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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Soneto dos pensadores livres

 
A psicologia do egoísmo
É simples mania de narcisismo.
Egoísmo racional é ilusão
Que em nada tem a ver com a Razão.
 
A verdadeira sabedoria,
Contrária ao ego e à anarquia,
É construída coletivamente,
Libertando-nos individualmente.
 
O livre pensador só pode viver
Quando não carrega o duro pesar
De nos ombros o mundo sustentar.
 
E livre este mundo só pode ser
Se pensadores livres caminharem
Sem egoístas que os amarrem.


 
Renan, agosto de 2022.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

E se a língua portuguesa desaparecesse?

Se a língua portuguesa desaparecesse do mundo, 
o professor de Língua Portuguesa seria obsoleto?


Obviamente, a língua portuguesa [hoje entre os 5 ou 8 idiomas mais falados do mundo como língua nativa] não vai desaparecer. Mas proponho um exercício de imaginação, um cenário ficcional, similar a algumas narrativas de ficção científica ou do conto fantástico, para ilustrar um fato importante. 

Poderia usar de uma alegoria para isso, como o fez Platão com a caverna, mas a maioria das pessoas hoje absorve pouco de leituras filosóficas e literárias. Aliás, o mundo carece de leitores. Então serei didático, direto, claro e sem criatividade.

É evidente que existem professores e Professores. Em toda área, campo de estudo e profissão existe essa divisão. Mas tomo aqui o termo Professor de Língua Portuguesa como um ideal, com base no currículo do curso de Letras que prepara esse profissional para atuar com relevância e competência. E felizmente, isso se aplica aos profissionais de hoje no mercado, em sua maioria.

Se a língua portuguesa desaparecesse do mundo, a exemplo do que a acontece no filme Yesterday [quando a existência dos Beatles é apagada da história] o professor de Língua Portuguesa seria obsoleto? A resposta é não. 

O Professor de Língua Portuguesa não é apenas um professor de língua portuguesa. Esse profissional, com a devida formação acadêmica, é um sujeito essencial na formação e desenvolvimento da sociedade como um todo.

Então, se a língua portuguesa desaparecesse do mundo, como por um passe de mágica, ainda sobraria muita coisa para o Profissional de Letras fazer. Em qualquer outro idioma, ele ainda seria a autoridade:

- Do entendimento científico da estrutura da linguagem, da formação do raciocínio e de sua expressão verbal e não verbal, oral e escrita;

- De todos os ramos da Linguística, desde registros históricos - importantes para o campo da tradução - até a compreensão atual e de perspectivas para o futuro dos idiomas e de seu entendimento;

- Da história da Literatura, das teorias literárias e de interpretação textual e, portanto, da compreensão dos aspectos explícitos e também simbólicos mais importantes da nossa sociedade.

 

Em resumo, sem esse profissional o mundo mal compreenderia a si mesmo. O conhecimento que ele traz ultrapassa os limites do idioma, são conhecimentos válidos para todas as sociedades.

Vai muito, MUITO além de saber escrever corretamente e de se fazer compreender. Diz respeito ao pensamento, sua forma e estrutura; a entender o passado da humanidade e analisar cada aspecto de uma matéria-prima chamada LINGUAGEM, da qual todo campo de estudo e área de trabalho dependem no presente e dependerão no futuro. Sempre!


Se você entendeu isso ou já sabia disso, você entendeu o óbvio, e está de parabéns por entender o que hoje em dia poucos entendem.

Se você ainda não entendeu, isso mostra o quanto você e outros como você precisam de um Profissional de Letras.

Desculpe-me se soei arrogante nessa última parte, não foi minha intenção. Mas do nosso ponto de vista, como Professores, a arrogância vem de uma parte da sociedade que não reconhece o valor e importância desse Professor que leva a criancinha ao mundo adulto; inserindo cada indivíduo no mundo das Letras, dos símbolos, da significação, da abstração, do raciocínio, do conhecimento, do entendimento de si próprio e do mundo que o cerca. Sem isso, as relações humanas se tornariam impossíveis, ou no melhor dos cenários, caótica. 

quarta-feira, 20 de março de 2019

Cuidado com a língua!


Cuidado com a língua nunca é demais!

Quando vejo um Mestre de uma universidade federal publicar um artigo cujo resumo começa assim: "O presente trabalho pretende apresentar [...]" Pr, pr, pr... Parece que estou ouvindo o coaxar do sapo cururu no campo da cacofonia. Como continuar lendo um artigo que começa assim? Onde está a criatividade ao iniciar um texto?

Outro exemplo: 

Um outro Mestre também de uma universidade federal usa a abreviatura Ms para se apresentar como Mestre. Façam uma visita ao site da Academia Brasileira de Letras e vejam qual é a abreviatura correta para Mestre/Mestra!

E são esses acadêmicos que, de longe, bem longe das salas de aula do ensino fundamental, criticam o "ensino tradicional da gramática normativa". Dizem que "há uma ideologia dominante por trás da escolha da variante culta da língua", e que os alunos devem ser "ensinados a pensar por eles mesmos, terem pensamentos críticos, serem questionadores".

Mas proponho duas questões:

1- Como esses acadêmicos aprenderam a escrever e publicar artigos? Resposta: na época em que eram alunos do ensino fundamental, foram obrigados a estudar a chata gramática tradicional e normativa imperialista dominante. E se não tivessem tido esse conteúdo no ensino fundamental, os textos desses Mestres seriam muito piores!


2- Se abandoarmos de vez o ensino da gramática tradicional no ensino fundamental e focarmos nossos esforços em ensinar o aluno a ser um questionador o que teríamos? Resposta: pessoas que não sabem ler e escrever corretamente (com coesão, coerência e conteúdo) e que não conseguem compreender e interpretar o que leem, mas que criticam, duvidam e questionam tudo (a sabedoria intrínseca em um texto filosófico ou literário, a autoridade dos pais, a autoridade de um professor, a hierarquia em uma sociedade, o motivo de ele estar na escola, a razão de ele ser obrigado a estudar conteúdos de que ele não gosta...). E isso infelizmente nós já temos, mas seria ainda pior! Seria uma anarquia! Seria o fim da civilização!

Antes de ser crítico e questionador, o aluno deve ser capaz de entender o que lê. E conhecer as normas básicas de comunicação em sociedade. Questionar sem entender não é ser crítico, é ser ignorante (etimologia do grego, significa sem conhecimento).


Obviamente, toda variante oral deve ser respeitada e o preconceito linguístico combatido. Mas o pensamento crítico só se torna realmente possível a partir de um letramento bem feito, um conhecimento linguístico apurado e um conhecimento de causa (a partir de muitas leituras comparativas, pesquisas científicas e experiências empíricas).

Não se deve ensinar o aluno do ensino fundamental a ser um crítico sem conteúdo, um questionador de tudo, ao contrário, ele deve ser ensinado a abraçar a oportunidade que lhe está sendo ofertada. A educação é o bem mais valioso de que ele pode dispor para ampliar seus horizontes. E se ficarmos apenas nessa de "valorizar o contexto social do aluno" ele não terá a chance de conhecer novos horizontes, novas oportunidades, outras realidades, mas ficará preso apenas a aquela realidade e contexto social que ele já conhece.

Deve-se ensinar o aluno a pensar, a refletir sobre um texto. Mas as reflexões devem ser orientadas e guiadas pelo professor baseando-se em valores humanos universais. O pensamento crítico individual só virá com a idade e a maturidade, mas após um longo percurso de letramento (com gramática tradicional, muita leitura, muita produção de texto, muita correção e revisão). Não na infância, não na adolescência, o pensamento crítico tem seu lugar na vida adulta, cidadã, totalmente responsável por seus atos. E, reitero, após um longo e árduo processo de  letramento (a educação não tem que ser lúdica todo o tempo, ela necessita de trabalho árduo e dedicação do estudante).

Como alguém pode ser crítico se ainda não responde criminalmente por seus atos? Como alguém pode ser crítico se ainda não é emancipado dos pais? Como alguém pode pode ser crítico numa fase biopsicológica em que o mais primordial é a aceitação e inserção em um grupo social, valorizando mais a opinião alheia do que a construção da própria individualidade? Como alguém pode ser crítico quando usa o celular o tempo todo na sala de aula com fones para ouvir música (celular que ganha dos pais e cuja conta é bancada pelos pais)? 

Esse último parágrafo levanta outras questões que vão além da sala de aula.

Um celular com câmera, gravador de voz e acesso à internet e com tudo de ruim que a internet pode oferecer, desde redes sociais até pornografia e violência, é muito poder e responsabilidade na mão de uma criança ou adolescente que ainda desconhece noções mínimas de responsabilidade. Obviamente o celular com jogos violentos e coloridos lhes parece mais atrativo do que a aula chata de gramática normativa, ou exercícios matemáticos ou textos de qualquer disciplina curricular, o que demandaria a eles concentração e trabalho árduo.


Outra questão a ser levantada é a infantilização de crianças e jovens em nossa sociedade. Há um fetiche brasileiro pela infância risonha e irresponsável. Essa corrente luta contra uma infância proveitosa, responsável, estudiosa e séria. No senso comum, a infância é uma época de alegrias e brincadeiras apenas, sem traumas, sem conflitos. Mas isso nunca foi verdade! A infância é a época mais marcante para traumas e sonhos, é a época mais biologicamente eficaz para estimular a criação de uma sociedade cidadã e responsável ou para se criar rebeldes que não se adequam à vida em conjunto. Porém, defender a ideia de que a criança deve ter tarefas, deve ser responsável e séria se tornou uma afronta para alguns "pais e teóricos da educação".

Esses pais e teóricos deveriam pensar o seguinte: "Se não fossem por aqueles pai e mãe presentes, se não fossem por aqueles professores rígidos, se não fossem todas aquelas cobranças, se não fosse o ensino tradicional de conteúdos curriculares, onde eu estaria agora?". Eles devem parar de levar seus traumas infantis para as reuniões de pais ou para seus artigos acadêmicos e pensar no bem que a rigidez, disciplina e cobrança fizeram a eles próprios. Não cobrar é o mesmo que abandonar o aluno ao próprio destino.

Reitero: o ensino pode até ser lúdico algumas vezes, mas jamais pode dispensar a rigidez, o trabalho árduo, a disciplina comportamental e a cobrança. Os conteúdos curriculares básicos e fundamentais nem sempre são atraentes, mas não são dispensáveis. A tabuada, a conjugação de verbos, a linha do tempo de fatos históricos, a memorização de mapas, entre outros, são conteúdos que os alunos devem ter na ponta da língua antes de se pensar em ensinar a eles o "pensamento crítico".

E o cuidado com a língua nunca é demais. Se isso não for levado a sério, daqui a pouco teremos professores de Língua Portuguesa escrevendo "intendi" (entendi), "fraze" (frase) etc; como já vi por aí.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Discurso, macacos e literatura

O signo linguístico é ideológico. Ele nasce a partir de um contexto temporal (histórico), espacial (geográfico), social, político, econômico e cultural. Também a comunicação é ideológica, porque, da mesma forma, nasce a partir de um lugar, uma história, um contexto, logo, é discurso.

Para entender melhor o conceito de ideologia, leia aqui a publicação de 30 de julho de 2015.

Visando a explicar didaticamente o conceito de discurso, proponho um exemplo imagético.  Numa árvore repleta de macacos, cada qual vivendo fixamente sobre um galho, cada macaco aponta e expressa ideias sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore. O galho representa o contexto histórico-geográfico-político-econômico-cultural diferenciado a que cada macaco pertence. O galho, portanto, determina a estrutura moral, cultural e emocional do macaco. A ideia que cada um faz sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore é o discurso. A árvore é a superestrutura histórico-geográfica na qual os macacos estão inseridos e por ela são determinados e condicionados. O conjunto de ideias expressadas é a superestrutura ideológica: moral-política-religiosa-cultural. Este conjunto de ideias (a ideologia) rege a consciência daqueles seres, ou seja, a forma de pensar sobre si e sobre o mundo e de se expressar, porém, limitados pelo paradigma da superestrutura: a árvore em que habitam.

A filosofia de Sócrates, o materialismo histórico dialético e a psicanálise contribuem respectivamente para que cada macaco perceba: 1- a própria ignorância sobre a árvore como um todo e a insustentabilidade de seus argumentos ao analisar o galho alheio do ponto de vista de seu próprio galho; 2- a necessidade de pensar criticamente para além da árvore, entendendo como ela determina e condiciona o discurso e o modo de viver; 3- a fragilidade de seu próprio galho, o qual enganosamente o macaco considera ser rígido o suficiente para sustenta-lo para sempre (neste caso, o galho representando a relação entre o sistema de valores morais e as emoções do primata).

Porém, mesmo com todas as filosofias, as teorias críticas, as ciências, a psicanálise e as psicologias, o macaco não pode enxergar muito além de seu próprio galho, tampouco contemplar toda a árvore do galho em que ele está desde quando nasceu, onde ele mora hoje e lá um dia morrerá. Ainda que o macaco seja muito crítico, ele não pode erguer o próprio galho onde ele se senta, o qual sustenta seu corpo, muito menos erguer ou derrubar a árvore sem descer de seu galho. O contexto pré-determinado de seu nascimento (o galho) e a superestrutura (a árvore) são uma conditio sine qua non da existência do macaco (considerando que todo o seu mundo é uma árvore e seu galho é uma parte desse mundo). Portanto, a visão desses macacos imagéticos é ad infinitum ideológica e o que eles expressam é discurso.

Além disso, a consciência deles está reduzida a uma visão parcial sobre o todo. Esta lacuna é necessariamente preenchida pela especulação, religião e expressões artísticas.

O signo linguístico é ideológico. Mas a língua na literatura não é mais um discurso ou “o Discurso” sobre moral, estética, sociedade, amor etc. Este papel de insucesso cabe às ciências, filosofias etc. A literatura, como todo o resto, também é ideológica, mas o seu papel não é (ou não pode ser) o de criar discursos, mas sim, apenas ser, existir, mostrar-se, estar o quanto tiver de estar, ser infinita enquanto dure e assumir sua efemeridade por ser apenas expressão fiel de emoções momentâneas (e comuns a todos, por isso eternas), sem a intenção de ser uma verdade ou a Verdade, o que a colocaria como mero discurso, mas, ao contrário, sendo assumidamente uma ficção sobre tudo – o ser, a sociedade e o mundo –, tendo como ferramenta de trabalho todas as ciências, filosofias e religiões. A literatura, pelo menos enquanto catarse poética e solitária, assume para si o papel de ser uma ironia do discurso, não sendo mais um discurso ou antidiscurso, mas apenas uma ironia que não pretende mais do que ornar sua própria ironia, como uma macaca que se enfeita sem se interessar por nenhum macaco.

A função das ciências é muito objetiva: a manutenção da vida. A função das artes, religiões, filosofias e teorias da psique é dar um sentido a tudo, nem que seja pelo discurso, ou ao menos entreter e desmemoriar os primatas superiores de sua angústia existencial.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Etnocentrismo versus Relativismo cultural


Etnocentrismo

Relativismo cultural
Preconceitos (pré-julgamentos)

Sem juízo de valor
Imposição da subjetividade
(impõe crenças e gostos pessoais)

Busca pela objetividade
(tenta ser imparcial)
Dicotomia:
 civilização x bárbaros (primitivos)

Não há dicotomia
(há empatia pela cultura do outro)
Pseudocientífico
(pesquisa contaminada pela visão parcial)

Científico e filosófico
(pesquisa factual, verificável, demonstrável)
Moralista (senso-comum)
Ética (filosófica)

Visão dogmática
(impondo dogmas pessoais para julgar o outro)
Visão humanista
(busca entender, sem julgar os dogmas do outro)

Impõe a “língua padrão”

Aceita a variação linguística

Racismo, extremismo, fanatismo e intolerância.

Empatia

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ciência versus pseudociência


 
Ciência
Pseudociência

Observação

Observação

Hipóteses

Hipóteses

Experimentação
Teoria
▼ (dúvidas, críticas, confrontação)
Experimentação


Não há críticas;
Não há confrontação.



Lei (pode ser questionada)


Lei



Ciência

Pseudociência

Testa e confronta a teoria frequentemente;

Testa a teoria já se sabendo de antemão o resultado;

Busca fatos e exemplos que confrontem a teoria;

Recusa fatos e exemplos que confrontam a lei;

Utiliza a experiência para confrontar a teoria;

Adapta a experiência para confirmar a própria teoria;

Retira da experiência exemplos factuais (verificáveis).
Adapta os exemplos para confirmar a própria teoria/lei.


Exemplo:


















Epistemologia:
  

sábado, 23 de julho de 2011

Frase para refletir (e refletir muito)

“The person who will not read has no advantage over the person who cannot read”.
— Mark Twain

“A pessoa que não lê não tem vantagem sobre a pessoa que não sabe ler”.



livro em branco


 Para o analfabeto, o texto de um livro é um código indecifrável, ou seja, as palavras escritas não existem para o analfabeto. É como se o livro estivesse em branco.

Mas quem sabe ler e não lê, vive como se o livro estivesse sempre fechado, ou seja, as palavras escritas também não existem para essa pessoa, logo, o mundo dela não é muito diferente daquele do livro em branco.