terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Dueto



Homem:
Diz pra mim
O que a faz feliz
E o que a faz sofrer
Será mais fácil assim
Serei seu aprendiz
E sempre viverei
Em paz

Mas
Não posso prometer
Nunca, jamais errar.
Mulher:
Diz você
Tenta adivinhar
O que o seu amor
Pode oferecer
Pra me fazer sonhar
Qual é o sabor
Das suas palavras

Nossa vida é
Cheia de dúvidas
Homem:
Dica me
Cos’è la felicità
Che tu tanto tanto vuoi
Cos’è questa libertà
Che ci separa di noi
Ti lascerò da sola

Ma
Solo dica me
Questo troppo piano.
Mulher:
Parli tu
Provi da pensare
Fermi le domande
Fermi da aspetare
Che ci sono tante tante
Cose da vivere

Nostra vita è
Piena di dubbio.


Renan, 2008.
Ritmo: bossa nova

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Minha Língua




Minha língua tem papilas
Que sentem o paladar
As palavras que aqui se adoçam
São salgadas no além-mar.

Mas não são ácidas
As palavras,
Nem amargas.
São salgadas
Como lágrimas.

Minha língua é romântica,
De um romantismo histórico,
De uma beleza tônica,
De um triste ritmo.

Que de uma paixão mórbida
Pedro deu ao povo
Uma póstuma rainha.
Linda Inês
De alegre nada tinha.
E a plebe fica mais dramática
Na trágica constatação
Ao saber que ela descansa
À direita, e não à esquerda,
(onde fica o coração).

E ela guarda a esperança
De rever o amado,
E daí nasceu o fado,
Que é um gostar de
chorar,
(Mas não de verdade)
E gostar da dor remoer
Mas só aquela que desatina
sem doer.

E no tempo de Camões
Quando começaram as navegações
O fado embalou a saudade
Das damas na praia a esperar
Que seu amado
Regressasse do mar.

E pediam a Fátima, em segredo,
E faziam juras de amor
(com medo)
E só preto iriam pôr
E nenhum outro vestido
De nenhuma outra cor.
Só o preto existirá
Enquanto o amado não voltar.

E a moça, de luto,
Espera no porto
Sem saber se vinha,
Espera na praia
Sem saber se morto
Ou se vivo estaria

Ah, por que tudo é tão triste?

Cá, o samba chora no cavaco
O índio chora no mato,
O mulato no baião
A triste seca do sertão.

O sertanejo na viola
A saudade da terra chora
E a bossa do Rio,
Cheia de tristeza,
Chora pela moça que passou
E foi embora.

E por essas e outras
Qualquer Pessoa diria
Seja em Lisboa ou em Brasília
Que pátria verdadeira
(Lusitana, africana ou brasileira)
É a beleza
Da nossa língua portuguesa.

Renan, 2008

Platonicamente



Ficava pensando nela, docemente.
Peguei afeição por ela, inocentemente.
Amava-a sozinho, incondicionalmente.

Mas quis o destino confundir minha mente?

Achei meu coração amando loucamente,
Perdi meu chão na hora, completamente,
Incapaz de conter as emoções racionalmente.

Mas tenho que agir naturalmente,
Reaver minha rotina, lentamente,
Aceitando o destino, inconformadamente.

Mas será, Destino, assim comigo eternamente?

Conforme só me é concedido amar platonicamente,
O que resta é desejá-la toda a felicidade
Unicamente.

Renan, 1997

Do amor



O amor é um Deus que habita no Homem;
É um materno toque no cuidar;
É um pai que ajuda a levantar;
É a saudade do hoje e de ontem;

É bem querer a outrem como a si;
É divino se dar ao perdoar;
É o ser livre no ato de servir;
É impor disciplina ao educar;

É dar tempo, mas nunca ser ausente;
É a única forma de conhecer;
É cativar sem ter que dar presente;

É ajuda que se dá sem receber;
É ser um mestre em ver os próprios erros;
É praticar esse Deus no viver.


Renan, 2008
(inspirado por Camões)

Sem título (sugira um)



Aplicar justiça à tua beleza
Entre rimas perfeitas procurei,
Mas algo de equiparada nobreza
Nelas todas eu nada encontrei.

Em rimas pobres eu pensei somente,
Mas, de grande esplendor e de riqueza,
A tua fé, toda ela feita seja,
Fez surgir uma rima diferente.

Agora como devo terminar
Sem que eu seja um simples inconsequente
Pondo fim ao que nem sei começar?

Neste breve adeus nos desejarei
O alívio que só Deus pode dar:
Alternadas vezes a ti verei.


Renan, 12 de março de 2008.


Sonho Dantesco



Dentro do ônibus
Onde gente se amontoa como gado,
Um de raiva delira, outro enlouquece.
Um homem prega sua loucura,
Outro vende balas e batatinhas.
Tal como um sonho dantesco
Maldições e preces ressoam!

Todos presos nos elos de uma só cadeia –
Homens negros, brancos, pardos...
Uns pulam a roleta.
Mulheres suspendendo magras crianças,
Moças novas trazendo-as no ventre.

E ri-se a orquestra irônica:
Meu Deus, meu Deus,
Como cabe tanta gente!

Renan, 2014.
(com referências à "Tragédia no Mar" de Castro Alves)

domingo, 18 de janeiro de 2015

A escopofilia literária



A cena literária voyeurística por excelência é aquela descrita por Heródoto [...] na qual a rainha é observada pelo favorito do rei que por sua vez espia o favorito que espia a rainha. Com isso nos deparamos com uma situação voyeurística ao cubo [...].
O voyerismo, ou se preferirem, a escopofilia, é um componente importante da literatura e da narrativa, como, ainda de modo mais óbvio, no cinema e na fotografia. Deste modo o artista não se faz somente espectador de algo em segredo, íntimo, escondido, proibido, mas também, em certo sentido, cúmplice de um processo de conhecimento que podemos definir como subversivo. O projeto consiste em exprimir aquilo que a sociedade normalmente reprime, assumindo na área da representação aquilo que por hipocrisia, medo ou ignorância sempre é excluído e que constitui uma parte imensa da vida real, isto é: o sexo na sua extrema e indefesa nudez, no seu momento existencial, carnal, corporal, como mostra claramente o poema de Mallarmé “Une négresse par le démon secouée”.

(Tinto Brass, Vincenzo Maria, 1994, in “L’uomo che guarda”, tradução nossa).



O romance de Vladimir Nabokov adaptado para o cinema por Stanley Kubrick mostra que às vezes a escopofilia pode não se bastar em si, mas ser o primeiro ato de um drama mais profundo.

“Rear Window” de Alfred Hitchcock manifesta uma escopofilia que não está necessariamente conectada à libido, aparentemente contradizendo Freud, mas não necessariamente.

Em suma, a ação de espreitar pela janela, fechadura ou câmeras ocultas apenas divergem no grau de subversão do espectador, mas em nada diferem do ato de assistir a um filme, ouvir um rumor, ler, ver ou ainda tentar, mesmo que na imaginação mais íntima, acessar um tabu interditado. O grau de subversão é determinado pelo nível de comprometimento do espectador com a moral que lhe fora ensinada e internalizada, ou imposta. Ainda assim, esse empenho é desafiado e algumas vezes destronado, mesmo que temporariamente, pela veleidade ou simples anseio, isto é, a curiosidade comum a mamíferos e mais ainda aos primatas. Todavia, o gênero homo é o único que sofre por isso.

Daí vem a importância literária e filosófica do tema, não apenas por ser um traço comportamental da espécie, mas por trazer à discussão questões existenciais que podem ser relevantes para o estudo das artes e da psiquê.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A flor-de-lis

A flor-de-lis é uma figura heráldica muito antiga. Seu desenho foi provavelmente inspirado no lírio ou na flor da íris. Há também uma flor popularmente chamada de flor-de-lis, esta orna a capa do Interlúdico.

Lírio











Dada a sua origem remota, os significados e formatos da flor-de-lis como símbolo são diversos. Seria exaustivo (talvez impossível) citar e comentar todos, mas eis alguns interessantes:

- Símbolo de pureza por semelhança à flor de lótus (uma flor bonita que emerge do lodo, daí sua associação à pureza e superação). Por este motivo e também por sua procedência oriental a flor de lótus representa o Buda (o iluminado) meditando na posição conhecida como "posição de lótus" (sentado com as pernas cruzadas).













- A flor-de-lis pode aparecer ligada à alquimia, ao Cristianismo, a ordens religiosas ou de cavalaria, irmandades e fraternidades, sociedades e associações diversas e outros tipos de tradições.

- É símbolo da união mundial dos escoteiros cujo lema é "sempre alerta".

- O Lírio de Florença (Giglio di Firenze) é há séculos o símbolo da cidade italiana que foi o berço do Renascimento.

Giglio di Firenze













- Está presente em vários brasões de armas, escudos e bandeiras pelo mundo;
- Símbolo associado à França em vários períodos de sua história;
- Aparece na bandeira de Quebec (província canadense cuja língua oficial é o francês);

Bandeira de Quebec












- O formato da flor-de-lis lembra a letra grega psi (Ψ), consequentemente, pode representar a alma humana (Psiquê em grego).


- Várias universidades adotam a flor-de-lis e a coruja como símbolos da graduação em Letras. 

No link abaixo há uma postagem na qual faço uma análise semiótica sobre a flor-de-lis como símbolo do curso de Letras:
http://interludico.blogspot.com.br/2014/11/a-flor-de-lis-como-simbolo-do-curso-de.html