quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O ato de escrever


“O ato de escrever, antes de tudo é legítimo ato de auto-afirmação.... É rasgar os traços de dependência social e mental. Certamente é um ato de coragem, pois aquelas primeiras palavras parecem nossas; mas as segundas e as seguintes o serão muito mais”. (BERNARDO, p. 38).  

O ato de fazer rascunho, rasgar e refazer é uma tentativa de se libertar da nossa personalidade mais superficial, das ideologias mais cristalizadas em nossa mente, para dar asas a um novo pensamento. 

O processo dialético (escrever, apagar e reescrever) nos conduz à idéia de exposição sincera de nós mesmos. Por isso é um ato de coragem. E a coragem implica no enfrentamento de nossos medos, fobias e tudo aquilo que nos causa aversão. Esta lição serve para o ato de escrever, mas também para toda a vida.

Citação:
BERNARDO, Gustavo. Redação Inquieta. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2000.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Emancipação



O governo não tem poder maior do que o povo que o elegeu. Mas acima de todos, estão as grandes corporações, estas sim têm poder e governam os nossos políticos. O povo vive de joelhos e não se levanta por medo, mas ele não tem nada a perder, só terá que aprender a andar sobre os próprios pés.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Intertextualidade em “Iracema” de José de Alencar


Iracema - tela de José Maria de Medeiros



Paralelo entre Iracema e a história da colonização do Continente Americano 

Iracema é uma índia virgem, cujo nome é um anagrama para "america" (América). Martim é o homem branco com quem Iracema tem sua primeira relação sexual. Esse episódio representa o desbravamento da floresta tropical, da mata atlântica, da natureza ainda "virgem" do Continente Americano. 



Paralelo entre Iracema e a Bíblia (história de Raquel e Jacó) 

Raquel, personagem do Antigo Testamento, deu à luz um menino e chamou-o pelo nome de Ben'onî – que em língua hebraica significa "filho da dor".

Iracema, personagem de Alencar, deu à luz um menino e chamou-o pelo nome de Moacir – que em língua tupi significa "filho da dor".

Por que "filho da dor"? Porque nas duas histórias, a mãe morre pouco depois de dar à luz. Raquel morre no parto, Iracema morre após entregar o seu filho a Martim.

Obs: Mais tarde, o nome Ben'onî (ou Benoni) foi mudado para Benjamin.

A intertextualidade (aproximação) entre Moacir e Benjamin pode ser interpretada como sendo uma tentativa de Alencar de atribuir aos brasileiros a qualidade de “povo escolhido”, assim como os judeus, fazendo-os ambos pertencer a uma mesma casta.



Paralelo entre Iracema e o mito de fundação de Roma

Segundo o mito da fundação de Roma, Rômulo e Remo foram amamentados por uma loba.

No livro Iracema, a índia amamenta seu filho com dificuldade. A amamentação só se torna possível depois que a índia faz com que uma loba sugue o seu seio.

Matim, pai de Moacir, é um guerreiro branco e representa a cultura europeia. O seu nome significa "guerreiro" – derivado do latim – e remete ao deus romano Marte, deus da guerra.

Em resumo, Alencar criou em Iracema uma lenda sobre a origem do Brasil, cujo povo se inicia a partir da miscigenação do índio com o branco. A intertextualidade entre Moacir (em Iracema) e o mito da fundação de Roma é uma tentativa de Alencar de atribuir uma origem lendária (heróica) ao povo brasileiro.

Sendo assim, o romance de Alencar tem características épicas, apesar de ser escrito em prosa.

Cinema com tema: globalização e mercado de trabalho


Quatro ótimos filmes que refletem sobre os problemas do mundo atual.


Casamento à indiana (Monsoon Wedding, 2001)
Mostra a contradição entre as tradições da Índia e o mundo globalizado. Como essas tradições podem resistir aos novos tempos? Um filme sobre valores familiares, como o amor e o perdão, contrapondo-se ao dinheiro e ao avanço do capitalismo.



Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind vorbei, 2004)
No mundo pós-moderno, sem heróis e sem bandeiras, jovens tentam recuperar o espírito revolucionário de épocas passadas, porém, a moral deles não lhes permite cometer as atrocidades daqueles revolucionários mortos. A criatividade é a única arma de que eles querem dispor para mandar sua mensagem, porém, os riscos parecem ser os mesmos. O argumento do filme é uma metáfora sobre a dívida de países pobres com países ricos, dívida esta que permite os ricos exercerem uma economia plena, baseada na exploração do mais fraco.



O que você faria? (El Método, 2005)
Baseado na peça teatral “El Método Grönholm”. A narrativa apresenta-nos um processo seletivo cruel para uma vaga de emprego. Os candidatos submetem-se à humilhação, em provas que beiram o ataque pessoal e a disputa por um emprego. Uma alegoria sobre o mercado de trabalho globalizado.



O Corte (Le Couperet, 2005)
O filme traz muitas reflexões sobre a loucura do mercado de trabalho do mundo contemporâneo. O desemprego leva um pai de família ao desespero e à beira da insanidade. Para resgatar sua antiga vida ele é capaz de tudo, mas será que seus fins justificam os meios?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Jim Morrison - poeta do rock

Ontem, dia 3 de julho, foi aniversário da morte de Jim Morrison, poeta e vocalista da banda The Doors.  Por isso publico aqui novamente um trecho do que escrevi no dia 3 de setembro de 2011, na postagem “Alteregos” sobre o poeta do rock.

O tecladista Ray Manzarek (do grupo The Doors) afirmou que Jim Morrison teria desenvolvido duas personalidades:

Jim – poeta criativo, amigo, divertido, contagiante, inteligente.
Jimbo – alcoólatra, sarcástico, autoconfiante, agitador das multidões.

Na adolescência, Morrison recebeu uma correspondência escolar que o descrevia como sendo um jovem tímido e centrado em si mesmo.

Ele fez testes de QI na escola e obteve a pontuação de 149. Na classificação proposta por Lewis Terman, o QI acima de 140 denota genialidade. Na classificação, originalmente proposta por Davis Wechsler, o QI acima de 127 denota superdotação.

Esse garoto, leitor de Nietzsche e Rimbaud, quando começou a se apresentar era tão inseguro que não conseguia encarar a platéia de frente, preferindo cantar com os olhos fixos na banda e de costas para o público. Ele nunca teve treinamento vocal.

Mas Jim passou por uma metamorfose. Incorporando um índio num ritual xamanístico, ou drogando-se cada vez mais, fato é que Jim foi aos poucos se tornando Jimbo.

O cantor referiu a si mesmo na música L.A. Woman como Mr. Mojo (na língua inglesa, mojo é uma gíria para libido ou charme). Morrison repetia insistentemente os versos: “Mr. Mojo risin” que numa tradução livre seria algo como “O Sr. Garanhão está ressurgindo”. Repare que esse verso é um anagrama perfeito do nome “Jim Morrison”.

Ray Manzarek, que era adepto da meditação, disse ter visto a energia psíquica de Jim deixar o seu corpo. Isso aconteceu na última apresentação da banda ao vivo.

Jim Morrison, autor de livros de poesia e vocalista dos Doors, morreu em Paris, com 27 anos de idade. Pouco antes dele foram Jimi Hendix e Janis Joplin, também aos 27.

The Doors:
Robby Krieger – guitarrista com formação de música flamenca.
John Densmore – baterista de jazz.
Jim Morrison – poeta e amigo de Ray na faculdade de cinema.
Ray Manzarek – tecladista e pianista com formação clássica.

 
Jim e a sua face oculta (Jimbo).
















O poeta também chamado de "Lizard King".




















Jim Morrison: 1943 a 1971




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Beatles e a contracultura (fotos)

Em comum, todos questionam os valores da sociedade burguesa.

Beatnik (final da década de 1950. )
Expressão na literatura, música e artes visuais.



















Influenciados pelos beatniks

























Hippie (de 1967 até a metade da década de 1970. )
Orientalismo, meditação, autoconhecimento, liberdade sexual, paz e amor.



















The Beatles: heróis da geração hippie.




















Punk (final da década de 1970. )
Um novo conceito de anarquia: antiformal, antifilosófico, anti-acadêmico... 
Apenas anárquico.

Ramones: influenciados pelos Beatles e o som da déc. de 1950.








 





Grunge (início da década de 1990.)
A denúncia de uma geração sem heróis a serem seguidos, sem valores a serem defendidos, uma guerra interna contra o sentimento de se sentir sozinho em meio a uma multidão.  



Geração embalada pelo Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains...
















  












Influenciados pelos Beatles e os punks















Beatles: influenciando gerações

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Linguagem poética, comunicação e magia

Atente para este fato: a linguagem literária cria metáforas e outras figuras de pensamento que determinam novas maneiras de ver e perceber o mundo a nossa volta. Ora, não posso imaginar uma linguagem mais técnica e ao mesmo tempo mais emotiva do que essa, em especial, a poesia.

A linguagem poética parece ser, dentre as formas de expressão verbal, a que mais exige da nossa capacidade de interpretação. Talvez seja o mais alto grau de técnica aliada a sentimento. Até o pensamento mais subjetivo pode ser entendido quando expressado poeticamente. Até o sentimento mais incomunicável pode se tornar em verbo no fazer poético.

A subjetividade poética extrapola a suposta objetividade da filosofia e da ciência. Isso porque a linguagem objetiva não dá conta de exprimir toda a paixão humana, todo o desejo, todo o medo, toda a raiva, toda a tristeza e toda a alegria. A linguagem poética é o dom que torna a comunicação de sentimentos possível.

Não se pode falar em comunicação sem falar em poesia. Hoje chega a ser difícil dizer quem veio primeiro: o sentimento humano ou a poesia. Será que seríamos capazes de sentir emoções complexas sem uma linguagem poética que desse conta de traduzir isso para o pensamento? Certamente não seríamos capazes de expressar algo assim sem a “Pena” ou a “Lira”. Estas já habitavam o coração, a alma e o cérebro dos nossos antepassados mesmo antes de terem sido inventadas concretamente. Sem essas ferramentas interiores, eles não teriam inventado nada, sequer uma língua!

A palavra só ganha significado quando é referente a um pensamento e a um sentimento. Porém, o pensamento abstrato só pode ser visível para a imaginação depois de se transformar em um neologismo ou em uma alegoria. O sentimento, antes incomunicável, se transforma em metáfora e esta se torna uma visão de mundo. Este é o berço da realidade como a percebemos.

Contudo, além da linguagem, há algo de mágico que acontece em toda tentativa de comunicação. Não é possível haver entendimento entre duas pessoas, ou compreensão do texto pelo leitor, se não houver uma conexão mágica entre as duas pontas do processo de comunicação. E esta conexão vai além de qualquer linguagem, mensagem e canal. Mesmo a poesia mais bem trabalhada não pode ser entendida por alguém que não se conecte ao fio mágico que passa por trás da linguagem. Um exemplo: este texto é um monte de afirmações inúteis e não passa de baboseiras para aqueles que não são apaixonados por poesia. Eles não entenderão a minha tentativa de comunicação (e a comunicação é sempre uma tentativa).

Acho que a magia a que me refiro pode ser definida por substantivos como amor e empatia e verbos como cativar. Logo, tais sentimentos deviam existir antes de haver uma linguagem poética, mas, paradoxalmente, não existiam.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Aberrações da mídia opinando sobre Educação e Língua Portuguesa

Assista ao vídeo com muita atenção:





 Após assistir ao vídeo, observe estes detalhes.

1 - O livro didático aprovado pelo MEC (do qual eles falam na matéria jornalística) ensina a gramática tradicional, normativa, com todas as regras e exceções que estudamos no segundo grau. Apenas em um pequeno trecho de um capítulo, o livro menciona a variação linguística. Mas os jornalistas falam do livro como se ele ensinasse a "língua errada" em todos os capítulos.


2 - Os argumentos do jornalista Alexandre Garcia manipulam a realidade dos fatos.

Fato: as aprovações "automáticas" em escolas públicas não acontecem para "evitar o constrangimento do aluno". A verdade é que o número de vagas é limitado. Todos os anos é preciso criar vagas para novos alunos. Como as escolas não têm vagas, elas aprovam todos os que lá estudam, logo, alguns deles subirão de série e outros se formarão e sairão da escola. Assim são criadas as vagas para os novos estudantes que chegarão. Este é o real problema, mas Alexandre Garcia não enxerga isso, e pior, ele culpa a qualidade de ensino.

Os exemplos citados por Alexandre Garcia (Coreia do Sul e China) realmente ilustram uma alta qualidade de educação. Porém, falar em variação linguística na escola não diminui em nada a qualidade da educação, pelo contrário. O jornalista é tão leigo no assunto, que desconhece o fato de que a variação linguística já é estudada em todo o mundo há décadas. Isso começou nos EUA, na década de 1960. Não duvide que a variação linguística também é estudada na Coreia, China, Japão, Reino Unido, Noruega etc.

O jornalista desconhece o significado do termo "preconceito linguístico", mas fala como se conhecesse. Alexandre ignora que a linguagem usada por ele não é o "padrão" que ele mesmo defende. Ele condena tanto o "erro" e não nota os próprios "erros" que costuma cometer em vários de seus comentários.


3 - O "especialista" convidado para a entrevista, o professor Sérgio Nogueira, não é especialista em Linguística. Pelo contrário, ele é um professor tradicionalista e muito conhecido entre os acadêmicos por combater a Linguística Moderna. Como professor, ele deveria se atualizar das pesquisas recentes e valorizar a opinião de acadêmicos (pesquisadores e cientistas da língua) ao invés de ignorá-los e até criticá-los.

Nogueira começa dizendo que Alexandre Garcia “foi brilhante em sua fala” e depois até manda um “abraço para ele”.

Contudo, mesmo sendo tradicionalista, às vezes, Nogueira tem algumas opiniões positivas sobre a variação linguística (ou seja, ele não é tão radical). Mas repare que quando ele começa a defender a variação linguística dizendo "as variações linguísticas são valorizadas, até aí tudo bem" e "ensinar os alunos a não serem preconceituosos é função de todo professor" a jornalista o interrompe. Ou seja, a fala do "especialista convidado" já não atende aos interesses, já não serve para o jornal.


4- A jornalista ao interromper o professor diz "gostaríamos de mostrar às pessoas que estão em casa o que está nesse livro aprovado pelo MEC". Isto é uma tentativa de persuadir (emocionalmente) a opinião do telespectador, fazendo-o concordar com a opinião do jornal, ou seja, a opinião de que o livro ensina “português errado e isto é um absurdo”.

Quem conhece o livro nota imediatamente que o exemplo mostrado no jornal está totalmente fora de contexto. Eles suprimiram várias partes importantes, fazendo o telespectador crer que o livro é aquilo mesmo. Note que o livro real NÃO é mostrado, o que é mostrado é uma imagem manipulada, feita em computador.

O professor cita de forma elogiosa o Soletrando (quadro do programa de Luciano Huck, na Rede Globo). No final o professor também elogia a linguagem da Rede Globo classificando-a como "linguagem padrão". Fazendo isso, ele supervaloriza a linguagem do Sudeste (especialmente RJ e SP) e desqualifica todas as outras linguagens do Brasil.

Ora, um professor que elogia tanto assim a Rede Globo, obviamente seria o convidado perfeito. Ele não foi convidado para estar ali por acaso. Sérgio Nogueira é consultor da emissora carioca. Ou seja, ele é pago pela Rede Globo, logo, seu ponto de vista não é nada imparcial.

Um doutor em Linguística (que recebe seu salário de uma Universidade Federal) nunca estaria naquela cadeira como convidado. Este sim, poderia emitir uma opinião bem embasada e imparcial, sem comprometimento com a emissora.

Especialistas de verdade são os acadêmicos (pesquisadores e cientistas) e não consultores de jornais.


Abaixo, envio links para textos de Marcos Bagno (Doutor em Filologia e Língua Portuguesa, Linguísta, tradutor, escritor e professor da Universidade de Brasília).

Besteirol midiático:
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=926


Carta para a revista Veja:
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=39


Nada na língua é por acaso:

http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=37