quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ritmos e gêneros musicais



Música é arte, arte é cultura (essência humana) e quanto mais cultura, melhor. A vida é curta demais para passar toda ela ouvindo apenas um tipo de música. Esta é a razão do conteúdo a seguir que trata brevemente de alguns gêneros musicais.


Música caipira
Gênero brasileiro, também conhecido como sertanejo de raiz ou moda de viola, incluindo também um subgênero, o pagode de viola. A temática é variada, mas sempre parte da percepção do homem do campo sobre si mesmo e sobre o mundo, sua realidade, seus conflitos e os conflitos que lhe são impostos pelas pessoas de fora do campo (das cidades). Muitas das canções valorizam a riqueza da terra, do país e a sabedoria popular abrigada na cultura desse homem bucólico.
Exemplos:
Tonico & Tinoco - Chico Mineiro
Tião Carreiro & Pardinho - O Mineiro e o Italiano
Pena Branca & Xavantinho - Cio da Terra
Renato Teixeira - Romaria
Sérgio Reis - Tocando em Frente


Fado
Nascido e criado em Portugal, este gênero comumente é composto em torno da saudade de um amor perdido. É um lamento apaixonado, um pranto pelo destino (fado). Sendo muito tradicional, sempre é tocado de forma acústica. O mar é uma das imagens mais recorrentes desta lírica, podendo apresentar também símbolos da religiosidade católica.
Exemplos:
Amália Rodrigues - Barco Negro
Dulce Pontes - Canção do Mar
Mariza - Fado em mim
Ana Moura - Fado das Horas Incertas
Cristina Branco - Fados das Sedes


Reggae
Originário da Jamaica, mas hoje difundido por todo o mundo, é um gênero alegre, dançante, caracterizado pela religiosidade, culto à natureza e à unidade de todas as coisas. A religião em questão é a rastafari, crença derivada do judaísmo, mas num contexto cultural africano (etíope). Também canta o amor, prega a paz universal e protesta politicamente contra o racismo e outros tipos de injustiças. Poeticamente, o reggae é revolucionário pelo seu engajamento social.
Exemplos:
Desmond Dekker & The Aces - Israelites
Bob Marley - Is This Love
Steel Pulse - Prodigal Son
SOJA - True Love
Groundation - Here I Am


Rock ballad
Pode ser acústico, semi-acústico ou elétrico. Mesmo quando traz o peso de uma guitarra, ainda assim deixa a agressividade um pouco de lado. O tema quase sempre é o amor, o ritmo quase sempre é lento. Mantém em comum com o heavy metal a complexidade dos arranjos instrumentais e a exigência de um tipo de vocalização que poucos cantores conseguem executar.
Exemplos:
Black Sabbath - Solitude
Led Zeppelin - All of my Love
Aerosmith – I Don’t Want to Miss a Thing
Iron Maiden - Wasting Love
Metallica - Nothing Else Matters


Ritmos cubanos
São vários: el son, mambo, cha cha cha, salsa, bolero, rumba... Assim como o nosso samba brasileiro, a música cubana é dançante, alegre e contagiante, mas também pode ser reflexiva, romântica ou sociopoliticamente engajada.
Exemplos:
Buena Vista Social Club - Amor Verdadero
Buena Vista Social Club - El Cuarto de Tula
Buena Vista Social Club - Candela
Buena vista Social Club - Chan Chan
Buena Vista Social Club - Dos Gardenias
Buena Vista Social Club - El Carretero
Silvio Rodriguez - Playa Giron
Pablo Milanés - Años (el tiempo pasa)


Axé
Também chamada de samba-reggae, é a música afrobrasileira da Bahia. O ritmo é dançante, as temáticas eram a cultura africana, a cultura baiana, o engajamento social, a luta contra o racismo no Brasil e a religiosidade de origem africana e afrobrasileira, seus mitos, lendas e histórias. Costumava ser muito rica poeticamente.
Exemplos:
Banda Mel - Faraó, Divindade do Egito
Banda Reflexus - Canto para o Senegal
Banda Mel - Prefixo de Verão
Banda Reflexus - Madagascar
Cheiro de Amor & Márcia Freire - Canto ao pescador
Margareth Menezes - Elegibô (História de Ifá)
Timbalada - Beija-Flor
Olodum - I Miss Her 


Música indiana
Há vários gêneros na música da Índia, alguns com mais de 2.000 anos.
Hindusthani: música clássica do norte;
Carnatic: música clássica do sul;
Qawwali: gênero do sufi, música ligada ao misticismo muçulmano;
Bhajan: canção de devoção, religiosidade hindu;
Lavani: ritmo tradicional sobre a beleza filosófica ou beleza erótica;
Ghazal: poesia tradicional, forma fixa, também difundida no Islã;
Bollywood: ritmo dançante e alegre dos filmes musicais indianos.
Exemplos:
Aishwarya Rai - Kajra Re
Rani Mukherjee - Main Vari Vari
Ravi Shankar - Prabhujee
Nikhil Banerjee - Raag Chandra Kauns















Na foto acima Anoushka Shankar, musicista talentosa, filha do famoso Ravi Shankar. Este foi um importante amigo e influência musical para George Harrison (dos Beatles). Ravi Shankar tocou em festivais lendários, como o de Woodstock. Ele também é pai da cantora de jazz Norah Jones.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um pouco da história do heavy metal


Os solos de guitarra se tornaram tão comerciais que atualmente qualquer gênero musical pode ter o solo "pesado" de uma guitarra distorcida, como já é comum encontrar no sertanejo e até no gospel. Todavia, esse tipo de som ainda é reconhecido como símbolo do rock e do heavy metal. Isso se deve tanto às inovações musicais e influência que o rock promoveu quanto à evolução de instrumentos, efeitos de gravação em estúdio, pedais e amplificadores.

A "evolução" da guitarra:

Lira, cítara indiana, alaúde, violão e guitarra elétrica.













Um pouco da história do heavy metal

ANTECEDENTES DO ROCK
Muddy Waters (EUA) levou o blues do Mississipi para Chicago e foi um dos pioneiros do blues elétrico (tocado com guitarra elétrica). Este gênero foi o precursor do rock.

ROCK AND ROLL - DÉCADA DE 1950
Chuck Berry (EUA) foi um dos principais criadores do rock n’ roll. Elvis Presley levou a música dos negros americanos para a TV abrindo caminho para vários artistas que antes não apareciam devido à segregação racial, mas foi Berry quem deu à guitarra o som do rock. A canção "Johnny B. Goode" é um de seus maiores sucessos.

DÉCADA DE 1960
The Beatles (Inglaterra): É impossível resumir aqui a revolução musical e comportamental que os Beatles promoveram. Eles foram a principal influência dos músicos de sua geração e também de artistas posteriores. Além da grande qualidade musical, inovaram ao fundir o rock a outros gêneros musicais.

Casualmente os Beatles também contribuíram para a criação do heavy metal. Por exemplo, a canção “I Feel Fine” (1964) foi a primeira gravação a trazer intencionalmente um efeito de feedback. Pode-se notar também uma evolução cronológica no peso das guitarras. Exemplos: “Day Tripper” (1965), “Taxman” (1966), “Rain” (1966), “Revolution (versão do single)” (1968), “Yer Blues” (1968), “I Want You (She’s So Heavy)” (1969).

A canção “You Really Got Me” (1964) da banda The Kinks (Inglaterra) talvez tenha sido o som mais pesado da primeira metade da década de 1960. Isso não se deveu tanto a efeitos de amplificadores ou pedais, mas ao modo de tocar a guitarra. Ainda assim, a canção não tem a agressividade sonora do heavy metal, ela soa mais como o típico rock pop dos anos 60, apesar da guitarra ser mais distorcida que o usual.

The Rolling Stones (Inglaterra): Na atitude e no som este grupo inglês teve importante influência no cenário musical da época. O riff de guitarra em “I Can’t Get No (Satisfaction)” (1965) tornou-se um clássico, talvez o riff mais reconhecido da história do rock.

The Who (Inglaterra): Este grupo se destacou principalmente por sua energia no palco. Algumas vezes as apresentações ao vivo terminavam com um quebra-quebra de instrumentos, geralmente ao som de “My Generation” (lançada originalmente em dezembro de 1965).

Cream (Inglaterra): O power trio britânico tinha nada menos que Eric Clapton como guitarrista. A canção “Sunshine of Your Love” (1967 - 1968) já traz características de um proto heavy metal.

Jimi Hendrix (EUA): O uso de pedais de efeito e a maneira peculiar de tocar acordes pesados e longos solos distorcidos deu a Hendrix o status de lenda. O som de sua guitarra pouco se diferenciava do que viria a ser o heavy metal, mas sua música estava mais voltada à sonoridade do rock psicodélico e do blues.

A canção “Born to be Wild” (1968) da banda Steppenwolf (Canadá/EUA) é a primeira a trazer a expressão “heavy metal” em sua letra. Além disso, é um clássico do rock dos anos 60, muito associado ao motociclismo e à sensação de liberdade.

“Helter Skelter” (1968) dos Beatles é considera a primeira música a realmente fazer o som do heavy metal. Isto não apenas pelas guitarras distorcidas, mas também pelo som marcante do baixo, a batida forte da bateria e o vocal rasgado. Uma catarse de barulho e agressividade sonora, uma marca registrada do gênero.

DÉCADA DE 1970 – A TRINDADE DO ROCK PESADO
Led Zeppelin (Inglaterra): O vocal agudo e os longos solos de guitarra são algumas das principais contribuições deste grupo para a definição do heavy metal.

Deep Purple (Inglaterra): A partir daí os gritos super estridentes se tornaram uma marca registrada do rock.

Black Sabbath (Inglaterra): grupo formado por Ozzy Osbourne, uma lenda viva do gênero. A principal característica da banda era a música lenta e arrastada, o som grave da guitarra e as letras que traziam temas de protesto e ocultistas (inspirados em filmes de terror). Com isso o heavy metal passou a ter uma cor oficial: o preto.

DE 1970 A 1980 – SUBDIVISÕES DO “ROCK PAULEIRA”
Hard rock progressivo – Rush (Canadá).

Punk rock – Sex Pistols (Inglaterra), Ramones (EUA) etc.

Metal – Kiss (EUA), e mais tarde Iron Maiden (Inglaterra), Metallica (EUA) etc.

Hard rock – Aerosmith (EUA), Queen (Inglaterra), AC/DC (Austrália) e mais tarde Guns n’ Roses (EUA) etc.

DÉCADA DE 1990 – VALE MENCIONAR:
Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e outras bandas que sob o termo genérico do grunge trouxeram ainda mais barulho e liberdade à criação musical.

Chuck Berry - "pai do rock"





















Paul McCartney e John Lennon (Beatles) - foto de 1967













Jimi Hendrix




















Jimmy Page e Robert Plant (Led Zeppelin)




















Black Sabbath


















Kurt Cobain (Nirvana)






















O que é um som "pesado"?
"Ticket to Ride" (1965), canção dos Beatles, era considerada pesada no ano de seu lançamento. O som da banda Pink Floyd era considerado barulhento, alto e pesado quando surgiu em 1967. "A Cavalgada das Valquírias" do compositor alemão Wagner (séc. XIX) poderia ser considerada um som pesado para a sua época?

Todas essas definições sobre "som pesado" são relativas ao tempo, logo, não absolutas.

Mas afinal, o que é heavy metal?
Apesar dos preconceitos, "mitos" e estereótipos, o heavy metal é apenas um subgênero do rock, apenas a idealização de um estilo musical, o nome genérico de um tipo de som e nada mais do que isso. Não se trata de uma doutrina, filosofia ou apologia a qualquer coisa que seja. É apenas som, música, arte, e nada além disso. Que fique bem claro: o heavy metal não é uma religião! Seus fãs incluem católicos, protestantes, budistas, muçulmanos, judeus, ateus, agnósticos... São fãs de um estilo musical, pessoas diferentes que curtem um mesmo tipo de som, mas cada indivíduo tem seu próprio jeito de pensar e levar a vida.

Não se pode definir com exatidão quando ele nasceu ou quem o criou. Atualmente, não dá mais para simplesmente tomar por base a idealização de "som pesado" para dizer o que é e o que não é heavy metal, porque "pesado" é uma variável que depende de um contexto temporal e cultural. Só se pode falar em "agressividade musical" e "som pesado" num contexto cronológico, porque aí é possível fazer comparações, caso contrário qualquer definição é vaga.

O que se pode afirmar com certeza é que esse gênero, assim como o rock, requer muito treinamento musical, ou seja, muito estudo, disciplina e dedicação de quem pretende tocar um instrumento.

Talvez possa ser definido como uma catarse musical de inconformidade com o mundo dos homens. É na arte que o homem expressa todos os seus sentimentos, incluindo a dor, a raiva, a revolta e o medo. O rock (e seus subgêneros) é um estilo musical para ser curtido, mas também para inspirar reflexões. 

Bem lá no fundo, o heavy metal é apenas uma brincadeira feita para divertir alguns e assustar outros, um jogo provocativo de combate a estereótipos, superstições e preconceitos.

Marty Mcfly tocando Johnny B. Goode (cena do filme "De Volta para o Futuro"):
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Radionovela: o último dia de Sócrates



Capítulo 1: Sócrates na prisão, um dia antes da execução da sentença de morte.














BG: passos lentos no calabouço. Música do ápice para o fade out.

Xenofonte:
- Mestre...
Sócrates:
- Sim, Xenofonte.
-         Eu vos acordei?
-         Não, eu não estava dormindo.
-         Há quanto tempo estais assim, mergulhado em pensamentos?
-    Não tenho noção de tempo aqui, contemplo as ideias atemporais, não penso sobre coisas inconstantes como o tempo.
-         Não pensais preocupado em vosso destino?
-         Digas-me, o que é o destino?
-   Não tenho segurança para afirmar, mas vós que perguntais quereis ouvir uma resposta.... O destino deve ser uma vontade acima da vontade dos homens. O destino dita a vida dos homens.
-         Se achas mesmo isso, não deverias pensar que estou preocupado.
-         Por que, mestre?
-       Se o destino é o que me dizes, ele se encarrega de tudo. Se ele está acima da vontade dos homens, de nada adiantaria preocupar-me, pois não posso mudá-lo. Logo, devo aceitá-lo.
-         Confesso, mestre, não sei o que é o destino. Esclarecei-me, então.
-        Da mesma forma como nós buscamos responder a questões que nossos antecessores levantaram, nossos sucessores tentarão responder a essa pergunta. Logo, isso é questão de tempo.
-         Platão:
-       Mestre, o vosso tempo está se esgotando. Deveis fugir. Vossos discípulos não vos abandonareis, todos nós já preparamos um esconderijo com água e comida, longe de Atenas. Deveis fugir hoje à noite, amanhã poderá ser irremediável.
-         Se eu fugisse, eu não teria orgulho de mim mesmo e tampouco vós o teríeis. Não seria, após fugir, amigo da sabedoria tendo eu abdicado das minhas próprias ideias. Minhas ações não seriam merecedoras de minhas palavras. Platão, tu és meu discípulo mais esforçado. Não te lembreis das palavras que eu disse em meu julgamento?
-         Sim mestre, lembro-me bem.
-    Então fico feliz de saber que não me decepcionai. Após a minha morte, viverei na lembrança de meus discípulos.
-     Mas mestre, não quero vos retrucar, sei que estais seguro de que existe uma alma imortal e que vivereis para sempre. Sei que vos anseias em conversar com outras almas de sábios que deixaram este mundo de sombras. Porém, não vos preocupais com vossa mulher e filho?
-     Sim, Platão, essa é mais uma razão para não fugir à minha sentença. Se fugir, não poderei retornar à minha mulher e meu filho, pois na companhia deles me encontrariam, e eu os exporia ao perigo. Tampouco poderia eu fazer da vida de minha família uma aventura, obrigando-os a fugir para sempre. A responsabilidade do que eu disse e pensei deve recair apenas sobre mim. Quero poupar meu filho, pois se eu estiver errado, e não existir uma alma imortal; e a morte for um sono do qual não se acorda e não se sonha, eu pelo menos viverei, após minha morte, na lembrança de meu filho, que é minha carne e meu sangue. E meu filho viverá na lembrança e na carne de seu filho. Essa é uma forma de viver eternamente.... Já não sou jovem como vós, meus discípulos. Se fugisse, quanto tempo mais minha carne duraria neste mundo? Mais cedo ou mais tarde eu morreria, se não velho e doente, morto por alguém que se sente ofendido comigo. Não poderia viver fugindo disso. Sinto pela minha mulher, que não poderá me abraçar novamente neste mundo. Mas espero um dia que, se houver um outro mundo; ela, meu filho e todos vós se encontrarão comigo lá.
Epicuro:
-         Mestre, qual a razão de vivermos se depois morremos. Não deveríamos morrer logo, e assim apreciar o outro mundo desde já?
-         Por Zeus, não Epicuro! Não deveis negar a importância do mundo material. Aqui estás por um motivo, deves olhar para dentro de ti mesmo para entender esse motivo. Assim te tornareis um homem virtuoso.
Zenão:
-         Mestre, não entendo esta calma com que vós vedes a proximidade da morte.
-     Zenão, não considereis isso um feito temerário. Não seria racional me arriscar numa causa a qual minha própria razão descrê. Se faço o que faço é porque acredito em minhas ideias. E não importa a época, a razão é atemporal, sendo assim, um dia entenderás também. Se negares tua condição, humana sofrerás. Se aceitas com sabedoria que a morte e sofrimento são condições humanas, poderás mudar sua condição de sofrimento.
-         Antístenes:
-        Mestre, ainda assim, não me convenci. Não temeis a dor, mas as vossas necessidades serão satisfeitas após aceitares vosso destino?
-         Antístenes, meu amigo, os atenienses precisam de muitos luxos para viver. Na verdade eles ainda ignoram que não necessitam nem da metade da metade do que possuem. Tudo que necessito no momento é cumprir minha missão neste mundo, e ela será concluída após minha sentença, quando não abdicarei da razão de que há uma alma imortal em todos nós. Assim provarei a convicção das minhas ideias para vós, e assim poderão continuar, após minha morte, a buscar o próprio conhecimento que vós tendes dentro de vós. Não sou nenhum sábio, não vim ensinar uma doutrina, não poderia, pois nada sei. Só vim vos ajudar a vos tornardes conscientes da vossa própria ignorância, a desfazerdes dos vossos preconceitos e presunções que vós tendes. Vim como uma parteira, vos auxiliar a vós mesmos a darem à luz a vossas próprias novas ideias. Saiam das sombras da ignorância. Conheceis a vós mesmos e sereis virtuosos. Essa era a minha missão. 



Personagens:

Sócrates (469 a.C. a 399 a.C). – filósofo ateniense, criador da maiêutica, pai da filosofia humana ocidental. Célebre pelas frases "Só sei que nada sei" e "Conhece-te a ti mesmo".

Xenofonte – Discípulo de Sócrates e relator de seus feitos.

Platão – Discípulo de Sócrates. Autor da "Apologia de Sócrates", livro que descreve o julgamento e autodefesa de seu mestre. Também escreveu o "Fédon", livro que trata da imortalidade da alma. Platão foi um filósofo idealista e criador da “alegoria da caverna”.

Epicuro – Discípulo de Sócrates. Fundador da filosofia dos epicuristas. Estes reuniam-se num jardim. Eles valorizam os prazeres materiais (experiência sensitiva) e negavam a imortalidade da alma com base no atomismo de Demócrito.

Zenão – Discípulo de Sócrates. Fundador da filosofia dos estoicos. Estes eram caracterizados pela indiferença ao exterior (tranquilidade estoica) e pela razão atemporal.

Antístenes – Discípulo de Sócrates. Fundador da filosofia cínica. Para os cínicos a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo.
 

Renan, 2005.

Obs: esta é uma ficção criada por mim com o objetivo de ilustrar como Sócrates influenciou correntes variadas de pensamento filosófico. A inspiração veio um pouco de "Fédon", mas obviamente com mudanças e personagens acrescidos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Adventure (Atari)


Adventure é um jogo de Atari, criado por Warren Robinett e lançado em 1979.

Muito antes de Alex Kidd, Double Dragon, Sonic, Super Mario, Prince of Persia, Rock n’ Roll Racing, Street Fighter, Mortal Kombat, Samurai Shodow (Samurai Spirit) e Tekken eu me divertia na década de 1980 com o Atari.

Estou falando de Pac-Man, River Raid, Phoenix, Enduro, rã atravessando a rua, polícia correndo atrás de fugitivo do presídio dentro de um supermercado. Eram jogos simples, mas que faziam a cabeça da garotada nessa década. Jogava com meu pai, com amigos ou sozinho e sempre me divertia muito. Mas nenhum jogo dos anos 80 era tão cativante e inovador quanto o Adventure.

Herói saindo do castelo preto carregando o cálice

Herói carregando chave preta, dragão à frente

Herói carregando seta (arma). Dragão vigia cálice.



































No labirinto azul, ponte ao cento, dragão morto à esq.













Sobre o Adventure

Roteiro (objetivo e jogabilidade)
A aventura é para apenas 1 jogador. Não há pontos a serem somados nem corrida contra o tempo, o que foi uma novidade nos jogos da época. O único objetivo é levar a taça dourada ao castelo amarelo (casa e ponto de partida do herói). Mas para isso o jogador precisará de outros objetos; como chaves, uma ponte, um ímã e uma seta para matar dragões.
Sempre que o jogador ver seu avatar devorado por um dragão ele pode continuar o jogo na opção reset (que no Atari era uma alavanca, mas nos emuladores atuais é uma tecla).


Personagens
- Herói (o jogador): o herói sem nome é o personagem-avatar do jogador. Ele é representado simplesmente por um quadradinho. O herói agarra objetos ao tocá-los. Isto se faz em qualquer posição (de baixo, por cima, da direita, da esquerda) e solta-os com um comando de botão (o Atari tinha apenas um botão e uma alavanca direcional). O herói só pode carregar um objeto por vez, o que exige escolhas do jogador. Imagine aquele quadradinho como um cavaleiro em busca do “Santo Graal”.

- Dragões: há três dragões que mais parecem “patos gigantes”. O objetivo deles é devorar o herói. O dragão amarelo às vezes teme e foge da chave amarela por esta ser da mesma cor da seta que o mata. O dragão verde costuma vigiar objetos preciosos dos quais o jogador precisa dispor. O dragão vermelho é o mais rápido e difícil de matar.
Muitas vezes no jogo tomei susto com um dragão abrindo sua boca (para entender isso, jogue Adventure). Quando o herói é devorado ele vai parar na barriga do dragão, de onde não sai. Mas o jogador ao puxar a alavanca “reset” faz o herói ressuscitar, assim o jogo continua de onde parou, os objetos permanecem basicamente no mesmo lugar. O herói tem vida infinita, o jogo leva o tempo que for necessário. Mas o reset ressucita também os dragões que estavam mortos.

- Morcego: ele é um ladrãozinho que ora ajuda, ora atrapalha. Voa por todos os ambientes do jogo, atravessando cenários e paredes, sempre carregando um objeto, às vezes carregando um dragão (vivo ou morto). Ele sempre rouba objetos que o herói carrega, deixando outro objeto para trás. Essa troca pode ser boa às vezes.
O herói não pode pegar e carregar dragões, mas pode pegar e carregar o morcego que porta um dragão (vivo ou morto) ou carregar o morcego portando qualquer outro objeto. Às vezes pode-se prender o morcego dentro de um castelo, mas casualmente ele foge. Quando o herói é devorado por um dragão, pode acontecer de o morcego passar e carregar esse dragão com o herói dentro da barriga do monstro. Nesse caso, o jogador (o herói digerido) é levado em um passeio por todos os ambientes do jogo. O jogador assim visualiza a localização dos objetos que procura, tirando proveito de sua "tragédia indigesta".

Objetos
- Três chaves: a chave amarela, a chave branca e a chave preta. Cada uma abre o castelo da cor correspondente.

- Seta (simbolizando uma lança ou espada): é a única arma da qual o herói dispõe para matar dragões. Às vezes eles fogem do herói quando ele porta a seta.

- Ponte mágica: uma ponte roxa que pode ser carregada pelo herói e utilizada para atravessar paredes de labirintos ou de outros ambientes.

- Ímã: ferramenta útil para atrair objetos inalcançáveis ou “enterrados” em uma parede.

- Cálice (troféu): é um objeto em formato de taça, muito brilhante. Metaforicamente, pode representar o “Santo Graal”. Este é o objeto de desejo do herói. O cálice deve ser levado ao castelo amarelo para que o jogo termine.

Ambientes
- Três castelos: amarelo, branco e preto. Cada castelo possui sua chave específica, indicada pela cor. O castelo amarelo possui apenas um ambiente, é o ponto de partida e lar do herói. O castelo branco fica no caminho de um labirinto invisível, dentro desse castelo há um labirinto vermelho com vários ambientes. O castelo preto fica no caminho de um labirinto azul, dentro desse castelo há outro labirinto invisível.

- Labirinto azul: é o labirinto que o herói percorre para chegar ao castelo negro.

- Labirinto invisível: na minha infância eu chamava aquilo de “labirinto de geléia”. O labirinto invisível é como uma membrana plasmática, ou seja, conforme o herói se desloca lá dentro a “geléia” cria pseudópodes permitindo a locomoção do personagem, mas sempre por caminhos determinados. É mais difícil que o labirinto azul, isto é, locomover-se na “geléia” requer mais prática.

- Há também ambientes intermediários entre os labirintos e castelos.

Modos de jogo
1 – Este modo é o mais fácil. Há apenas um labirinto (o azul). O troféu está no castelo negro e há apenas dois dragões (amarelo e verde). Não há morcego.

2 – Neste modo todos os objetos e ambientes estão presentes. No início do jogo, os objetos estão sempre nos ambientes já determinados. De modo geral, o jogador seguirá sempre o mesmo roteiro para atingir seu objetivo, as mudanças acontecerão apenas no decorrer do jogo, conforme o jogador cria situações.

3- Este é o modo mais interessante! Todos os objetos e ambientes estão presentes, mas, no início, os objetos estão escondidos em modo randômico. O jogador não conhece a localização inicial dos objetos. No modo 3, o roteiro acaba sendo sempre diferente a cada jogo, podendo levar horas para que o mesmo jogo tenha um fim. Sendo mais claro: a cada novo jogo há um novo roteiro, já que os objetos inicialmente estão em lugares diferentes do habitual. Ou seja, é um modo randômico. Pode-se usar a opção reset quantas vezes forem necessárias para ressuscitar o herói, será ainda o mesmo jogo, as mesmas situações, mas se o jogo for reiniciado, será um roteiro completamente diferente. Há inúmeras possibilidades no modo 3, isto é uma grande inovação para a época e torna o jogo fascinante ainda hoje.

Ovo de páscoa (easter egg)
Na tradição da Páscoa, os ovos de galinha ou de chocolate são escondidos na casa ou jardim para que as crianças, no dia de Páscoa, procurem. A caça aos ovos de Páscoa inspirou a expressão “easter egg” para designar um segredo que o programador de jogos insere num jogo de aventura. Há inúmeros exemplos de easter eggs na história dos jogos eletrônicos.

Adventure é o primeiro jogo a ter um easter egg. No labirinto invisível dentro do castelo preto o jogador pode localizar um “ovo” representado por um pequeno quadrado, quase invisível. Ao carregar este “ovo” e deixá-lo no ambiente específico o jogador “abrirá” um novo ambiente, onde se lê a frase “Created by Warren Robinett”.

O primeiro easter egg da história dos vídeo games foi inserido porque o programador queria ter créditos por sua obra, o que não era comum na época do Atari. Portanto, foi um ato de rebeldia e esperteza do programador para que ele tivesse seu nome creditado ao jogo.

E, diga-se de passagem... Merecido crédito! O jogo, apesar de nem se comparar aos gráficos de vídeo games atuais, ainda é ótimo, divertido, criativo e inovador para a época. Foi um precursor e pioneiro em todos sentidos.

Warren Robinett, you are a genious! Thanks a lot for Adventure!


Para saber mais (bom texto sobre Adventure):


Esta foi minha primeira postagem sobre vídeo game. Não sei se haverá outras, mas gostei de escrever, apesar da dificuldade que senti em explicar e descrever um jogo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo e randômico (quase quântico!). E ainda mais complexo foi escrever isto por se tratar de algo de minha infância e que, em termos de gráfico, em nada se parece com os jogos de hoje. Espero que os jogadores contemporâneos se sintam curiosos o bastante para descobrir, jogar e curtir Adventure e que os velhos fãs dessa aventura entendam a homenagem aqui prestada ao jogo e seu criador.

Atualmente, umas das opções para jogar Adventure no computador é pelo emulador de Atari conhecido como Stella. Pode ser baixado gratuitamente em alguns sites, tanto o emulador quanto os jogos, não há dificuldade nisso. Bom divertimento!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Noam Chomsky discute Paulo Freire.


Em Harvard discutem Paulo Freire: 45 anos da publicação de "Pedagogia do Oprimido". Enquanto isso no Brasil......
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
Obrigado, Álvaro de Campos!!!!!!


* Noam Chomsky é um dos mais renomados linguístas do mundo, ativista político e filósofo.

** Álvaro de Campos é um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Ele é o heterônimo futurista e cosmopolita, em oposição a Alberto Caeiro (pastor bucólico), Ricardo Reis (latinista) e o próprio Fernando Pessoa (saudosista e místico português).

*** A onomatopeia no comentário acima é uma referência ao poema "O binômio de Newton" de Álvaro de Campos.

Obs: simultaneamente, também devemos comemorar o aniversário de 45 anos do álbum "Abbey Road" dos Beatles.















Parabéns aos ilustres aniversariantes. Que lástima serem tão pouco lembrados!




















Poema de Ricardo Reis



De Ricardo Reis (provavelmente dedicando a Alberto Caeiro)



Mestre, são plácidas 
Todas as horas 
Que nós perdemos, 
Se no perdê-las, 
Qual numa jarra, 
Nós pomos flores. 

Não há tristezas
Nem alegrias 
Na nossa vida. 
Assim saibamos, 
Sábios incautos, 
Não a viver, 

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos, 
Lendo as crianças 
Por nossas mestras, 
E os olhos cheios 
De Natureza ... 

À beira-rio,
À beira-estrada, 
Conforme calha, 
Sempre no mesmo 
Leve descanso 
De estar vivendo. 

O tempo passa,
Não nos diz nada. 
Envelhecemos. 
Saibamos, quase 
Maliciosos, 
Sentir-nos ir. 

Não vale a pena
Fazer um gesto. 
Não se resiste 
Ao deus atroz 
Que os próprios filhos 
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos 
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos,tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Poema de Florbela Espanca


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca