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sábado, 21 de junho de 2025

Deserto

 Existem desertos de areia, de sal e de neve. Nesta postagem, o foco é sobre o primeiro.

Tanto na literatura quanto como arquétipo psicológico, o deserto pode representar solidão [ou isolamento proposital]. No aspecto da sobrevivência, pode significar vida penosa, perigo de morte, escassez de vida e falta de recursos para manter a vida. Por outro lado, de forma mais profunda, também pode simbolizar mistério, romantismo [no sentido popular], silêncio, meditação, uma jornada de autoconhecimento [e desafios], o passado remoto e a vida nômade.

O Saara é o deserto mais famoso do mundo. Localizado no norte da África, se estende do Marrocos ao Egito. Boa parte dele já foi mar há milhões de anos. Em Wadi al Hitan [Vale das Baleias] foram encontradas conchas do mar e até fósseis desse cetáceo gigante. Hoje o lugar é aberto à visitação e tem um museu que conta a história evolutiva desse incrível animal.


Fóssil de baleia em Wadi al Hitan - Egito (fonte: Wikipedia)










Fóssil de baleia em Wadi al Hitan - Egito (fonte: Wikipedia)











O Deserto Preto (Black Desert)

Sua formação rochosa é de origem vulcânica e a isso se deve a cor preta. Mas hoje em dia, todos os vulcões lá estão extintos. Em aparência, lembra outro planeta, como em fotos que vemos da superfície de Marte.

Deserto Preto: vulcões extintos.






















Black Desert, Egito (fonte: PLenglish).










Superfície do planeta Marte (fonte: NASA).













O Deserto Branco (White Desert)

Possui pedras de vários formatos que, na imaginação, lembram formas de animais. Essas pedras foram esculpidas naturalmente pelo tempo.

Caminho para o Deserto Branco.





















Pedra chamada de "O ovo e a galinha".







































Pedra com formato que lembra um coelho.








































O Black Desert e o White Desert são atrações do Egito. Turistas de todo o mundo fazem passeios guiados e acampamentos nessa região, vislumbrando uma experiência de vida beduína.

Além das paisagens diurnas, a noite oferece a chance imperdível de fazer ótimos registros do céu, especialmente para os amantes da astrofotografia. Não há poluição luminosa, o deserto fica a mais ou menos 4 horas de carro da cidade mais próxima. Além disso, no Egito raramente chove, então as chances de nebulosidade são mínimas. 


Céu noturno no Deserto Branco (fonte: Ootlah)

















O nascer e o pôr do sol também são momentos excelentes para fazer belíssimos registros fotográficos.

Deserto Branco (fonte: Magnificent World)


























Pôr do sol no Deserto Branco.










































As paisagens desérticas não requerem muita explicação para a sua beleza poética e filosófica. As imagens desoladas falam por si só, enquanto visões de oásis e caravanas de camelos acrescentam riqueza imagética a um cenário que tanto inspira obras de arte, desde desenhos animados [Pica Pau me vem à memória] até clássicos da literatura como As Mil e Uma Noites.

Dica de livro: O Homem Que Calculava (Malba Tahan) - obra que deveria ser obrigatória em todas as escolas do mundo! E em segundo lugar, recomendo a leitura de As Mil e Uma Noites.

Dica de filme: Lawrence da Arábia

Dica de série: O Jovem Indiana Jones (gratuito no You Tube)

Dica de música, segue abaixo:


Canção de Marcel Khalife intitulada "My Mother"


Assista também a uma excelente análise da megaprodução Lawrence da Arábia, obra-prima cinematográfica:


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O significado de Pã

 O mito do deus Pã

Era um deus com desejos insaciáveis e também com aparência amedrontadora. Perseguia as ninfas e era cultuado por pastores que, ao mesmo tempo, o temiam.


Para Freud

Id = desejos primários [instintivos],

Superego = moral internalizada [que reprime os desejos],

Ego [O eu psíquico] = tenta equilibrar a dicotomia entre Id e Superego.


Ou ainda:

Pulsão de vida = sexual, mantenedora, construtiva...

Pulsão de morte = destrutiva.

Essas pulsões são opostas e complementares entre si.

Ex: para se alimentar e continuar vivo, você destrói ou mata algo.


Outra interpretação [ou complementar à primeira]

Pã = desejo e pânico [medo inexplicável]:

Todo medo é, em essência, medo da morte.

Mas apesar do medo da morte, 

O ser humano deseja demais aquilo que o assusta, às vezes deseja sentir medo. Então também temos:

Desejo por aquilo que nos dá medo [e todo medo é, em essência, medo da morte],

Assim, temos:

Desejo pela morte [neste caso, não significa acabar com a vida, mas se libertar de algo].

A morte simboliza um recomeço, um retorno a algo primordial ou essencial.


Os exemplos disso na literatura, nas letras de canções etc são muito recorrentes! Muitas usam a metáfora de um trem ou carruagem que nos leva de volta à casa, podendo significar um retorno à infância ou à pátria-mãe ou à morada de Deus.

Os gêneros musicais "negro spiritual", "gospel" e "blues" são mestres nisso, e passaram para o rock essa tradição. A libertação da escravidão era cantada pelos negros em forma de prece. Funcionava em dois níveis: num primeiro, retornar à pátria-mãe [África], num segundo, retornar à morada de Deus [a liberdade para um escravo só viria, infelizmente, com a morte].

Outras canções posteriormente substituíram a palavra "casa" por "Califórnia", idealizando um lugar ensolarado [iluminado] e paradisíaco.

Obs: Estou com preguiça de citar textos. Se você não entende as referências acima, você não tem bagagem cultural para compreender esta postagem.

Historicamente, vários povos enterravam seus mortos em posição fetal [i.e: retorno ao útero, de onde vieram todos eles]. Vale aqui retomar Freud e os antigos gregos [Sófocles]: o complexo de Édipo está intrinsecamente ligado a esta prática histórica.


Conclusão

Pã, simbolizando desejos primários [instintivos] e medos incontroláveis [pânico] também carrega intrinsecamente a contradição entre desejar o que mais nos amedronta, ou seja, desejar a morte. Mas não a morte que anula a vida, e sim uma fuga dos problemas da vida, ou a fuga da dor existencial, ou a volta a algo primordial [a infância, por exemplo] ou uma re-ligação a algo transcendental.

Pã, como deus pastoril, também está relacionado à fertilidade [vida] e masculinidade [homens que trabalhavam na lavoura]. Por isso, vale lembrar deuses como Min dos egípcios e Priapo na mitologia dos gregos e romanos. Ambos muito presentes na arte desses povos.

Tanto a masculinidade como a feminilidade eram cultuadas no paganismo antigo. Os deuses tinha sexo e isso era bem visto nessas culturas. A boa colheita e o perfeito funcionamento das estações do ano dependiam desses deuses e deusas.


ADENDO: a mitologia hindu 

Para eles, o universo é cíclico. Há uma trindade de deuses: Brahma [deus construtor], Vishnu [deus mantenedor] e Shiva [deus destruidor-modificador-renovador]. Podemos associar estas divindades ao Id, Superego e Ego. Ou ainda, associá-las à pulsão de vida, pulsão de morte e o equilíbrio entre as duas pulsões.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

De plágio a meme


A página Língua Portuguesa, que eu sigo no Facebook, usou minha postagem de 2017, sem me dar o devido crédito.























"As três pétalas superiores representam a tríade que compõe o curso: Literatura, Gramática e Linguística."

Essa definição da flor-de-lis como símbolo do curso de Letras se espalhou pela internet. Um monte de pessoas e páginas usando, a maioria sem dar crédito ao meu blog, o Interlúdico.

Esse significado da flor-de-lis partiu de uma análise minha com base em simbologia e semiótica. Isso não existia. Não peguei algo pronto. Eu criei isso. E agora é praticamente um meme.



A página da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) também usou minha análise, sem crédito ao meu blog, mas citando a página de Língua Portuguesa.

A postagem original que gerou tudo isso é esta:

Fiz essa postagem em 01 de novembro de 2014. Até agora, foram 60.253 visualizações.

Na época, a flor-de-lis já era símbolo do curso de Letras. Mas eu não achava na internet uma explicação para isso. Então, criei a minha própria: "A pétala do meio é a Literatura, a da direita é a Gramática, a da esquerda é a Linguística." Explico o porquê disso na postagem original (link acima).

Além desses exemplos, já vi outras páginas usando minha análise sem dar o devido crédito. Isso é plágio! Mas se esse é o preço para uma postagem do meu blog virar meme, que seja! Se eu tiver o reconhecimento disso um dia, ótimo! Se não tiver, paciência. Mas meus amigos, colegas de profissão e ex-alunos sabem onde tudo começou. E a prova está no link, com data de publicação.

Gosto de ver minha análise sendo usada por outros. Mas receber crédito também seria bom, para não dizer justo.


PS: devido ao sucesso da primeira análise, fiz uma segunda em 16 de janeiro de 2015:
https://interludico.blogspot.com/2015/01/a-flor-de-lis.html


Lírio vermelho



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Semiótica, Teoria Literária e arquétipos

Semiótica, Teoria Literária e arquétipos: ferramentas para a compreensão do texto.


A Semiótica (às vezes referida também como Semiologia) é a ciência que estuda todos os signos linguísticos: verbais, visuais, auditivos e múltiplos. Neste campo, alguns estudiosos de destaque são:

Charles Peirce (EUA) – filósofo, cientista, matemático e químico.
Roland Barthes (França) – filósofo e crítico literário;
Umberto Eco (Itália) – escritor, autor de “O nome da rosa” e crítico literário.

Alguns conceitos importantes da Semiótica:

Ícone - é uma representação que se assemelha ao objeto representado. Exemplo: uma fotografia se assemelha à pessoa retratada.

Índice - é uma representação que se relaciona ao objeto representado. Exemplo: uma pegada humana lembra-nos um ser humano (mas a pegada não se assemelha a ele).

Símbolo - é uma representação arbitrária feita em dado espaço-tempo. Possui um caráter cultural. Exemplos: uma letra para representar um fonema ou uma logomarca para representar uma empresa.


Metáforas e símbolos

A metáfora é a mãe de muita outras figuras de linguagem, também referidas como figuras de estilo ou de retórica ou de expressão.

Tanto a metáfora quanto o símbolo consistem em substituir uma coisa pela outra. A metáfora substitui uma palavra por outra, o símbolo substitui um conceito por uma imagem, por exemplo. Algumas vezes, metáforas e símbolos produzem o mesmo efeito, por isso a linguagem figurada por vezes é definida como uma linguagem simbólica.

Todos os textos (orais, escritos, visuais etc) são recheados de metáforas e símbolos. Não apenas os textos definidos hoje como literários (poemas, peças teatrais, narrativas ficcionais etc), mas qualquer forma de texto (conversas, diálogos, cartas, epístolas, notícia jornalística, propaganda, manifesto etc).


A alegoria

Uma palavra que define um conceito filosófico (abstrato) pode ser substituída por uma palavra imagética (visual) ou uma figura (concreta). Este é o caso da alegoria. 

Há infinitos exemplos de simbolização no dia a dia:

O dinheiro substitui a riqueza por um pedaço de papel ou metal;

A logomarca substitui/representa uma empresa ou produto;

A parábola substitui um enunciado moral por uma narrativa;

O exemplo substitui uma explicação geral (conceituação) por um caso particular.



A operação da linguagem

A linguagem (oral e escrita) pode ser compreendida tanto como uma operação alegórica quanto como uma operação simbólica. Ambas podem ocorrer simultaneamente ou serem didaticamente separadas:

Operação alegórica (do abstrato ao concreto) – o ato de substituir um pensamento ou sentimento (internos em um sujeito) por uma palavra que possa ser expressa a toda uma comunidade. Ou seja, o ato de transformar nossas percepções sensoriais (mundo psíquico) em palavras que as definam.

Operação simbólica (do concreto ao abstrato) – o ato de dar nome a objetos (do mundo exterior) rotulando-os com palavras é uma operação de abstração (simbolização do mundo exterior).

Estas operações possibilitam a existência da linguagem e definem o que muitos filósofos chamam de consciência.


Concretismo e poesia visual

O Concretismo e a Poesia Visual são conceitos literários do século XX e consistem em operar do abstrato ao concreto, ou seja, tomar a palavra (antes entendida como símbolo arbitrário) e aproximá-la do conceito de ícone, fazendo-a se assemelhar à imagem que ela representa.

Exemplo:
 O significante se assemelhando ao significado



                      


Metáfora, alegoria, símbolo e cultura

Da mesma forma que um sujeito para compreender a língua portuguesa deve estar inserido nessa cultura linguística, também para compreender um símbolo ele deve se inserir naquela cultura simbólica. A seguir alguns exemplos.

Na mitologia grega, o trabalho se Sísifo é uma alegoria que reflete a inutilidade de certas tarefas, convocando o homem a refletir sobre o seu trabalho. No mito, Sísifo passa a vida empurrando uma pedra morro acima, mas ela sempre rola abaixo quando atinge o topo.

Nas culturas orientais, a flor de lótus simboliza pureza espiritual, pois é uma flor que nasce em meio ao lodo.

As máscaras do teatro grego e da commedia dell’ arte italiana representavam estereótipos sociais, ou seja, tipos comuns de personalidade, facilmente reconhecíveis pelo público. No teatro moderno, porém, a máscara física foi substituída pela “máscara psicológica”.



Há que se destacar o trabalho do psicólogo Carl Gustav Jung na interpretação de fábulas, mitos e símbolos, bem como pelo conceito de "arquétipo" para entender as tais "máscaras psicológicas".

Alguns arquétipos conhecidos popularmente

Para C. G. Jung, os arquétipos são ideias primordiais no inconsciente coletivo. Essas ideias não possuem forma definida, mas são materializadas ou personificadas (alegoricamente) em símbolos visuais, narrativas, personagens etc. A simbolização ocorre de forma diferente em cada cultura, mas a ideia primordial (a essência) permanece a mesma já que essas ideias fazem parte de um inconsciente coletivo, logo, comum a toda a humanidade.

inúmeros arquétipos que representam a natureza humana. Como somos seres complexos, assumimos várias personalidades, cada uma em um contexto distinto. A seguir alguns exemplos que julgo recorrentes e importantes nos textos.

O pai castrador – é a qualidade controladora da nossa personalidade. É personificado em diversas culturas na figura de um pai ou um deus punitivo. Um exemplo é Odin na mitologia nórdica.

A mãe – é a qualidade amorosa da personalidade. Está ligada à fertilidade e nutrição. É personificada por Proserpina, deusa romana da fertilidade (Perséfone dos gregos); Gaia, a mãe-terra na mitologia grega; Ísis, na mitologia egípcia, Inanna, na mitologia suméria etc.

O pai amoroso – é a qualidade feminina no ser masculino, ou seja, o lado afetivo e criativo no homem, menos receoso de expor as emoções publicamente. Este é o traço de personalidade que Jung chamaria de anima. É personificado em diversas culturas na figura de um homem ou um deus, sempre bondoso, sensível e dado ao perdão. Pode ser pintado (representado iconicamente) como um homem de traços femininos.

A madrasta – é a qualidade masculina no ser feminino, ou seja, o lado violento, competitivo e vingativo na mulher. Este é o traço de personalidade que Jung chamaria de animus. É personificado por Hera (a vingativa esposa de Zeus) e as diversas madrastas dos contos infantis.

O velho sábio – diz respeito ao nosso conhecimento, ao nosso hábito de aconselhar e orientar. É personificado na figura de um mágico, mago, mestre, profeta, professor, guru etc. O mago Merlin é um exemplo, assim como Gandalf (em Senhor dos Anéis) e Dumbledore (em Harry Potter).

O velho conservador – é o lado conservador de nossa personalidade. Julga o presente de acordo com paradigmas passados. É mantenedor de tradições. Um exemplo seria o Velho do Restelo na obra “Os Lusíadas” de Camões.

O jovem rebelde – é o nosso lado revolucionário, inconformado, contestador que exige mudanças. Um exemplo é Bob da Família Dinossauro (seriado de TV).

O mensageiro – trata da nossa característica de levarmos recados que nem sempre são aguardados ou bem recebidos. Exemplos são: Hermes (na Grécia), Mercúrio (em Roma), Loki (na Escandinávia), Exu (orixá africano), Pombero (guarani).

O herói – ele é o nosso lado aventureiro. Na literatura ele é personificado em várias figuras que protagonizam as narrativas. Aquiles é um exemplo.

O rei prometido – é a nossa esperança de mudança de uma situação que não podemos mudar sozinhos. Um exemplo é o rei Arthur.

O duplo (ou alter ego)– é o lado obscuro da nossa personalidade, isto é, aquelas características que rejeitamos em nós mesmos por não conseguirmos conviver com elas. Nas narrativas aparece como o gêmeo mau, ou o irmão mau, sendo antagonistas do gêmeo bom ou do irmão bom. Exemplos podem ser vistos no conto “William Wilson” de Edgar Allan Poe e no famoso “Dr. Jekill and Mr. Hide” (R. L. Stevenson) que inspirou o Hulk dos quadrinhos.

O macho-alfa – é a vontade masculina de dominar ou se destacar em uma comunidade, indo muito além de apenas ser aceito. Um exemplo é o personagem Don Juan.

A fêmea-fatal – é a vontade feminina de se destacar em seu grupo social, indo muito além de apenas ser aceita. Exemplos são dos mais variados, desde Lilith até a mulher-gato das histórias em quadrinhos.

O andrógino ou hermafrodita – é uma identidade indefinida, esta assume características atribuídas aos dois sexos, porém causando estranhamento aos outros. Pode ser representada por um morcego (mamífero alado).

Édipo/ Electra – é o nosso sentimento ambíguo em relação aos nossos próprios progenitores; de um lado amor e admiração, de outro, ressentimento e rancor.


Também há inúmeros arquétipos que representam sentimentos e situações recorrentes na vida humana.

A terra prometida/o lar perdido – vontade de retorno à infância, nostalgia de nos sentirmos acolhidos como éramos na infância. Na música temos vários exemplos, desde o gospel “Swing low, sweet chariot, Coming for to carry me home” até "Mama, I'm Coming Home" de Ozzy Osbourne.

A vida – simbolizada como uma estrada ou um rio. Na música há vários exemplos: “Born To Be Wild”, “Highway Star”, “Infinita Highway” etc. Nos três exemplos citados, o eu poético tenta fazer da vida uma aventura, uma busca pela almejada liberdade.

A morte – simbolizada por um barco, um trem etc. Diversos são os exemplos de metáforas desse tipo: o mito de Caronte, o barqueiro do Hades; “O auto da barca do inferno”, peça de Gil Vicente; a música “Trem das sete” de Raul Seixas etc.

A palavra dura – aquele ensinamento que é importante para o crescimento espiritual de um indivíduo ou de uma comunidade, porém, inicialmente traz discórdia e não é imediatamente aceito. Pode ser simbolizada por uma espada.

A efemeridade (ou dialética da natureza)  – é a consciência de que tudo é fugaz, efêmero, passageiro. Uma fruta apodrecendo ou um dente-de-leão podem ser imagens representativas desse conceito.


Os animais também ocupam papéis simbólicos.

Memória – elefante. É personificado por Ganexa, deus da sabedoria no hinduísmo.
Fartura/potência sexual – o bode. Exemplos são Pã, os faunos e os sátiros.
Pureza/fartura – a vaca.
Fidelidade – o cão.
Astúcia/magia/curiosidade – o gato.
Poder/liberdade/visão – a águia.
Trabalho degradante – o burro.
Reprodução/multiplicação – coelho/preá.
Sociedade/comunidade – formigas/abelhas.
Sabedoria/mistério – coruja.


Para ler mais sobre o assunto, deixo links de outras postagens:

Narratologia (e a jornada do herói):


Alter egos:


A função do mito:

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A flor-de-lis

A flor-de-lis é uma figura heráldica muito antiga. Seu desenho foi provavelmente inspirado no lírio ou na flor da íris. Há também uma flor popularmente chamada de flor-de-lis, esta orna a capa do Interlúdico.

Lírio











Dada a sua origem remota, os significados e formatos da flor-de-lis como símbolo são diversos. Seria exaustivo (talvez impossível) citar e comentar todos, mas eis alguns interessantes:

- Símbolo de pureza por semelhança à flor de lótus (uma flor bonita que emerge do lodo, daí sua associação à pureza e superação). Por este motivo e também por sua procedência oriental a flor de lótus representa o Buda (o iluminado) meditando na posição conhecida como "posição de lótus" (sentado com as pernas cruzadas).













- A flor-de-lis pode aparecer ligada à alquimia, ao Cristianismo, a ordens religiosas ou de cavalaria, irmandades e fraternidades, sociedades e associações diversas e outros tipos de tradições.

- É símbolo da união mundial dos escoteiros cujo lema é "sempre alerta".

- O Lírio de Florença (Giglio di Firenze) é há séculos o símbolo da cidade italiana que foi o berço do Renascimento.

Giglio di Firenze













- Está presente em vários brasões de armas, escudos e bandeiras pelo mundo;
- Símbolo associado à França em vários períodos de sua história;
- Aparece na bandeira de Quebec (província canadense cuja língua oficial é o francês);

Bandeira de Quebec












- O formato da flor-de-lis lembra a letra grega psi (Ψ), consequentemente, pode representar a alma humana (Psiquê em grego).


- Várias universidades adotam a flor-de-lis e a coruja como símbolos da graduação em Letras. 

No link abaixo há uma postagem na qual faço uma análise semiótica sobre a flor-de-lis como símbolo do curso de Letras:
http://interludico.blogspot.com.br/2014/11/a-flor-de-lis-como-simbolo-do-curso-de.html

sábado, 1 de novembro de 2014

A flor-de-lis como símbolo do curso de Letras



Uma análise semiótica:

Alguns modelos da flor-de-lis

As três pétalas superiores representam a tríade que compõe o curso: Linguística, Literatura e Gramática.

1- A pétala do meio é a Literatura (Letras em latim é Litteris). Por sua etimologia é a pétala central. Repare que ela aponta para cima, para o ideal, o elevado.

Sócrates apontando para o alto (o mundo ideal).


2- A pétala da direita é a Gramática, a tradição conservada.

3- A pétala da esquerda é a Linguística, a ciência, a revolução racional e crítica.

O traço horizontal no centro da imagem representa a união entre as três pétalas (Linguística, Literatura e Gramática) como um feixe.

Um feixe (símbolo de união)


Cada pétala tem sua continuidade abaixo do traço horizontal, ou seja, um lado idêntico, porém, oposto. É a representação da Dialética, a antítese de cada pétala, logo, a figura como um todo é uma síntese, representando o equilíbrio. A dialética foi uma das disciplinas curriculares básicas da Antiguidade e Idade Média.

Gramática, Retórica e Dialética entre as 7 Artes Liberais.

Outra análise:

A metade abaixo do traço horizontal também pode representar o caule e a raiz das pétalas, ou seja, a busca pelas fontes do conhecimento, a procura pelas raízes da sabedoria, a investigação do que está oculto (a raiz se esconde embaixo da terra).

Árvore e raiz, Yin Yang: dialética, equilíbrio.


As três pétalas também podem significar os gêneros lírico, narrativo e dramático. Ou ainda: descrição, dissertação e narração.

A coruja como símbolo de Letras representa a docência, a sabedoria, a curiosidade e o mistério. Como Licenciatura, divide a coruja com outras licenciaturas: Filosofia e Pedagogia.






Comentário meu adicionado em 30/05/2020
Em 2017 a página Língua Portuguesa do Facebook usou minha análise das pétalas e outras informações deste blog sem dar o devido crédito:


"As três pétalas superiores representam a tríade..." (plágio da minha análise)















Vejam que minha postagem é de 2014. A postagem da página Língua Portuguesa é de 2017 e não cita meu blog. Essa análise das pétalas e seus significados no curso de Letras não existiam antes. Em 2014 eu procurei na internet e não achei nenhuma explicação para a flor-de-lis ser o símbolo do curso de Letras. Então, criei minha própria explicação, com base em simbologia e semiótica. Desde então, essa explicação tem sido usada, por alguns, sem dar o devido crédito a este blog. Não é uma coincidência de palavras, usam exatamente as mesmas palavras que eu usei. E quais as probabilidades matemáticas de eles chegarem à mesma análise de significados das pétalas e com as mesmas palavras que eu usei?  É plágio constatado e comprovado!

Dito isso, só me basta ficar feliz por essa postagem ter feito tanto sucesso, com mais de 60 mil visualizações. Para um tema tão específico e sem apelo, é uma vitória.

Devido ao sucesso da postagem de 2014, fiz outra sobre a flor-de-lis em 2015:

http://interludico.blogspot.com/2015/01/a-flor-de-lis.html

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A espada e a pena


A espada e a pena, símbolos antigos do verbo. Representam a dureza e a suavidade da palavra, oral ou escrita.
















Sendo que a espada é um símbolo muito mais antigo, bíblico, enquanto a pena representaria os escritores liberais do séc. XVIII e os românticos no séc. XIX.

Estes símbolos também podem formar uma oposição entre eles, como na célebre frase "A caneta é mais poderosa que a espada", um pensamento dito e repetido ao longo da história. 

A sentença Calamus gladio fortior (Latim: A caneta é mais poderosa que a espada ) é mote da Universidade Keio em Toquio, Japão.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poema de Augusto dos Anjos


Sonho de um monista

Eu e o esqueleto esquálido de Ésquilo
Viajávamos, com uma ânsia sibarita,
Por toda a pró-dinâmica infinita,
Na inconsciência de um zoófito tranquilo.

A verdade espantosa de Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus – essa mônada esquisita –
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,

Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias! 

Fonte:
ANJOS, Augusto dos. Poesias de Augusto dos Anjos – Eu e Outras Poesias. São Paulo: Editora Letras & Letras, 2003.


Este é o poema mais hermético de Augusto dos Anjos. A análise completa do poema está em minha dissertação neste endereço:

O link acima leva à postagem de 22 de abril de 2011, cujo título é Textos publicados: dois poemas e dissertação. Lá haverá três links, o terceiro leva direto à minha dissertação.

A seguir, postarei algumas “pistas” para compreender este poema.

O monismo é a doutrina que prega uma realidade única, ou seja, a unidade em detrimento da dualidade, a união entre mente e corpo, espírito e matéria.

A referência a Ésquilo, dramaturgo grego frequentemente reconhecido como o pai da tragédia, aparentemente surge apenas em razão da sonoridade obtida no verso: “esqueleto esquálido de Ésquilo”. Com efeito, produz-se o eco dos sons: [esk], [esk], [esk]. O som realça a presença sombria do esqueleto – simbolizando a morte – que está próxima do eu lírico.  Mas “Ésquilo” também é metonímia para “tragédia”. Portanto, o eu lírico viajava na companhia da morte trágica.

A trecho “com uma ânsia sibarita” (2º verso) significa: ostentando valores materiais. Luxos e caprichos que o eu lírico deixará após uma descoberta, uma epifania que acontecerá mais adiante no poema.

O eu lírico e o esqueleto do dramaturgo grego viajavam na “inconsciência de um zoófito tranquilo”. Zoófito é uma designação antiga para corais, esponjas e medusas. Portanto, seria uma metáfora para microcosmos ou um mundo onírico, talvez surreal, visto que o texto menciona “inconsciência” (4º verso).

Na segunda estrofe, “A verdade espantosa do Protilo” aterrorizava o eu lírico. Protilo é um termo usado em alquimia, seria a hipotética matéria primitiva de que se formam os elementos dos corpos.

A conjunção coordenada adversativa “mas” (6º verso) sugere uma oposição entre “a verdade do Protilo” e “Deus”. Se a “verdade do Protilo” causa terror ao eu lírico, logo, Deus causa o oposto. A “alma” do eu lírico está “aflita” com a “verdade de Protilo” (ou teoria do Protilo). Mas o eu lírico “via Deus” dentro de sua “alma aflita” e essa visão o acalmava.

No sétimo verso, Deus é descrito como “essa mônada esquisita”. Mônada, segundo a teoria de Pitágoras, seria a união perfeita do espírito e da matéria constitutiva de Deus. Então, Deus, descrito como mônada, significaria a unidade de tudo: os microorganismos, o princípio criador, a união perfeita entre espírito e matéria, a simplicidade. O significado de “esquisita” nesse verso é “delicada, bem acabada, rara”, portanto, uma “mônada rara e bem feita”.

O eu lírico “via Deus coordenando e animando tudo aquilo”, ou seja, coordenando todo o universo e dando vida a tudo. O verbo animar significa dar ânimo, dar alma, dar vida, ou o sopro divino.

A própria etimologia da palavra relaciona-se ao sopro e ao ar, enquanto princípio vital. Animus – princípio pensante e sede dos desejos e paixões, correspondente ao grego anemos, ao sânscrito aniti, ambos significando sopro; de valor intelectual e afetivo; de registro masculino. Anima: princípio da aspiração e expiração do ar; de registro feminino. [...] Reteremos ainda uma outra definição dada por Jung: a anima é o arquétipo do feminino que desempenha um papel muito especial no inconsciente do homem. Se a anima é o índice feminino do inconsciente do homem, o animus, segundo Jung, é o índice masculino no inconsciente da mulher.

Fonte:
BRUNEL, Pierre. et al. Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.


Logo, no poema Deus pode ser também interpretado como o sopro divino que é a união perfeita entre princípios masculino e feminino, ou yin e yang (segundo a tradição oriental).

No décimo primeiro verso, o eu lírico se encontra “Alheio ao velho cálculo dos dias” Significa que ele abandonara a racionalidade, abandonara o “velho cálculo”.

No décimo segundo verso, há uma referência a Proserpina, a deusa romana cuja lenda fornece uma explicação mitológica para o ciclo das estações do ano. Enquanto Proserpina está no submundo de Plutão, é inverno na superfície terrestre, as plantas morrem, o alimento é escasso. Quando Proserpina deixa o submundo de Plutão e sobe à superfície, a primavera tem início e a terra se torna fértil para o plantio. Pelo caráter sazonal de seu mito, Proserpina está ligada a terra, à agricultura, à fecundidade, ao ciclo de nascimento-morte-renascimento, e por extensão, como vários outros mitos de fertilidade, carrega também um simbolismo de fecundidade sexual, ou seja, a união entre masculino e feminino gerando frutos (ou filhos). O pagão cultuava a deusa da fertilidade no rito de hieros gamos, rito este de caráter sexual, simbolizando a fertilidade. Este é o “altar de Proserpina”, mas a referência a ele, no poema, tem caráter apenas metafórico.

Ainda no décimo segundo verso, o eu lírico se compara com o pagão: “Como um pagão no altar de Proserpina”. Faz-se necessário lembrar que a palavra “pagão” vem do latim paganus, que por sua vez, vem de pagus, que indicava uma circunscrição territorial rural. Portanto, pagão significa originalmente homem do campo. O pagão tinha sua própria fé, as suas próprias crenças. A religião pagã era a religião do homem do campo, ligada ao culto da natureza. O sentido de pagão no poema é este: o pagão é o homem do campo, fiel, temente aos deuses e deusas da natureza. Portanto, o verso significa: “Como um fiel no altar da deusa da fertilidade”.

O homem do campo sem fé seria aquele que, preso à razão, preocupa-se em contar os dias para o plantio e a colheita, logo, está preso aos “velhos cálculos dos dias”. Mas o homem do campo com fé é aquele que vai ao altar de Proserpina, alheio aos velhos cálculos e entrega-se unicamente à fé, faz sua oferenda no altar da deusa e pratica seu culto confiando que, ao fazer isto, terá uma boa colheita.

Logo, o poema diz que o eu lírico “alheio ao velho cálculo dos dias” (alheio à razão) volta-se unicamente para a fé “como um pagão no altar de Proserpina”.

Em troca de sua devoção à Proserpina, o pagão queria obter fertilidade em sua lavoura e uma boa colheita. Mas o eu lírico não é o pagão, ele é “como um pagão”. Ou seja, ele se compara ao pagão que troca a razão pela fé. Mas ele não é devoto do paganismo e não busca boa colheita. O objetivo dele é outro: vencer a morte. A referência a Proserpina tem motivo apenas simbólico neste poema. O mito de Proserpina enfatiza a renovação da vida e, simbolicamente, refere-se à unidade entre masculino e feminino e à consequente renovação da vida por meio de frutos (filhos). O eu lírico enfrenta a morte trágica e teme a verdade de Protilo (que o fim da matéria seja o fim de tudo, o nada absoluto).

A epifania que o eu lírico tem é a seguinte: “E eu bendizia (9º verso) a energia intracósmica divina que é o pai e é a mãe das outras energias (13º e 14º versos)”. Ou seja, ao ver Deus animando tudo, o eu lírico se acalma diante da morte, pois Deus é a perfeita unidade (energia intracósmica divina) que é pai e mãe (masculino e feminino) de todas as energias. Assim, o eu lírico contradiz a “verdade de Protilo”.

Muito confuso? É mesmo. Mas leia o poema de novo e releia mais uma vez. Depois dessas informações, e mais duas leituras, creio que ficará um pouco mais fácil. Obviamente, a pulsão de morte e a pulsão de vida também se fazem presentes no poema: morte e renovação da vida, eterno ciclo alquímico:


Que, aliás, é a sílaba Om dos mantras hindus e antigos textos védicos. O som dessa sílaba representa a unidade, o "um", o eterno.

Repare de novo o título do poema: Sonho de um monista (Som de Om).