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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Dicas de português

1) Mas x Mais

Mas - significa: porém, entretanto, no entanto, todavia.

Ex: Choveu, mas faz calor. (= Choveu, porém faz calor).

Ex: Capriche no trabalho, mas não demore na entrega.

Ex: Faça um regime, mas não exagere.

 

Mais - significa adição (+), é o contrário de menos (-).

Ex: Dois mais dois são quatro. 

Ex: Gosto mais dos dias frios.

Ex: Cada vez mais, prefiro os dias frios.

Ex: Quanto mais eu leio, mais eu gosto de ler.

 

2) A diferença que um único acento faz:

Analise (verbo) Ex: Analise os gráficos para mim. (Sílaba forte: a-na-LI-se)
Análise (substantivo) Ex: A análise foi perspicaz. (Sílaba forte: a-NÁ-li-se)

Critica (verbo) Ex: Ele critica as obras de Alencar.(Sílaba forte: cri-TI-ca)
Crítica (substantivo) Ex: A crítica foi bem recebida. (Sílaba forte: CRÍ-TI-ca)

Noticia (verbo) Ex: O jornalista noticia os fatos. (Sílaba forte: CI)
Notícia (substantivo) Ex: A notícia foi capa de jornal. (Sílaba forte: TÍ)

Esta (pronome demonstrativo) Ex: Esta mesa está ocupada, mas aquela não. 
Está (verbo "estar" na 3ª p. do sing. Presente do Indicativo) Ex: Ela está aqui. 

 

3) Infinitivo (final R)

Ex. Hoje ela está ocupada, amanhã pode estar livre.

Está – verbo conjugado pelo pronome Ela (3ª pessoa do singular).

Estar – verbo no infinitivo (final R).


Ex: Ele anda. (3ª p. do sing) x Ele consegue andar. (infinitivo)

Ex: Isso fede. (3ª p. do sing) x Isso vai feder.(infinitivo)

Ex: Você sai todo dia. x Você quer sair amanhã?

quarta-feira, 20 de março de 2019

Cuidado com a língua!


Cuidado com a língua nunca é demais!

Quando vejo um Mestre de uma universidade federal publicar um artigo cujo resumo começa assim: "O presente trabalho pretende apresentar [...]" Pr, pr, pr... Parece que estou ouvindo o coaxar do sapo cururu no campo da cacofonia. Como continuar lendo um artigo que começa assim? Onde está a criatividade ao iniciar um texto?

Outro exemplo: 

Um outro Mestre também de uma universidade federal usa a abreviatura Ms para se apresentar como Mestre. Façam uma visita ao site da Academia Brasileira de Letras e vejam qual é a abreviatura correta para Mestre/Mestra!

E são esses acadêmicos que, de longe, bem longe das salas de aula do ensino fundamental, criticam o "ensino tradicional da gramática normativa". Dizem que "há uma ideologia dominante por trás da escolha da variante culta da língua", e que os alunos devem ser "ensinados a pensar por eles mesmos, terem pensamentos críticos, serem questionadores".

Mas proponho duas questões:

1- Como esses acadêmicos aprenderam a escrever e publicar artigos? Resposta: na época em que eram alunos do ensino fundamental, foram obrigados a estudar a chata gramática tradicional e normativa imperialista dominante. E se não tivessem tido esse conteúdo no ensino fundamental, os textos desses Mestres seriam muito piores!


2- Se abandoarmos de vez o ensino da gramática tradicional no ensino fundamental e focarmos nossos esforços em ensinar o aluno a ser um questionador o que teríamos? Resposta: pessoas que não sabem ler e escrever corretamente (com coesão, coerência e conteúdo) e que não conseguem compreender e interpretar o que leem, mas que criticam, duvidam e questionam tudo (a sabedoria intrínseca em um texto filosófico ou literário, a autoridade dos pais, a autoridade de um professor, a hierarquia em uma sociedade, o motivo de ele estar na escola, a razão de ele ser obrigado a estudar conteúdos de que ele não gosta...). E isso infelizmente nós já temos, mas seria ainda pior! Seria uma anarquia! Seria o fim da civilização!

Antes de ser crítico e questionador, o aluno deve ser capaz de entender o que lê. E conhecer as normas básicas de comunicação em sociedade. Questionar sem entender não é ser crítico, é ser ignorante (etimologia do grego, significa sem conhecimento).


Obviamente, toda variante oral deve ser respeitada e o preconceito linguístico combatido. Mas o pensamento crítico só se torna realmente possível a partir de um letramento bem feito, um conhecimento linguístico apurado e um conhecimento de causa (a partir de muitas leituras comparativas, pesquisas científicas e experiências empíricas).

Não se deve ensinar o aluno do ensino fundamental a ser um crítico sem conteúdo, um questionador de tudo, ao contrário, ele deve ser ensinado a abraçar a oportunidade que lhe está sendo ofertada. A educação é o bem mais valioso de que ele pode dispor para ampliar seus horizontes. E se ficarmos apenas nessa de "valorizar o contexto social do aluno" ele não terá a chance de conhecer novos horizontes, novas oportunidades, outras realidades, mas ficará preso apenas a aquela realidade e contexto social que ele já conhece.

Deve-se ensinar o aluno a pensar, a refletir sobre um texto. Mas as reflexões devem ser orientadas e guiadas pelo professor baseando-se em valores humanos universais. O pensamento crítico individual só virá com a idade e a maturidade, mas após um longo percurso de letramento (com gramática tradicional, muita leitura, muita produção de texto, muita correção e revisão). Não na infância, não na adolescência, o pensamento crítico tem seu lugar na vida adulta, cidadã, totalmente responsável por seus atos. E, reitero, após um longo e árduo processo de  letramento (a educação não tem que ser lúdica todo o tempo, ela necessita de trabalho árduo e dedicação do estudante).

Como alguém pode ser crítico se ainda não responde criminalmente por seus atos? Como alguém pode ser crítico se ainda não é emancipado dos pais? Como alguém pode pode ser crítico numa fase biopsicológica em que o mais primordial é a aceitação e inserção em um grupo social, valorizando mais a opinião alheia do que a construção da própria individualidade? Como alguém pode ser crítico quando usa o celular o tempo todo na sala de aula com fones para ouvir música (celular que ganha dos pais e cuja conta é bancada pelos pais)? 

Esse último parágrafo levanta outras questões que vão além da sala de aula.

Um celular com câmera, gravador de voz e acesso à internet e com tudo de ruim que a internet pode oferecer, desde redes sociais até pornografia e violência, é muito poder e responsabilidade na mão de uma criança ou adolescente que ainda desconhece noções mínimas de responsabilidade. Obviamente o celular com jogos violentos e coloridos lhes parece mais atrativo do que a aula chata de gramática normativa, ou exercícios matemáticos ou textos de qualquer disciplina curricular, o que demandaria a eles concentração e trabalho árduo.


Outra questão a ser levantada é a infantilização de crianças e jovens em nossa sociedade. Há um fetiche brasileiro pela infância risonha e irresponsável. Essa corrente luta contra uma infância proveitosa, responsável, estudiosa e séria. No senso comum, a infância é uma época de alegrias e brincadeiras apenas, sem traumas, sem conflitos. Mas isso nunca foi verdade! A infância é a época mais marcante para traumas e sonhos, é a época mais biologicamente eficaz para estimular a criação de uma sociedade cidadã e responsável ou para se criar rebeldes que não se adequam à vida em conjunto. Porém, defender a ideia de que a criança deve ter tarefas, deve ser responsável e séria se tornou uma afronta para alguns "pais e teóricos da educação".

Esses pais e teóricos deveriam pensar o seguinte: "Se não fossem por aqueles pai e mãe presentes, se não fossem por aqueles professores rígidos, se não fossem todas aquelas cobranças, se não fosse o ensino tradicional de conteúdos curriculares, onde eu estaria agora?". Eles devem parar de levar seus traumas infantis para as reuniões de pais ou para seus artigos acadêmicos e pensar no bem que a rigidez, disciplina e cobrança fizeram a eles próprios. Não cobrar é o mesmo que abandonar o aluno ao próprio destino.

Reitero: o ensino pode até ser lúdico algumas vezes, mas jamais pode dispensar a rigidez, o trabalho árduo, a disciplina comportamental e a cobrança. Os conteúdos curriculares básicos e fundamentais nem sempre são atraentes, mas não são dispensáveis. A tabuada, a conjugação de verbos, a linha do tempo de fatos históricos, a memorização de mapas, entre outros, são conteúdos que os alunos devem ter na ponta da língua antes de se pensar em ensinar a eles o "pensamento crítico".

E o cuidado com a língua nunca é demais. Se isso não for levado a sério, daqui a pouco teremos professores de Língua Portuguesa escrevendo "intendi" (entendi), "fraze" (frase) etc; como já vi por aí.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Casos recorrentes de pronome-cópia

Leia a oração abaixo:

"O jovem do Ensino Médio, ele não pode ficar com 12 matérias [...]"
(O Globo, 22/09/2014)

Há algum tempo tenho reparado essa construção cada vez mais presente na fala e, às vezes, na escrita de alunos de todos os níveis de escolaridade e classe social.

Na construção "O jovem do Ensino Médio, ele não pode ficar com 12 matérias [...]" ocorre o que os estudos sociolinguísticos classificam como pronome-cópia. Nessa estrutura sintática, que é do tipo que mais tenho notado no dia a dia, o pronome-cópia [ele] repete o sujeito [O jovem do Ensino Médio] que está imediatamente anteposto a ele.

Na gramática normativa, as únicas construções aceitas seriam:
1- O jovem do Ensino Médio não pode ficar com 12 matérias [...] ou
2- Ele não pode ficar com 12 matérias [...].
3- Ele, o jovem do Ensino Médio, não pode ficar com 12 matérias [...].

O sujeito em cada uma das orações acima está em negrito. A explicação é que o sujeito simples só pode ter um núcleo [jovem na oração 1 e Ele na oração 2]. Na oração 3 o sujeito é Ele, enquanto "o jovem do Ensino Médio" é um aposto que explica o termo anterior. Note que o aposto aparece entre vírgulas.

Portanto, na gramática normativa, a cópia ou repetição do sujeito por um pronome seria uma redundância semântica e um desvio sintático. Sendo assim, construções do tipo "O jovem do Ensino Médio, ele não pode ficar com 12 matérias [...]" devem ser evitadas na fala e na escrita.

Todavia, uma explicação alternativa é que o pronome-cópia nesse tipo de construção enfatizaria o sujeito que está topicalizado. Isso pode ser notado na entonação que o falante dá ao pronome-cópia.

Esta postagem permanecerá, pelo menos por hora, inconclusiva. Mas o tema é muito pertinente aos estudos gramaticais, pragmáticos, semânticos, sociolinguísticos e estilísticos.