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terça-feira, 30 de março de 2021

Desafios da alfabetização e letramento hoje

O principal desafio no processo de consolidação da alfabetização e letramento hoje é, provavelmente, a falta do hábito de leitura. Essa prática deveria vir de casa e fortalecida na escola, mas a sociedade, ao que parece, está cada vez mais longe desse ideal, apesar de todas as facilidades de acesso à leitura que existem atualmente. 

A leitura de jornais, por exemplo, sejam em formato impresso ou digital, é uma prática saudável e desejável. Porém, isso está apagado no cotidiano de muitas pessoas. E o consumo de revistas também. 

E o que dizer do amor pela literatura? Este se restringe a um público muito pequeno no Brasil. 

As crianças imitam os hábitos dos pais e os jovens são reflexos da sociedade. Em uma sociedade que pouco ou quase nada lê, jamais teremos o ideal de alfabetização e letramento. 

As habilidades e competências linguísticas necessárias para o pleno desenvolvimento cognitivo e formação cidadã só são alcançadas em longo prazo, por meio de muita prática de leitura e escrita. Do mesmo modo que só se aprende um idioma estrangeiro conversando e só se aprende um instrumento musical tocando, a alfabetização e o letramento requerem leitura e redação. Ninguém aprende inglês, violão, piano, interpretação de texto e redação apenas frequentando aulas. A prática em casa, o estudo solitário, os exercícios diários e a repetição se fazem primordiais em qualquer aprendizado. Aprender qualquer coisa leva tempo. Requer prática, paciência, dedicação e disciplina. 

Portanto, é preciso gostar, para querer aprender e, consequentemente, se dedicar de coração. Isso é o que falta nos dias de hoje, não só nos alunos, mas em grande parte da sociedade. Esse é o principal desafio docente. Ou seja, transformar toda uma cultura nacional de apatia e desinteresse em uma cultura de autêntica paixão pelo estudo e pela leitura.

Contudo, esse desafio é grande demais para os professores. A escola sozinha não é capaz de transformar a cultura de um povo sem o apoio de pais de alunos, meios de comunicação e governos. Para que uma sociedade cada vez mais visual e menos letrada se transforme em uma sociedade que lê, pensa, analisa e se comunica, toda essa sociedade tem que se envolver no processo de educação. 

Renan

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O conceito de ideologia no materialismo histórico



No passado, o termo ideologia poderia ser concebido como sinônimo de falsa consciência. “Napoleão I, por exemplo, chamou de ideólogos pessoas das quais discordava” (Cornforth, 1982, p. 195).  Desde aquela época até hoje, o termo ideologia passou por uma reestruturação.

Por certo, houve deformações, por parte do senso comum, no conceito de Marx sobre ideologia, o que gerou alguns mitos em torno dessa palavra. “A palavra é muitas vezes usada em sentido exclusivamente depreciativo, denotando um sistema de idéias considerado radicalmente enganoso, porque é elaborado não para conceber as coisas como realmente são, mas para representar as coisas segundo a conveniência de uma facção ou de um ou outro interesse” (Cornforth, 1982, p. 195).

A palavra já foi usada se referindo à doutrina de um pensador, ou à teoria que orienta a prática. “Em sentido pejorativo, ideologia é o conjunto de idéias e concepções sem fundamento, mera análise ou discussão oca de idéias abstratas que não correspondem a fatos reais”. (Aranha e Martins, 1986, p 70).  Porém, para abordar o termo de forma objetiva e introdutória, as autoras de Filosofando definiram ideologia como “um conjunto lógico, sistemático e coerente de idéias e valores [representações] e regras [condutas] que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como pensar, o que devem valorizar e como valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, e como agir” (Aranha e Martins, 1986, p 70).

Um dos mitos que cercam o conceito de ideologia é o de achar que ideologia é uma criação de uma classe dominante. “Marx chamou a atenção para as raízes de classe, para o caráter de classe, e para a função das ideologias. Isso por vezes levou os marxistas à simplificação grosseira de dizer que é uma classe que cria uma ideologia e que para uma classe há sempre uma ideologia singular, única e integral dessa classe.” (Cornforth, 1982, p.195).


Em suma:

A ideologia não pode ser entendida como uma criação de uma classe dominante.
A ideologia não pode ser entendida exclusivamente no sentido pejorativo ou depreciativo.

Mais do que isso, ideologia são aquelas crenças e ideias que se manifestam na praxe material. É pela praxe que se identifica a ideologia de um povo. Como disse Marx: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas ao contrário, é o seu ser social que determina a consciência”.


Fontes:

ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena P. Filosofando, introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

CORNFORTH, Maurice. Comunismo e filosofia; dogmas e revisões do marxismo hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tabu versus pensamento livre



Tabu versus mártires ou condicionamento versus transgressão: uma breve análise sobre o pensamento livre.


Sigmund Freud em sua obra Totem e Tabu fez uma importante contribuição à antropologia e à psicologia social. O tabu é um dos códigos morais mais antigos que regem a sociedade, portanto, essa obra é leitura recomendada para quem procura entender a relação entre padrões de comportamento e a organização social. Outra importante obra de Freud no campo social é Psicologia das Massas e a Análise do Eu. De acordo com o pai da psicanálise, a transgressão de um tabu conduz o transgressor à sua expulsão do grupo ou a uma punição imposta pelo grupo do qual o transgressor faz parte. Entre as sociedades primitivas, acreditava-se que deste modo evitar-se-ia que uma maldição recaísse sobre todo o grupo. Esse princípio pode ser observado em todos os grandes primatas que se organizam em bando e constituem hierarquias, como gorilas, chimpanzés, babuínos e os seres humanos. A punição ou expulsão do indivíduo transgressor é o primórdio do moderno Direito Penal.

Tanto Freud quanto o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss demonstram que a organização social em torno de uma Lei teve início em sociedades primitivas a partir da proibição do incesto. Desde então outros tabus surgiram e evoluíram em sua complexidade. Resta saber quanto de nosso instinto primata permanece a nos determinar e se há possibilidade de termos um pensamento livre e original apesar de todo o condicionamento biológico e psíquico que sofremos.

Na Grécia Antiga, o filósofo Sócrates foi condenado à morte, acusado de corromper a juventude ateniense e ser ímpio perante os deuses. Sócrates não escreveu nada, tudo o que sabemos sobre ele vem dos textos escritos por seus discípulos. Nem mesmo há provas de que ele realmente tenha existido. Ainda assim, sua história é um dentre muitos exemplos da punição que recai sobre aquele que transgride um tabu. Mas que tabu Sócrates transgrediu?

Ao questionar todo conhecimento vigente em sua época, Sócrates atraiu a atenção dos jovens e colocou em discussão a autoridade de seus interlocutores, atraindo a ira destes para si. Entre os gorilas, quando o macho-alfa tem sua autoridade questionada, ele expulsa ou mata o seu rival. Analogamente, os acusadores de Sócrates eram homens que tinham muito a perder com aquele filósofo ensinando os jovens a pensar por eles mesmos e a questionar o saber dos mais velhos. Logo, Sócrates foi julgado, preso e executado. Ele não transgrediu necessariamente um tabu moral, mas ensinava seus discípulos a pensar por si só, o que leva, com o tempo, ao questionamento de certas Leis, princípios morais, tabus e dogmas.

Em todas as manifestações artísticas ao longo da história há exemplos de incompreensão, censura e perseguição, tanto para o artista que rompeu paradigmas formais quanto para aquele que, em sua arte, ousou questionar um tabu. O exemplo de Sócrates talvez sirva para entender a história de vários outros mártires, como Gandhi. Considerando todo o condicionamento que historicamente sofremos, talvez não seja exagero dizer que o pensamento livre é uma anomalia da espécie, um desajuste mental que leva um indivíduo a ser criativo e destacar-se da massa. Em pouco tempo esse indivíduo passa a ser visto como subversivo. Seu instinto de autopreservação não funciona como na maioria. Ele desafia a si mesmo e arrisca sua segurança em nome de um ideal que afirma ser maior que ele mesmo. Sócrates dizia ouvir uma voz interior, Gandhi seguia princípios religiosos, outros se tornaram mártires ao defenderem com a vida uma ideologia política. Logo, o pensamento livre é possível, mas, às vezes, cobra um preço muito alto daquele que ousa pensar.


Sócrates entre seus discípulos como no livro Fédon.

Resumo aos estudantes: política, economia e sociedade



1- Formas de governo

Clã: A família é o núcleo de toda e qualquer sociedade. Na tradição, a família é formada por um pai, uma mãe e seus descendentes naturais. Várias famílias reunidas, convivendo juntas, formam um clã.

Tribo: A tribo é formada por vários clãs que juntos fazem suas leis, justiça e se auto-governam. As pessoas dividem as tarefas e em algumas tribos os bens também são comunitários. Elas têm em comum a língua e as crenças religiosas, mas não formam um Estado com poder central. Podem ter um chefe tribal, mas as decisões são tomadas em conjunto com toda a tribo.

Monarquia: As monarquias têm reis, príncipes ou imperadores como os donos do poder e este poder é hereditário. A fonte do poder dos reis é baseada no "direito divino". Na monarquia parlamentarista o rei não detém o poder político, este fica a cargo do Primeiro Ministro. O rei então se torna apenas um símbolo do Estado.

República: Sistema que se opõe à monarquia. Na república não existe monarca, mas existe um Estado com poder centralizado. O poder “emana do povo”. A república pode ser presidencialista (com presidente eleito diretamente pelo povo) ou parlamentarista (com um Primeiro Ministro eleito pelo parlamento que representa o povo).


2- Práticas políticas

Autocracia: Uma pessoa sozinha governa as massas, dita as leis e as muda conforme a sua vontade.

Oligarquia: Um grupo restrito de pessoas governa as massas, dita as leis e as muda conforme a vontade daquele mesmo grupo que detém o poder.

Essas duas práticas (ditatoriais) podem se apresentar com:

a) Autoritarismo: É uma ditadura exercida por uma pessoa (autocracia) ou um grupo (oligarquia). Não conta com o apoio das massas.

b) Totalitarismo: É uma ditadura (autocrática ou oligárquica) na qual há uma ideologia ou um objetivo maior por trás de todo o poder. Geralmente conta com o apoio das massas, sugerindo uma união entre os indivíduos em prol de todos.

Democracia: Os cidadãos fazem as leis, a justiça e governam por eles próprios (democracia direta) ou por meio de seus representantes eleitos (democracia representativa). O ideal de democracia é opor-se à ditadura, mas a democracia também pode ser entendida como “ditadura da maioria” ou “ditadura constitucional” (ditadura das Leis).


3- Ideologias

Ideologias de Direita: São aquelas que tentam manter a ordem social vigente, isto é, manter os privilégios de uma elite (portanto, são ideologias conservadoras). Pregam o liberalismo econômico (livre concorrência) e acreditam na “méritocracia”.

Ideologias de Esquerda: São aquelas que tentam extinguir as diferenças entre classes sociais (portanto, são revolucionárias). Reivindicam a justiça social fundamentada em princípios como a igualdade.


Fascismo/Nazismo: Foram autocracias (ditaduras) totalitárias (com apoio das massas) e nacionalistas. No plano político, se opuseram tanto à monarquia quanto à democracia. No plano econômico, se opuseram tanto ao capitalismo quanto ao comunismo. São consideradas como ideologias de extrema-direita.


4- Sistemas econômicos

a) Relações entre Estados

Mercantilismo: Uma metrópole controla toda a economia de uma ou mais colônias. As colônias não possuem autonomia econômica nem política.

 Imperialismo: As colônias possuem alguma autônima política (uma pequena parcela de poder delegada a um representante regional), porém subordinada a um outro Estado. No plano econômico as colônias não possuem nenhuma autonomia.

O Mercantilismo e o Imperialismo são os “embriões” do capitalismo moderno e do “liberalismo econômico”.


b) Relações entre pessoas (classes sociais)

Feudalismo: O senhor feudal é proprietário de uma terra (meio de produção) onde os servos (sem terra) trabalham para ele. A produção econômica é para a subsistência, o senhor feudal ganha a maior parte enquanto a menor parte é dividida entre os trabalhadores. Não há possibilidade nenhuma de mobilidade social. Se baseia no “direito divino”.

Capitalismo: sistema econômico que se baseia no liberalismo econômico, o qual prega a livre competição entre trabalhadores, o livre comércio de mercadorias sem interferência do Estado e principalmente a propriedade privada. O capitalismo pode ser democrático ou ditatorial. Em qualquer caso, o capitalismo é marcado pela concentração de renda, formando uma “pirâmide social”. A sociedade consequentemente é dividida em classes (da mais rica às mais pobres) e é caracterizada pela contradição entre burguesia (donos dos meios de produção) e proletariado (trabalhadores sem posses). Segue uma lógica semelhante ao Feudalismo, porém, no capitalismo há alguma (pequena) mobilidade social e a relação produção-consumo é estimulada. O capitalismo não se baseia no “direito divino”, mas num direito adquirido, acreditando na “méritocracia”.

Socialismo: É chamado também de “ditadura do proletariado”. Opõe-se à desigualdade social gerada no capitalismo, opondo-se principalmente ao liberalismo econômico e à propriedade privada (de terras e indústrias). O socialismo é um movimento revolucionário (prega a mudança radical) do sistema político-econômico. É uma forma de totalitarismo. A contradição não é mais entre burguesia e proletariado, mas entre Estado e povo. A propriedade passa a ser do Estado e as pessoas trabalham para o Estado.

Comunismo: Seria a última etapa do Socialismo na qual o Estado não mais existiria e as pessoas trabalhariam em cooperativas. É uma tentativa radical de eliminar as contradições políticas e desigualdades sociais de outros sistemas.

Anarquia: Ausência de Estado (ausência de poder centralizado). É o auto-governo do povo (sem representantes). Também é chamado de “socialismo libertário”, contudo, acredita em atingir o comunismo sem passar pela etapa do socialismo.

Social-Democracia: Seria um Estado que combina um capitalismo democrático com políticas sociais típicas do socialismo (educação e saúde para todos independentemente de classe social). Não é revolucionário, mas reformista, isto é, tenta diminuir os impactos negativos do capitalismo sem extingui-lo.


5- Alguns teóricos e obras

Platão – Sintetiza suas ideias gerais na obra “A República”.

Dante Alighieri – Apresenta suas ideias políticas na obra “Da Monarquia”.

Maquiavel – Teoriza sobre o poder na obra “O Príncipe”.

Thomas Hobbes – É um teórico do contrato social. Sua principal obra é “O Leviatã”.

Montesquieu – Sistematizou a divisão dos poderes: executivo, legislativo e judiciário. Uma de suas obras mais importantes é “O Espírito das Leis”.

Adam Smith – Defendeu o liberalismo econômico na obra “A riqueza das Nações”.

Karl Marx – É um teórico do socialismo científico. Fez críticas ao capitalismo em “O Capital” e “O Manifesto do Partido Comunista” e em muitas outras de suas obras.

Bakunin – Foi um anarquista teórico. É uma referência para pensadores atuais como o linguísta Noam Chomsky.

Proudhon – Foi um anarquista teórico. Fez críticas à propriedade privada.

sábado, 18 de maio de 2013

A redução da maioridade penal no Brasil

Tenho observado os jornais, telejornais e programas de TV fazendo campanha implícita (propaganda ideológica) pela redução da maioridade penal. Como de costume, a mídia se apega a um tema menor e explora-o de maneira irresponsável. Antes de discutir essa proposta, ela deveria discutir as causas que levam tantos jovens ao crime.

Sei que a violência não se justifica, mas ela pode ser explicada. Eu vejo como as suas principais causas:
1- saúde e condições de vida precárias;
2- falta de oportunidades reais (o que leva à falta de perspectivas);
3- educação prioritariamente mercadológica, voltada para um mercado de trabalho competitivo e excludente;
4- cultura consumista que coisifica o homem e fetichiza os bens de consumo (cultura esta que é alimentada pela própria mídia).

Depois, a mídia não discute as consequências dessa proposta. Tendo em vista o atual sistema carcerário brasileiro (e a nossa Excelentíssima Justiça brasileira), prender um adolescente graduado no crime equivale a oferecer-lhe a bolsa de pós-graduação do crime. Esta ele cumprirá (na prática) em 5 anos (ou menos), depois disso, estará de volta às ruas, não integrado à sociedade, mas exercitando nas ruas táticas que aprendeu e aperfeiçoou na cadeia.

O comportamento humano é influenciado pelo meio. Quando moradia, alimentação, saúde e lazer são privilégios (e não direitos), o instinto de autopreservação faz a vida se tornar uma luta (violenta) pela sobrevivência. Qualquer um (até você) vivendo em condições precárias é um criminoso em potencial. Logo, se você realmente se preocupa com a violência, deveria antes se preocupar em como promover justiça social.

Não espere que os políticos façam isso por nós. A prioridade da política (e da polícia) não é zelar pelo bem coletivo, mas pelo bem privado. Nesse sistema de valores invertidos, a Justiça cumpre seu papel torpe criando novos presos políticos, isto é, vítimas da política brasileira. São eles os historicamente excluídos, pessoas cujas vidas foram banalizadas pelo sistema. Por isso, também não defendo a pena capital, eles seriam suas únicas vítimas.

Sou a favor da redução da maioridade penal, mas antes, sou a favor de uma sociedade que não precise chegar a tal extremismo. De que adianta tratar das consequências se não tratarmos também das causas? Se nossa sociedade educa as crianças para se transformarem em criminosos, esta sociedade está doente (a apatia e intolerância da sociedade atual já denotam uma sociopatia coletiva). Nessa conjuntura, com cadeias superlotadas e criminosos sendo fabricados a cada dia, a redução da maioridade penal seria inútil, isto é, não funcionaria nem como um paliativo. Prefiro antes defender ações preventivas e, paralelo a isso, um sistema que recupere (resgate) aqueles que se perderam no caminho. Isso se faz criando uma sociedade igualitária e inclusiva, promovendo uma Educação comprometida a ensinar a empatia e o altruísmo como as maiores virtudes humanas (sem essas virtudes, não há nem como se falar em respeito à individualidade).