado de encaminhar o sujeito à busca de sua autorrealização, à procura da felicidade.

Atua em clínicas, hospitais, empresas públicas e privadas.


Letras – O conhecimento humano define-se, dentre outras coisas, pela linguagem. O profissional de Letras é um especialista na leitura, análise e ensino da língua e seus diversos códigos. Estuda a comunicação oral e escrita considerando o conteúdo e a estética textual. Reflete sobre os conceitos de significado, cultura e expressão.

Atua em escolas, faculdades, universidades, editoras etc.


Filosofia – É um conhecimento multidisciplinar por definição. Lida com questões humanas, naturais e metafísicas. Investiga o próprio conceito de “conhecimento”. Pondera sobre a essência do ser, da ética, da política, da estética e da felicidade. Em suma, encarrega-se das primeiras e mais profundas questões existenciais.

Atua em escolas, faculdades e universidades.


História – Registra e reflete sobre as ações humanas ao longo do tempo e suas implicações. Considera as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais. É a literatura dos fatos conhecidos e gerais. Ao lado das Letras, também é uma disciplina fundamental para todos os demais campos das Ciências Humanas.

Atua em escolas, faculdades, universidades e empresas.




sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Discurso, macacos e literatura

O signo linguístico é ideológico. Ele nasce a partir de um contexto temporal (histórico), espacial (geográfico), social, político, econômico e cultural. Também a comunicação é ideológica, porque, da mesma forma, nasce a partir de um lugar, uma história, um contexto, logo, é discurso.

Para entender melhor o conceito de ideologia, leia aqui a publicação de 30 de julho de 2015.

Visando a explicar didaticamente o conceito de discurso, proponho um exemplo imagético.  Numa árvore repleta de macacos, cada qual vivendo fixamente sobre um galho, cada macaco aponta e expressa ideias sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore. O galho representa o contexto histórico-geográfico-político-econômico-cultural diferenciado a que cada macaco pertence. O galho, portanto, determina a estrutura moral, cultural e emocional do macaco. A ideia que cada um faz sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore é o discurso. A árvore é a superestrutura histórico-geográfica na qual os macacos estão inseridos e por ela são determinados e condicionados. O conjunto de ideias expressadas é a superestrutura ideológica: moral-política-religiosa-cultural. Este conjunto de ideias (a ideologia) rege a consciência daqueles seres, ou seja, a forma de pensar sobre si e sobre o mundo e de se expressar, porém, limitados pelo paradigma da superestrutura: a árvore em que habitam.

A filosofia de Sócrates, o materialismo histórico dialético e a psicanálise contribuem respectivamente para que cada macaco perceba: 1- a própria ignorância sobre a árvore como um todo e a insustentabilidade de seus argumentos ao analisar o galho alheio do ponto de vista de seu próprio galho; 2- a necessidade de pensar criticamente para além da árvore, entendendo como ela determina e condiciona o discurso e o modo de viver; 3- a fragilidade de seu próprio galho, o qual enganosamente o macaco considera ser rígido o suficiente para sustenta-lo para sempre (neste caso, o galho representando a relação entre o sistema de valores morais e as emoções do primata).

Porém, mesmo com todas as filosofias, as teorias críticas, as ciências, a psicanálise e as psicologias, o macaco não pode enxergar muito além de seu próprio galho, tampouco contemplar toda a árvore do galho em que ele está desde quando nasceu, onde ele mora hoje e lá um dia morrerá. Ainda que o macaco seja muito crítico, ele não pode erguer o próprio galho onde ele se senta, o qual sustenta seu corpo, muito menos erguer ou derrubar a árvore sem descer de seu galho. O contexto pré-determinado de seu nascimento (o galho) e a superestrutura (a árvore) são uma conditio sine qua non da existência do macaco (considerando que todo o seu mundo é uma árvore e seu galho é uma parte desse mundo). Portanto, a visão desses macacos imagéticos é ad infinitum ideológica e o que eles expressam é discurso.

Além disso, a consciência deles está reduzida a uma visão parcial sobre o todo. Esta lacuna é necessariamente preenchida pela especulação, religião e expressões artísticas.

O signo linguístico é ideológico. Mas a língua na literatura não é mais um discurso ou “o Discurso” sobre moral, estética, sociedade, amor etc. Este papel de insucesso cabe às ciências, filosofias etc. A literatura, como todo o resto, também é ideológica, mas o seu papel não é (ou não pode ser) o de criar discursos, mas sim, apenas ser, existir, mostrar-se, estar o quanto tiver de estar, ser infinita enquanto dure e assumir sua efemeridade por ser apenas expressão fiel de emoções momentâneas (e comuns a todos, por isso eternas), sem a intenção de ser uma verdade ou a Verdade, o que a colocaria como mero discurso, mas, ao contrário, sendo assumidamente uma ficção sobre tudo – o ser, a sociedade e o mundo –, tendo como ferramenta de trabalho todas as ciências, filosofias e religiões. A literatura, pelo menos enquanto catarse poética e solitária, assume para si o papel de ser uma ironia do discurso, não sendo mais um discurso ou antidiscurso, mas apenas uma ironia que não pretende mais do que ornar sua própria ironia, como uma macaca que se enfeita sem se interessar por nenhum macaco.

A função das ciências é muito objetiva: a manutenção da vida. A função das artes, religiões, filosofias e teorias da psique é dar um sentido a tudo, nem que seja pelo discurso, ou ao menos entreter e desmemoriar os primatas superiores de sua angústia existencial.


domingo, 23 de agosto de 2015

Níveis de leitura (parte 2)



Mas antes alguns conceitos que considero importantes:

Compreender um texto é apreender o seu sentido, entender o significado da mensagem sem interferir nas ideias do autor.

Interpretar um texto é dar vida a um texto, atuando, encenando, recitando, cantando, parodiando etc. construindo algo a partir dele.

Aprender é captar uma nova ideia, entendê-la e ser capaz de colocá-la em prática.

Aprender de cor (i.e: aprender de coração) é captar uma nova ideia, entendê-la, interiorizá-la e vivenciá-la no cotidiano colocando-a em prática sempre que necessário.

Pensamento crítico-reflexivo é construir uma nova ideia a partir da apreciação de uma ideia anterior, negando em parte a ideia anterior e até nossas ideias preconcebidas. Envolve os conceitos de racionalismo e dialética.


Níveis de leitura, do básico ao mais complexo:

1- Literatura infantil, material didático do ensino fundamental, publicidade voltada ao grande público;

2- Cadernos e notícias de jornal, matérias de revista de grande circulação, material didático do ensino médio, literatura infanto-juvenil, publicidade voltada a nichos de mercado, filmes populares, letra de música popular;

3- Editorial jornalístico, matérias de revista especializada, material didático do ensino superior (apostilas), crônicas jornalísticas, resenhas de filmes ou de livros;

4- Livros sobre filosofia e história da filosofia, peças teatrais e narrativas voltadas ao grande público, poesia marginal, crônicas literárias;

5- Peças teatrais, filmes e narrativas para público adulto com formação superior;

6- Obras filosóficas, publicações científicas;

7- Peças teatrais e narrativas de assunto político, filosófico ou psicológico; poesia clássica, neoclássica, romântica e parnasiana;

8- Poesia épica (epopeia), contos do gênero fantástico, romances modernistas e pós-modernos; poesia barroca, simbolista e surrealista.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O conceito de ideologia no materialismo histórico



No passado, o termo ideologia poderia ser concebido como sinônimo de falsa consciência. “Napoleão I, por exemplo, chamou de ideólogos pessoas das quais discordava” (Cornforth, 1982, p. 195).  Desde aquela época até hoje, o termo ideologia passou por uma reestruturação.

Por certo, houve deformações, por parte do senso comum, no conceito de Marx sobre ideologia, o que gerou alguns mitos em torno dessa palavra. “A palavra é muitas vezes usada em sentido exclusivamente depreciativo, denotando um sistema de idéias considerado radicalmente enganoso, porque é elaborado não para conceber as coisas como realmente são, mas para representar as coisas segundo a conveniência de uma facção ou de um ou outro interesse” (Cornforth, 1982, p. 195).

A palavra já foi usada se referindo à doutrina de um pensador, ou à teoria que orienta a prática. “Em sentido pejorativo, ideologia é o conjunto de idéias e concepções sem fundamento, mera análise ou discussão oca de idéias abstratas que não correspondem a fatos reais”. (Aranha e Martins, 1986, p 70).  Porém, para abordar o termo de forma objetiva e introdutória, as autoras de Filosofando definiram ideologia como “um conjunto lógico, sistemático e coerente de idéias e valores [representações] e regras [condutas] que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como pensar, o que devem valorizar e como valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, e como agir” (Aranha e Martins, 1986, p 70).

Um dos mitos que cercam o conceito de ideologia é o de achar que ideologia é uma criação de uma classe dominante. “Marx chamou a atenção para as raízes de classe, para o caráter de classe, e para a função das ideologias. Isso por vezes levou os marxistas à simplificação grosseira de dizer que é uma classe que cria uma ideologia e que para uma classe há sempre uma ideologia singular, única e integral dessa classe.” (Cornforth, 1982, p.195).


Em suma:

A ideologia não pode ser entendida como uma criação de uma classe dominante.
A ideologia não pode ser entendida exclusivamente no sentido pejorativo ou depreciativo.

Mais do que isso, ideologia são aquelas crenças e ideias que se manifestam na praxe material. É pela praxe que se identifica a ideologia de um povo. Como disse Marx: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas ao contrário, é o seu ser social que determina a consciência”.


Fontes:

ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena P. Filosofando, introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

CORNFORTH, Maurice. Comunismo e filosofia; dogmas e revisões do marxismo hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.