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terça-feira, 10 de maio de 2016

Dissertação sobre Augusto dos Anjos

Esta é minha dissertação de mestrado em Letras - Estudos Literários (2011), na qual estudo a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914).

http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_4543_.pdf

No capítulo 1 abordo suas influências, desde o positivismo da Escola de Recife até o seu misticismo. Augusto dos Anjos se caracteriza por congregar influências diversas e antagônicas, mas de forma dialética, resolver a seu favor os empasses entre medo e esperança, religião e ciência, vida e morte.

No capítulo 2 faço uma discussão sobre as pulsões psicanalíticas que reverberam em sua poesia: o Eros e o Tânatos complementando-se em equilíbrio. 

No capítulo 3 o tema passa a ser a angustia existencial de seu "eu lírico" e como, na sua retórica, ele expressa a angustia de toda humanidade perante a morte e a vontade de transcendência que é intrínseca a todos os povos desde os primórdios da nossa História.

O poeta paraibano manifesta ao decorrer dos textos o seu complexo de Édipo, a sua rejeição da poesia erótica e da luxúria, a admiração pela maternidade e seu entusiasmo ecológico, beirando ao panteísmo e ao vegetarianismo.

Essas manifestações somadas aos recursos retóricos, além de toda a ciência e filosofia de seu tempo empregadas em sua poesia, são as bases que Augusto dos Anjos utilizou para lançar seu projeto literário, único e original, e que nos deixa uma pergunta sem resposta, mas também uma certeza: a palavra é imortal.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Discurso, macacos e literatura

O signo linguístico é ideológico. Ele nasce a partir de um contexto temporal (histórico), espacial (geográfico), social, político, econômico e cultural. Também a comunicação é ideológica, porque, da mesma forma, nasce a partir de um lugar, uma história, um contexto, logo, é discurso.

Para entender melhor o conceito de ideologia, leia aqui a publicação de 30 de julho de 2015.

Visando a explicar didaticamente o conceito de discurso, proponho um exemplo imagético.  Numa árvore repleta de macacos, cada qual vivendo fixamente sobre um galho, cada macaco aponta e expressa ideias sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore. O galho representa o contexto histórico-geográfico-político-econômico-cultural diferenciado a que cada macaco pertence. O galho, portanto, determina a estrutura moral, cultural e emocional do macaco. A ideia que cada um faz sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore é o discurso. A árvore é a superestrutura histórico-geográfica na qual os macacos estão inseridos e por ela são determinados e condicionados. O conjunto de ideias expressadas é a superestrutura ideológica: moral-política-religiosa-cultural. Este conjunto de ideias (a ideologia) rege a consciência daqueles seres, ou seja, a forma de pensar sobre si e sobre o mundo e de se expressar, porém, limitados pelo paradigma da superestrutura: a árvore em que habitam.

A filosofia de Sócrates, o materialismo histórico dialético e a psicanálise contribuem respectivamente para que cada macaco perceba: 1- a própria ignorância sobre a árvore como um todo e a insustentabilidade de seus argumentos ao analisar o galho alheio do ponto de vista de seu próprio galho; 2- a necessidade de pensar criticamente para além da árvore, entendendo como ela determina e condiciona o discurso e o modo de viver; 3- a fragilidade de seu próprio galho, o qual enganosamente o macaco considera ser rígido o suficiente para sustenta-lo para sempre (neste caso, o galho representando a relação entre o sistema de valores morais e as emoções do primata).

Porém, mesmo com todas as filosofias, as teorias críticas, as ciências, a psicanálise e as psicologias, o macaco não pode enxergar muito além de seu próprio galho, tampouco contemplar toda a árvore do galho em que ele está desde quando nasceu, onde ele mora hoje e lá um dia morrerá. Ainda que o macaco seja muito crítico, ele não pode erguer o próprio galho onde ele se senta, o qual sustenta seu corpo, muito menos erguer ou derrubar a árvore sem descer de seu galho. O contexto pré-determinado de seu nascimento (o galho) e a superestrutura (a árvore) são uma conditio sine qua non da existência do macaco (considerando que todo o seu mundo é uma árvore e seu galho é uma parte desse mundo). Portanto, a visão desses macacos imagéticos é ad infinitum ideológica e o que eles expressam é discurso.

Além disso, a consciência deles está reduzida a uma visão parcial sobre o todo. Esta lacuna é necessariamente preenchida pela especulação, religião e expressões artísticas.

O signo linguístico é ideológico. Mas a língua na literatura não é mais um discurso ou “o Discurso” sobre moral, estética, sociedade, amor etc. Este papel de insucesso cabe às ciências, filosofias etc. A literatura, como todo o resto, também é ideológica, mas o seu papel não é (ou não pode ser) o de criar discursos, mas sim, apenas ser, existir, mostrar-se, estar o quanto tiver de estar, ser infinita enquanto dure e assumir sua efemeridade por ser apenas expressão fiel de emoções momentâneas (e comuns a todos, por isso eternas), sem a intenção de ser uma verdade ou a Verdade, o que a colocaria como mero discurso, mas, ao contrário, sendo assumidamente uma ficção sobre tudo – o ser, a sociedade e o mundo –, tendo como ferramenta de trabalho todas as ciências, filosofias e religiões. A literatura, pelo menos enquanto catarse poética e solitária, assume para si o papel de ser uma ironia do discurso, não sendo mais um discurso ou antidiscurso, mas apenas uma ironia que não pretende mais do que ornar sua própria ironia, como uma macaca que se enfeita sem se interessar por nenhum macaco.

A função das ciências é muito objetiva: a manutenção da vida. A função das artes, religiões, filosofias e teorias da psique é dar um sentido a tudo, nem que seja pelo discurso, ou ao menos entreter e desmemoriar os primatas superiores de sua angústia existencial.


domingo, 18 de janeiro de 2015

A escopofilia literária



A cena literária voyeurística por excelência é aquela descrita por Heródoto [...] na qual a rainha é observada pelo favorito do rei que por sua vez espia o favorito que espia a rainha. Com isso nos deparamos com uma situação voyeurística ao cubo [...].
O voyerismo, ou se preferirem, a escopofilia, é um componente importante da literatura e da narrativa, como, ainda de modo mais óbvio, no cinema e na fotografia. Deste modo o artista não se faz somente espectador de algo em segredo, íntimo, escondido, proibido, mas também, em certo sentido, cúmplice de um processo de conhecimento que podemos definir como subversivo. O projeto consiste em exprimir aquilo que a sociedade normalmente reprime, assumindo na área da representação aquilo que por hipocrisia, medo ou ignorância sempre é excluído e que constitui uma parte imensa da vida real, isto é: o sexo na sua extrema e indefesa nudez, no seu momento existencial, carnal, corporal, como mostra claramente o poema de Mallarmé “Une négresse par le démon secouée”.

(Tinto Brass, Vincenzo Maria, 1994, in “L’uomo che guarda”, tradução nossa).



O romance de Vladimir Nabokov adaptado para o cinema por Stanley Kubrick mostra que às vezes a escopofilia pode não se bastar em si, mas ser o primeiro ato de um drama mais profundo.

“Rear Window” de Alfred Hitchcock manifesta uma escopofilia que não está necessariamente conectada à libido, aparentemente contradizendo Freud, mas não necessariamente.

Em suma, a ação de espreitar pela janela, fechadura ou câmeras ocultas apenas divergem no grau de subversão do espectador, mas em nada diferem do ato de assistir a um filme, ouvir um rumor, ler, ver ou ainda tentar, mesmo que na imaginação mais íntima, acessar um tabu interditado. O grau de subversão é determinado pelo nível de comprometimento do espectador com a moral que lhe fora ensinada e internalizada, ou imposta. Ainda assim, esse empenho é desafiado e algumas vezes destronado, mesmo que temporariamente, pela veleidade ou simples anseio, isto é, a curiosidade comum a mamíferos e mais ainda aos primatas. Todavia, o gênero homo é o único que sofre por isso.

Daí vem a importância literária e filosófica do tema, não apenas por ser um traço comportamental da espécie, mas por trazer à discussão questões existenciais que podem ser relevantes para o estudo das artes e da psiquê.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Literatura e psicanálise: Alteridade e terror auto-infligido



Gostar de tomar susto assistindo a filmes de terror ou descendo uma montanha russa. A isto dou o nome de “terror auto-infligido”. Mas não fica apenas nisso, como podemos ver a seguir.

Alguns casos clássicos:

a) O Autocrítico – o sujeito que sofreu uma castração rígida no período edipiano e que por isso possui um alto sistema de valores morais. Este sujeito não se permite à felicidade plena, mesmo quando tudo está bem em sua vida. Ele sempre se compara aos outros (alteridade), mas de modo a diminuir-se e cobrar-se mais.

a.1) Casos extremos: síndrome de pânico e transtorno de pânico.

b) O "crítico do vizinho" – este sujeito projeta suas insatisfações pessoais no outro (alteridade).

b.1) Caso extremo: o sádico – aquele que sente prazer no sofrimento alheio.

c) O apaixonado pelo desprezo – aquele sujeito que sempre se apaixona pela pessoa que mais o despreza. Há aí uma necessidade do sujeito de sofrer nas mãos de um outro (alteridade).

c.1) Caso extremo: o masoquista – aquele que sente prazer na dor física e/ou psicológica infligida por um outro.


Todos esses casos podem ser vistos nos estudos psicanalíticos e na literatura em geral: em personagens, narradores ou no eu lírico de alguns autores. O terror auto-infligido é muito comum. Reconhecê-lo e compreender suas razões é compreender a própria complexidade do ser.

É importante salientar que o terror auto-infligido é também um sofrimento auto-infligido. 

No campo social isso pode ser notado também, por exemplo, no pessimismo político que algumas pessoas manifestam, tanto em época de paz como em época de guerra, tanto na recessão econômica quanto no crescimento do país. Isto são sintomas de uma era pessimista. Por mais que as pessoas desfrutem de um padrão digno de vida, de "bens" de consumo e das facilidades tecnológicas, há muitas queixas e a sensação de que tudo vai mal. O pessimismo social é um terror auto-infligido, mas também é um terror infligido pela influência de terceiros a mídia, por exemplo.

Em razão do medo, a sociedade cede ao controle de terceiros. Isso até ela descobrir que não há razão para ter medo.




Dica de filme: "O primeiro amor" (Flipped, EUA, 2010).

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Abordagens Humanas

Abordagens que explicam o ser humano internamente (seus desejos e angústias):
- As artes;
- As psicologias;
- A psicanálise.

Abordagens que explicam o ser humano externamente (relações comunitárias e políticas):
- A filosofia;
- As ciências sociais (sociologia e antropologia);
- A história.



As abordagens externas, para serem mais bem sucedidas, devem passar antes pelas abordagens internas. Isto porque o ser humano não é apenas "fruto do meio", mas o resultado dialético (síntese) entre o interior e o exterior.

Para entender as motivações humanas e a obra de um indivíduo ou de uma sociedade, deve-se antes analisar a subjetividade exteriorizada no meio. Essa subjetividade humana é o motor que impulsiona a chamada "contextualização histórica" da qual todos somos cúmplices e vítimas.



domingo, 1 de dezembro de 2013

Tabu versus pensamento livre



Tabu versus mártires ou condicionamento versus transgressão: uma breve análise sobre o pensamento livre.


Sigmund Freud em sua obra Totem e Tabu fez uma importante contribuição à antropologia e à psicologia social. O tabu é um dos códigos morais mais antigos que regem a sociedade, portanto, essa obra é leitura recomendada para quem procura entender a relação entre padrões de comportamento e a organização social. Outra importante obra de Freud no campo social é Psicologia das Massas e a Análise do Eu. De acordo com o pai da psicanálise, a transgressão de um tabu conduz o transgressor à sua expulsão do grupo ou a uma punição imposta pelo grupo do qual o transgressor faz parte. Entre as sociedades primitivas, acreditava-se que deste modo evitar-se-ia que uma maldição recaísse sobre todo o grupo. Esse princípio pode ser observado em todos os grandes primatas que se organizam em bando e constituem hierarquias, como gorilas, chimpanzés, babuínos e os seres humanos. A punição ou expulsão do indivíduo transgressor é o primórdio do moderno Direito Penal.

Tanto Freud quanto o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss demonstram que a organização social em torno de uma Lei teve início em sociedades primitivas a partir da proibição do incesto. Desde então outros tabus surgiram e evoluíram em sua complexidade. Resta saber quanto de nosso instinto primata permanece a nos determinar e se há possibilidade de termos um pensamento livre e original apesar de todo o condicionamento biológico e psíquico que sofremos.

Na Grécia Antiga, o filósofo Sócrates foi condenado à morte, acusado de corromper a juventude ateniense e ser ímpio perante os deuses. Sócrates não escreveu nada, tudo o que sabemos sobre ele vem dos textos escritos por seus discípulos. Nem mesmo há provas de que ele realmente tenha existido. Ainda assim, sua história é um dentre muitos exemplos da punição que recai sobre aquele que transgride um tabu. Mas que tabu Sócrates transgrediu?

Ao questionar todo conhecimento vigente em sua época, Sócrates atraiu a atenção dos jovens e colocou em discussão a autoridade de seus interlocutores, atraindo a ira destes para si. Entre os gorilas, quando o macho-alfa tem sua autoridade questionada, ele expulsa ou mata o seu rival. Analogamente, os acusadores de Sócrates eram homens que tinham muito a perder com aquele filósofo ensinando os jovens a pensar por eles mesmos e a questionar o saber dos mais velhos. Logo, Sócrates foi julgado, preso e executado. Ele não transgrediu necessariamente um tabu moral, mas ensinava seus discípulos a pensar por si só, o que leva, com o tempo, ao questionamento de certas Leis, princípios morais, tabus e dogmas.

Em todas as manifestações artísticas ao longo da história há exemplos de incompreensão, censura e perseguição, tanto para o artista que rompeu paradigmas formais quanto para aquele que, em sua arte, ousou questionar um tabu. O exemplo de Sócrates talvez sirva para entender a história de vários outros mártires, como Gandhi. Considerando todo o condicionamento que historicamente sofremos, talvez não seja exagero dizer que o pensamento livre é uma anomalia da espécie, um desajuste mental que leva um indivíduo a ser criativo e destacar-se da massa. Em pouco tempo esse indivíduo passa a ser visto como subversivo. Seu instinto de autopreservação não funciona como na maioria. Ele desafia a si mesmo e arrisca sua segurança em nome de um ideal que afirma ser maior que ele mesmo. Sócrates dizia ouvir uma voz interior, Gandhi seguia princípios religiosos, outros se tornaram mártires ao defenderem com a vida uma ideologia política. Logo, o pensamento livre é possível, mas, às vezes, cobra um preço muito alto daquele que ousa pensar.


Sócrates entre seus discípulos como no livro Fédon.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A função do mito

O mundo atual, quando visto a partir de uma perspectiva etnocêntrica, é encarado como sendo lógico, racional, consciente e científico. Tal ponto de vista atribui apenas às “sociedades primitivas” a criação dos mitos. O erro aí é crer que os mitos não permeiam nosso mundo atual e, além disso, julgar que a nossa consciência individual é impermeável ao inconsciente coletivo.

Os mitos não constituem uma verdade científica, porém, não podem ser encarados como uma mentira. Alguns mitos aludem à natureza humana, proporcionando uma visão legítima da nossa condição de vida e um ponto de vista crítico sobre a nossa essência humana e animal.

Portanto, o conhecimento e interpretação dos mitos nos levam a muitas descobertas sobre nós mesmos enquanto seres racionais e emocionais. Exemplo disso é a linguagem simbólica dos sonhos. Esta é construída numa lógica muito semelhante à do mito, mostrando que o inconsciente individual e o inconsciente coletivo estão, de alguma forma, relacionados.

Outros mitos tentam justificar ou explicar a nossa organização social, a moral vigente, os tabus e certos padrões de comportamento. Não há como não fazer um paralelo entre mito e ideologia, ou mito e história. Ora, frequentemente, a História Oficial não passa de uma exaltação do vencedor sobre o vencido, ou ainda, de um conto para enaltecer a origem de um povo. Neste caso, a História deixa de ser ciência e passa a ser um aparelho ideológico do Estado. E não só a História, mas muitas outras ciências se corrompem em métodos pseudocientíficos, visando um ideal político ou religioso. E isso não é observado apenas nas ciências. Refiro-me agora à imprensa: o jornalismo, infelizmente, é a maior fábrica de “mitos”, sendo sempre parcial, visando interesses econômicos próprios. Neste caso, uso “mito” (entre aspas) para indicar que estou me referindo a outra concepção de mito. O mito não é uma mentira, ele é literário (de tradição oral), simbólico, utiliza-se do maravilhoso para expressar algo além do entendimento puramente racional. Já o “mito” é sinônimo de mentira, manipulação, ocultação da verdade. Ironicamente, os “mitos” criados pela imprensa, pela pseudociência e, algumas vezes pela História, recebem mais crédito do que os mitos literários.

Muitos mitos são alegorias sobre nossa condição humana e nossa relação com o mundo. Assim como as parábolas, os mitos têm o poder de nos fazer enxergar mais além, logo, eles podem ser mais poderosos do que proposições filosóficas e fatos científicos.

Entretanto, na nossa sociedade, cada tipo de conhecimento tem seu valor e lugar específico: o mito, a filosofia, a ciência. Até mesmo o jornalismo e a publicidade têm sua importância, aliás, enorme, já que a mídia é a maior formadora de opinião do nosso tempo (ou será a religião?). Tirando o fanatismo míope de algumas crenças, a religião é uma forma importantíssima de conhecimento. A religião, quando bem aplicada, só edifica.

Contudo, ainda considero a arte como a expressão mais sábia e sincera de conhecimento técnico, racional e emocional. Dentre todas as formas de conhecimento, apenas duas considero como necessidades inatas e indispensáveis ao homem: a arte e a filosofia. E incluo também a fé, mas não como um tipo de conhecimento, e sim como uma virtude.

Em resumo, o mito é um olhar para além da realidade. E o que é a realidade? Esta, talvez, nunca poderemos conhecer em si, porque o limite da ciência é a condição humana. O limite da condição humana é sua subjetividade intransponível. Mas o limite para a imaginação é o infinito.

domingo, 15 de abril de 2012

O que é consciência e o que é realidade?


A consciência na filosofia ocidental

A Fenomenologia de Edmund Husserl (1859 – 1938):
O matemático alemão dizia que a consciência dá sentido às coisas, mas ela não revela a realidade das coisas, ela apenas funciona como um sistema de significações que dependem da estrutura da própria consciência.

Para Husserl, a intenção do observador (ou a intencionalidade) define a forma de atuação dos processos mentais, logo, tornando a percepção sempre subjetiva.

Na Grécia Antiga...
 O filósofo Platão (428 – 347 a.C.), em sua alegoria da caverna, mostra que toda humanidade vive num mundo de aparências e que esta humanidade não contempla o mundo real, mas apenas “as sombras” deste mundo.


A consciência no pensamento oriental

O pensador chinês Wang Yangming (1472 – 1529) ensinava que os objetos não existem inteiramente separados da mente porque é a mente que os dá forma. A mente dá razão ao mundo.

O taoísta Chuang Tzu (séc. IV a.C.) certa vez sonhou que era uma borboleta. Depois ele se perguntou: sou um homem que sonhou ser borboleta, ou sou uma borboleta que agora sonha ser um homem?



Resumindo...

A consciência é formada por: nossa condição biológica humana, nosso estado psíquico (nossos desejos, nossos medos), nossa angústia existencial, nosso histórico de vida (experiências e traumas), nossa criação familiar, os dogmas e tabus sociais e religiosos, a cultura, a linguagem e a ideologia (a superestrutura).

Por isso, nós não conhecemos a realidade em si, mas a realidade tal como aparece para nós, estruturada e organizada pela nossa consciência.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Falta um rock com mais “nirvana”

No budismo, o nirvana é a superação do ego, o desapego material e carnal, um estado de consciência universal, uma superação das paixões terrenas, e, portanto, a libertação do sofrimento que é causado pelos desejos do ego. O nirvana seria atingido após muita prática meditativa.

Buda resiste às tentações.

Mas esta postagem refere-se à banda de rock grunge Nirvana, formada e liderada por Kurt Cobain e que se tornou conhecida no início da década de 1990. A banda era caracterizada por um profundo desapego do show business e apatia pela indústria fonográfica. Kurt Cobain era o vocalista, guitarrista e compositor. Suas letras eram caóticas e sentimentais, compostas de forma quase irracional (como se fossem por livre associação) e cantadas de um modo tão emotivo e tão frenético que lembram telas expressionistas. Um exemplo é a canção intitulada Tourette's. Alguém poderia achar que é uma gritaria sem sentido, mas como o título deixa óbvio, a música emula os sintomas da síndrome de Tourette.

Se para você os gritos de Cobain e o rock do Nirvana soam como barulho,
então talvez você confunda uma tela de Munch com um rabisco infantil.

Seu estilo de tocar guitarra era alternativo/experimental, aludindo a uma arte distorcida como se fosse uma forma de cubismo aplicado à música. Ouso dizer que Kurt Cobain está para o rock assim como Pablo Picasso está para as artes plásticas. No caso de ambos, não era uma técnica apurada o que estava em evidência, mas a reflexão sobre o conceito de Arte (a música para um e a pintura para o outro).

Expressionismo em Picasso e Cobain
 
A arte distorcida: cubismo de Picasso e guitarra de Cobain.

As músicas e as letras de Kurt parecem não fazer sentido para muitos, e às vezes até para ele mesmo aquilo não fazia sentido, então ele brincava com os fãs que tentavam dar sentido à suas composições (ouça: In Bloom). Por isso ele foi genial, conseguindo demonstrar a apatia de sua geração (ouça: Smells Like Teen Spirit). E ao quebrar guitarras e equipamentos ao vivo, Kurt deixava claro que não se importava com nada daquilo (fama, dinheiro, mídia etc). E ele fez isso de forma muito consciente, como é possível notar ao analisarmos sua obra mais de perto (o que tomaria um grande espaço aqui). O lado triste disso é que ele levou tudo tão ao extremo, que tirou a sua própria vida aos 27 anos. Mas obviamente isso não foi conseqüência de uma filosofia budista ou de uma atitude punk, mas sim da depressão que o acompanhou desde a sua adolescência (ouça: Lithium) e do sentimento de abandono/carência por que passara em sua remota infância (ouça: Sliver).

O Rock in Rio foi carente nesse sentido, foi carente de um rock contestador, com alma e sentimento rebelde, punk, anárquico... Por outro lado, houve apresentações belíssimas e impecáveis como as de Coldplay, Stevie Wonder, Elton John, Metallica e Guns n’ Roses. Esta última é um caso à parte. Não venha dizer que o Axl já não é o mesmo, isto é óbvio, ele envelheceu, mas é uma lenda viva e ainda é uma das vozes mais poderosas da história do rock.

A Pitty fez uma apresentação madura com ótima banda e direito a homenagem ao Nirvana. O show do Evanescence marcou definitivamente a volta de uma das vozes femininas mais potentes do rock atual. System of a Down fez ótima apresentação e com algumas pitadas de humor e contestação política, mostrando que ainda há músicas engajadas, e dentre elas eu incluiria também algumas do Guns, como Welcome to the Jungle e Civil War (esta eles não tocaram) e uma do Coldplay, a canção Us Against the World (poderia ser interpretada como U.S. Against the World)? – creio que haja uma crítica implícita aí, aludindo ao intervencionismo dos EUA no mundo.

Tom Zé e Os Mutantes também mostraram alguma contestação política, mas infelizmente (e injustamente) eles não estavam no palco principal. Mesmo assim foi uma ótima apresentação de uma das poucas bandas de rock psicodélico ainda na ativa. Senti falta de bandas de reggae lá. Já que o Rock in Rio é um festival eclético, o reggae caberia bem, dentre outros motivos, por ser um estilo musical que se aproxima do rock. E no campo das letras, o rock e o reggae são caracterizados pela crítica social e contestação política (coisas raras nas músicas de hoje). A contestação, a rebeldia, o inconformismo e a ótima música são algumas das qualidades que eternizaram John Lennon no rock e Bob Marley no reggae. Estes dois fazem falta hoje!

E também faz falta um Nirvana nos dias de hoje, tanto no sentido budista quanto no sentido de “uma banda com atitude roqueira”. O mundo carece de uma arte desapegada, desinteressada, que seja apenas arte e não entretenimento lucrativo. A arte é para todos e ela se eterniza, o entretenimento é para quem pode pagar e é passageiro, fugaz, efêmero...



Nevermind, que no mês passado completou 20 anos, ainda é referência para o rock alternativo
(a capa do álbum mostra os rumos que a sociedade estaria tomando).



O show acústico neste disco deixa em evidência o outro lado da banda:
a sutileza no trato com arranjos instrumentais e vocais.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Quatro feridas no narcisismo da humanidade



Do livro de Marilena Chaui, Convite à Filosofia:


Freud escreveu que, no transcorrer da modernidade, os humanos foram feridos três vezes e que as feridas atingiram o nosso narcisismo, isto é, a bela imagem que possuíamos de nós mesmos como seres conscientes racionais e com a qual, durante séculos, estivemos encantados.



Narciso encantado com seu próprio reflexo.
Tela de Caravaggio (1594 - 1596).
 
















A Metamorfose de Narciso
Salvador Dalí (1904 - 1989)
 
















Que feridas foram essas?

A primeira foi a que nos infligiu Copérnico, ao provar que a Terra não estava no centro do Universo e que os homens não eram o centro do mundo.

O heliocentrismo enfrentou resistência da Igreja no passado.


A segunda foi causada por Darwin, ao provar que os homens descendem de um primata, que são apenas um elo na evolução das espécies e não seres especiais, criados por Deus para dominar a Natureza.

Representação da evolução (segundo teoria de Darwin).


A terceira foi causada pelo próprio Freud com a psicanálise, ao mostrar que a consciência é a menor parte e a mais fraca de nossa vida psíquica.

O inconsciente aqui representando como um iceberg.




Às três feridas narcisísticas mencionadas por Freud, devemos acrescentar mais uma: a que nos foi infligida por Marx com a noção de ideologia (i.e. o imaginário social sendo determinado pelas condições de vida e trabalho).

Pirâmide que representa o sistema capitalista
 
Do Manifesto do Partido Comunista, redigido e publicado em 1848:

Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países (...). Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolve-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material quanto à produção intelectual.
 (...)
A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais (...). Essa subversão contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas... as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificarem-se. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado se torna profanado (...).



O que chamamos hoje de "globalização" já era previsto por Marx no séc. XIX.



Bibliografia:

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Editora Escala, 2009. Trad. Antônio Carlos Braga.

Recomendação de leitura adicional:
Propaganda: Ideologia e Manipulação (de Nélson Jahr Garcia).
Livro já publicado também com o título O que é Propaganda Ideológica?
Disponível na internet gratuitamente no endereço:
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/manipulacao.html