quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Poema de Fernando Pessoa

    Gato que brincas na rua
    Como se fosse na cama,
    Invejo a sorte que é tua
    Porque nem sorte se chama.


    Bom servo das leis fatais
    Que regem pedras e gentes,
    Que tens instintos gerais
    E sentes só o que sentes.


    És feliz porque és assim,
    Todo o nada que és é teu.
    Eu vejo-me e estou sem mim,
    Conheço-me e não sou eu.



    Fernando Pessoa, 1-1931
     

sábado, 1 de novembro de 2014

A flor-de-lis como símbolo do curso de Letras



Uma análise semiótica:

Alguns modelos da flor-de-lis

As três pétalas superiores representam a tríade que compõe o curso: Linguística, Literatura e Gramática.

1- A pétala do meio é a Literatura (Letras em latim é Litteris). Por sua etimologia é a pétala central. Repare que ela aponta para cima, para o ideal, o elevado.

Sócrates apontando para o alto (o mundo ideal).


2- A pétala da direita é a Gramática, a tradição conservada.

3- A pétala da esquerda é a Linguística, a ciência, a revolução racional e crítica.

O traço horizontal no centro da imagem representa a união entre as três pétalas (Linguística, Literatura e Gramática) como um feixe.

Um feixe (símbolo de união)


Cada pétala tem sua continuidade abaixo do traço horizontal, ou seja, um lado idêntico, porém, oposto. É a representação da Dialética, a antítese de cada pétala, logo, a figura como um todo é uma síntese, representando o equilíbrio. A dialética foi uma das disciplinas curriculares básicas da Antiguidade e Idade Média.

Gramática, Retórica e Dialética entre as 7 Artes Liberais.

Outra análise:

A metade abaixo do traço horizontal também pode representar o caule e a raiz das pétalas, ou seja, a busca pelas fontes do conhecimento, a procura pelas raízes da sabedoria, a investigação do que está oculto (a raiz se esconde embaixo da terra).

Árvore e raiz, Yin Yang: dialética, equilíbrio.


As três pétalas também podem significar os gêneros lírico, narrativo e dramático. Ou ainda: descrição, dissertação e narração.

A coruja como símbolo de Letras representa a docência, a sabedoria, a curiosidade e o mistério. Como Licenciatura, divide a coruja com outras licenciaturas: Filosofia e Pedagogia.






Comentário meu adicionado em 30/05/2020
Em 2017 a página Língua Portuguesa do Facebook usou minha análise das pétalas e outras informações deste blog sem dar o devido crédito:


"As três pétalas superiores representam a tríade..." (plágio da minha análise)















Vejam que minha postagem é de 2014. A postagem da página Língua Portuguesa é de 2017 e não cita meu blog. Essa análise das pétalas e seus significados no curso de Letras não existiam antes. Em 2014 eu procurei na internet e não achei nenhuma explicação para a flor-de-lis ser o símbolo do curso de Letras. Então, criei minha própria explicação, com base em simbologia e semiótica. Desde então, essa explicação tem sido usada, por alguns, sem dar o devido crédito a este blog. Não é uma coincidência de palavras, usam exatamente as mesmas palavras que eu usei. E quais as probabilidades matemáticas de eles chegarem à mesma análise de significados das pétalas e com as mesmas palavras que eu usei?  É plágio constatado e comprovado!

Dito isso, só me basta ficar feliz por essa postagem ter feito tanto sucesso, com mais de 60 mil visualizações. Para um tema tão específico e sem apelo, é uma vitória.

Devido ao sucesso da postagem de 2014, fiz outra sobre a flor-de-lis em 2015:

http://interludico.blogspot.com/2015/01/a-flor-de-lis.html

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Literatura e psicanálise: Alteridade e terror auto-infligido



Gostar de tomar susto assistindo a filmes de terror ou descendo uma montanha russa. A isto dou o nome de “terror auto-infligido”. Mas não fica apenas nisso, como podemos ver a seguir.

Alguns casos clássicos:

a) O Autocrítico – o sujeito que sofreu uma castração rígida no período edipiano e que por isso possui um alto sistema de valores morais. Este sujeito não se permite à felicidade plena, mesmo quando tudo está bem em sua vida. Ele sempre se compara aos outros (alteridade), mas de modo a diminuir-se e cobrar-se mais.

a.1) Casos extremos: síndrome de pânico e transtorno de pânico.

b) O "crítico do vizinho" – este sujeito projeta suas insatisfações pessoais no outro (alteridade).

b.1) Caso extremo: o sádico – aquele que sente prazer no sofrimento alheio.

c) O apaixonado pelo desprezo – aquele sujeito que sempre se apaixona pela pessoa que mais o despreza. Há aí uma necessidade do sujeito de sofrer nas mãos de um outro (alteridade).

c.1) Caso extremo: o masoquista – aquele que sente prazer na dor física e/ou psicológica infligida por um outro.


Todos esses casos podem ser vistos nos estudos psicanalíticos e na literatura em geral: em personagens, narradores ou no eu lírico de alguns autores. O terror auto-infligido é muito comum. Reconhecê-lo e compreender suas razões é compreender a própria complexidade do ser.

É importante salientar que o terror auto-infligido é também um sofrimento auto-infligido. 

No campo social isso pode ser notado também, por exemplo, no pessimismo político que algumas pessoas manifestam, tanto em época de paz como em época de guerra, tanto na recessão econômica quanto no crescimento do país. Isto são sintomas de uma era pessimista. Por mais que as pessoas desfrutem de um padrão digno de vida, de "bens" de consumo e das facilidades tecnológicas, há muitas queixas e a sensação de que tudo vai mal. O pessimismo social é um terror auto-infligido, mas também é um terror infligido pela influência de terceiros a mídia, por exemplo.

Em razão do medo, a sociedade cede ao controle de terceiros. Isso até ela descobrir que não há razão para ter medo.




Dica de filme: "O primeiro amor" (Flipped, EUA, 2010).

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sobre o perdão



Ô de casa, eu tô pra lhe dizer

Da glória da história deste homem que nasceu para morrer.



- E você cantou pra ele, encomendador de almas?

- Não houve um funeral, ô mestre das falas.

- Foi ele um homem pobre, encomendador de almas?

- Foi rico espiritual, ô mestre das falas.

- E como era essa riqueza, encomendador de almas?

- Era da sua nobreza, ô mestre das falas.

- Foi ele um rei falido, encomendador de almas?

- Era humilde pra ser rei, ô mestre das falas.

- Quanto humilde era ele, encomendador de almas?

- Lavou os “pé” de doze homens, ô mestre das falas.

- Foi ele um escravo, encomendador de almas?

- Sofreu como se fosse, ô mestre das falas.

- E por onde ele andava, encomendador de almas?

- Por toda, toda parte, ô mestre das falas.

- Foi ele um cigano, encomendador de almas?

- Tão sábio quanto um, ô mestre das falas.

- Quão sábio era ele, encomendador de almas?

- Sabia perdoar, ô mestre das falas.

- E o que mais ele fazia, encomendador de almas?

- Fez grandes proezas, ô mestre das falas.

- Trabalhava em um circo, encomendador de almas?

- Cativante como um, ó mestre das falas.

- Que proezas eram essas, encomendador de almas?

- Respeitava a natureza, ô mestre das falas.

- Era ele algum índio, encomendador de almas?

- Tão puro quanto um, ô mestre das falas.

- E o que mais ele fazia, encomendador de almas?

- Falava com um dom, ô mestre das falas.

- Foi ele um professor, encomendador de almas?

- Igual mal-valorizado, ô mestre das falas.

- O que foi ele afinal, encomendador de almas?

- Foi tudo isso um pouco, ô mestre das falas.

- E como pode isso, encomendador de almas?

- Ele amava a todos, oh irmão poeta.

- E ele viveu bem, encomendador de almas?

- Com morte sofrida, oh irmão poeta.

- E foi matada ou morrida, encomendador de almas?

- Foi morte matada, oh irmão poeta.

- E por que ele morreu, encomendador de almas?

- Ele foi mal compreendido, oh irmão poeta.

- Deixou ele alguma herança, encomendador de almas?

- Esperança do perdão, oh irmão das palavras.

Música e letra compostas em 2001, com registro de direito autoral nº 223.949, livro 393, folha 109, na Fundação Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro.  

A letra foi inspirada pelo auto "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Enquanto espero

Este soneto pra passar as horas
Só foi escrito para matar o tempo;
Pois longos minutos causam a demora
Do que espero que não seja lento.

Essa areia que teima na ampulheta,
Essa água na clepsidra engasgada
Parece que parou todo o planeta,
Saber da rotação vale de nada!

Que ciência ingrata e maldita esta é
Do relógio e dos números exatos,
Mas frios e por isso não dou fé.

Prefiro a arte inexata das musas
Na qual me refugio com paixão
Para matar o tédio e a solidão.



Decassílabo, esquema de rimas: ABAB CDCD EFE GHH
Renan, 27 de agosto de 2014.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Breve olhar sobre os anos 60: a última grande revolução





Na história da humanidade (não confundir com a história natural) sempre houve períodos de turbulência revolucionária. Refiro-me a períodos de intensa produção e reformulação do pensamento, que mais tarde – e, em alguns casos, concomitantemente – também culminariam em mudanças práticas.

As condições materiais de vida impulsionam o pensamento, a consciência, e esta as revoluções. Exemplos:
1) Possibilidades reais de expansão marítima e geração de riqueza – condições materiais que levaram ao sonho, desejo e necessidade de exploração além-mar – culminando nas Grandes Navegações;
2) Exploração colonial – condições materiais que culminaram em pensamentos emancipatórios nas colônias – teorias que dariam luz ao nascimento de novas nações independentes;
3) Absolutismo monárquico e insatisfação burguesa – condições materiais que culminaram no pensamento iluminista – ideias que por sua vez levariam à revolução francesa;
4) Exploração da mão-de-obra – condições materiais que culminaram no pensamento comunista – consequentemente levando às revoluções russa, chinesa, cubana entre outras.

Além do Iluminismo, houve outros três períodos históricos marcados por grande produção filosófica, científica e literária, todos determinantes para o pensamento e o modo de vida: o Renascimento, o Romantismo (incluindo correntes antagônicas no mesmo período – o séc. XIX) e o Modernismo (séc. XX). Todos eles tiveram fundamental importância na estruturação social e no modo como o homem passou a perceber o mundo. Houve ainda mais um período com mesmo grau de importância, porém mais atual: o período que comporta a década de 1960 e início da década de 1970.

Este foi um período de grande turbulência social e cultural. As condições materiais para isso são inúmeras, mas poderiam ser resumidas em uma tese central: a juventude crescendo em um período pós-guerra (fim da 2ª Guerra Mundial) e temendo a hipótese de uma eminente guerra nuclear. Ao encarar a ideia da morte eminente, essa juventude – até então reprimida – tentou sugar ao máximo, ao seu modo inocente, o que a vida e o momento presente lhes poderiam ofertar em prazeres hedonistas.

A cultura surgida como fruto desse pensamento e que seria a força impulsionadora das revoluções que ocorreriam nesse período está ainda no final da década de 1950. Este antecedente tinha o nome de rock and roll. Em termos de poesia, o rock era a única alternativa até então que falava aos anseios do jovem: namorar. Letras que falam de carros possantes se traduziam ao imaginário da juventude como uma fuga, uma possibilidade de liberdade, longe da vista dos pais. Em termos de música, era um som que exigia a formação de casais para a dança, aproximando as pessoas, permitindo o contato corpo a corpo numa sociedade sexualmente reprimida. Em termos de atitude, a preparação com roupa de baile e a desinibição pelo uso de álcool eram os rituais que não apenas antecediam o namoro, mas começaram a fazer parte do estilo de vida dessa geração.

Foi nesse contexto que cresceram os Beatles, os Rolling Stones e seus contemporâneos. A diferença é que para esses meninos já não bastava apenas estar presente do baile, eles queriam comandar a festa. Inspirados por seus ídolos da década de 1950 (Elvis Presley, Chuck Berry etc) eles saíram da escola em busca de um sonho: ser como os seus heróis.

Com muito trabalho eles conseguiram chegar ao estrelato no início da década de 1960. Tornaram-se então ídolos dos jovens da época e de sua própria geração. Mas em meados da década, as turbulências sociais e políticas se intensificaram, o que motivou um abandono da inocência e um engajamento artístico e popular em prol de melhores condições de vida. Entre 1966 e 1967 irrompeu o auge da cultura hippie, em protesto à Guerra do Vietnã, com modo de vida anticapitalista, slogans pacifistas, passeatas e apelos à liberdade de expressão, aos direitos das mulheres, ao fim da segregação racista.

Nesse contexto, a música já não era mais composta para bailes. Aqueles arranjos simples com três acordes deram lugar a arranjos complexos, mesclando rock e música clássica, às vezes com influência da música oriental, e com tudo mais o que a criatividade artística concebesse livremente, abolindo preconceitos. O ritmo mudou tanto que já não podia mais ser dançado, exigindo apenas a audição e apreciação do ouvinte. As letras então se tornaram mais elaboradas poeticamente e engajadas politicamente. E a música passou a ser apenas ouvida, e quando cantada, as canções converteram-se em hinos daquela geração.

Os Beatles reinavam absolutos como a voz mais influente da época, mas seus discípulos diretos e indiretos também estavam presentes, não só unindo-se ao coro, mas tentando levar a revolução cultural a níveis cada vez maiores.

No centro do mundo capitalista, os EUA, o festival de Woodstock em 1969 reuniu artistas como The Who, Janis Joplin, Jimi Hendrix e um público recorde de jovens em torno de uma única celebração. Era também uma fuga da agitação e dos problemas daquela época conturbada.

No ano seguinte, Jimi Hendrix e Janis Joplin morreriam aos 27 anos. Nove meses depois Jim Morrison juntar-se-ia a eles, também aos 27. Parecia o destino cobrando o seu preço por uma vida de muitos exageros: muitas festas, muitas drogas e muito trabalho.

No mesmo ano em que Jimi e Janis transcenderam deste mundo, os Beatles se separaram. Eles já não eram mais tão jovens, estavam chegando aos 30 e haviam tocado juntos por mais de 10 anos. Cada um foi se dedicar à sua própria família e carreira solo. Assim, 1970 foi um ano de perdas inestimáveis para aquela geração, causando algumas desilusões, marcando o fim de uma era, mas aquela agitação ainda perduraria por mais uns anos como um efeito ressaca. Bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd se propuseram à missão de elevar o som dos anos 60 a patamares ainda mais complexos.


A poesia do Rock

Em “My Generation” (1965) o grupo The Who cantava ao espírito jovem contestador que questionava os valores pelos quais os pais educavam seus filhos. Um dos hinos daquela geração. A seguir um trecho da letra:

As pessoas tentam nos colocar pra baixo
Só porque nos damos bem
As coisas que eles fazem parecem terrivelmente frias
Espero morrer antes de ficar velho
Essa é a minha geração, baby

Por que vocês todos não desaparecem?
E parem de tentar entender o que nós dizemos
Não estou tentando causar nenhuma confusão
Só estou falando sobre a minha geração


No auge da agitação eis que surge um poeta tímido, Jim Morrison, mas ao assumir uma personalidade dionisíaca, tornar-se-ia um símbolo da liberação sexual. Nas apresentações ao vivo da banda, o poeta convocava os jovens à revolução:

The Doors - Five to One, 1968 (trecho):

Cinco contra um, baby
Um e cinco
Ninguém sai daqui vivo, agora
você leva os seus e eu levo os meus
Vamos conseguir, baby, se tentarmos

Todos nós envelhecemos e os jovens se fortalecem
Pode levar uma semana e pode levar mais tempo
Eles têm as armas, mas nós temos a maioria
Vamos vencer, sim, estamos dominando!

Seus dias de baile acabaram, baby


As condições de vida formaram o espírito da época que inspirou os jovens a acreditarem que um mundo melhor era possível e que isso dependia apenas deles, cobrando da juventude uma mobilização para tomarem o controle da política e de suas vidas, caso contrário poderia não haver futuro. Sonhando em fazer um mundo ideal, lutava-se contra problemas concretos: a guerra, o racismo, os valores machistas e as ditaduras (cada país tinha a sua a seu modo).


John Lennon - Imagine, 1971 (trecho):


Imagine não haver propriedades
Eu me pergunto se você consegue
Nenhuma necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens

Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só.



Era uma época diferente. Alguns daqueles anseios parecem não fazer mais sentido hoje, outros como a luta pela igualdade, o fim da fome e a paz, ainda são utopias de toda a humanidade.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Precisa-se de profissionais de Letras






Profissões que ainda não existem ou não têm nome reconhecido, mas extremamente necessárias no mercado de trabalho hoje, e que no futuro poderão ser indispensáveis.



FACILITADOR LINGUÍSTA EMPRESARIAL
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Redação Empresarial, Linguística Textual, Gramática e Semântica; Noções de Marketing.
Atributos: Solucionar e prever problemas de comunicação interna em empresas. Criar e gerenciar estrategicamente a comunicação interna, podendo também revisar a comunicação externa.

* O profissional bilíngue traduz a comunicação empresarial no caso de empresas bilíngues ou de comércio internacional.



LINGUÍSTA FORENSE
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Gramática, Semântica, Análise do Discurso, Literatura e Retórica; Noções de Direito.
Atributos: Revisar qualquer texto jurídico tornando-o formal, claro e objetivo; auxiliar na redação de Leis resolvendo problemas como: falta de coesão e coerência, ambiguidade, redundância, cacofonia etc. Como consultor de retórica e analista de discurso, revisar depoimentos e criar estratégias eficazes de interrogar testemunhas.

* O profissional bilíngue traduz a comunicação jurídica em casos de Direito Internacional.



SOCIOLIGUÍSTA CLÍNICO
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Socioliguística, Fonomorfologia, Literatura, Estilística, Oratória e Teatro; Noções de Psicanálise.
Atributos: Seguindo a lógica da psicologia clínica, da psicanálise clínica e da filosofia clínica, porém, com o foco na linguagem, o sociolinguísta clínico desmistifica supostos “problemas” de fala, atuando como um agente motivacional da fala e da auto-estima. Pode atuar também como Professor de Oratória e como treinador técnico de profissionais da fala (professores, advogados, palestrantes, políticos etc). Na consultoria, prepara atores para papéis que requerem treino linguístico específico, buscando fidelidade com a fala autêntica ou idealizada para a construção da personagem, evitando estereótipos grosseiros.

* O profissional bilíngue oferece cursos para quem precisa se expressar melhor em outra língua, com ou sem marcas de regionalidade (sotaque), de acordo com o objetivo da comunicação.



CONSULTOR BIBLIOGRÁFICO
Requisitos: Formação em Letras, amplos conhecimentos em Gramática, Redação, Literatura, Filosofia, Retórica, Ciências Sociais e Normas da ABNT; Noções de Biblioteconomia.
Atributos: Apontar caminhos, abordagens, teorias, textos e bibliografia para pesquisadores e empresas; revisar normas científicas ou padrões de formatação textual; solucionar problemas epistemológicos, revisar textos dissertativos e propor melhorias no argumento.


Obs: em todas as profissões, o estudo da Ética deve ser um requisito.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Padre Anchieta e seu polêmico legado


“Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro... Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar... Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!” (Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel, 1500).


Esse era o pensamento comum da época. Acreditava-se que impor o evangelho ao nativo seria o maior testemunho de bondade que os portugueses deviam fazer. Como instituição, a Igreja errou feio. Alguns índios se salvaram da escravidão colonial [laica] a troco de serem escravos das obras da Igreja. Porém, os jesuítas fizeram o que acreditavam ser para o bem do índio, resgatando-o de seus vícios: o uso de cauim, do fumo, a poligamia, a antropofagia; costumes que Pe. José de Anchieta combateu por meio de seu teatro alegórico.


Há que se considerar o contexto histórico antes de condená-lo. Como homem, José de Anchieta não pode ser julgado pelos valores em que hoje acreditamos, até porque no futuro muitas de nossas ideologias e até nossa ciência serão também consideradas torpes.


Entretanto, o mesmo relativismo não pode ser usado para justificar crimes hediondos tais aqueles cometidos pelos militares nos anos de chumbo. Como recentemente revelou a Comissão da Verdade, houve extermínio de aldeias indígenas por parte da ditadura. A aculturação promovida pelo Padre no contexto do séc. XVI não é do mesmo tipo de atrocidade que os bombardeios de aviões sobre aldeias, o uso da varíola como arma biológica, as prisões e torturas de índios no Brasil do séc. XX.


Sem julgamentos morais, prefiro pensar em Anchieta como o autor da primeira gramática de língua indígena brasileira, impressa em 1595. Também como poeta, dramaturgo e historiador ele nos legou documentos que nos permitem vislumbrar um pouco do Brasil quinhentista, das batalhas travadas, dos costumes nativos e da fé que se propagava naquele período.


A recente canonização do Padre Anchieta torna mais atrativo aos olhos do turista os Passos de Anchieta, as ruínas da igreja jesuíta em Guarapari e tudo o que ainda cerca a história de vida do padre no estado do Espírito Santo.

Ruínas da igreja jesuíta em Guarapari-ES