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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O significado de Pã

 O mito do deus Pã

Era um deus com desejos insaciáveis e também com aparência amedrontadora. Perseguia as ninfas e era cultuado por pastores que, ao mesmo tempo, o temiam.


Para Freud

Id = desejos primários [instintivos],

Superego = moral internalizada [que reprime os desejos],

Ego [O eu psíquico] = tenta equilibrar a dicotomia entre Id e Superego.


Ou ainda:

Pulsão de vida = sexual, mantenedora, construtiva...

Pulsão de morte = destrutiva.

Essas pulsões são opostas e complementares entre si.

Ex: para se alimentar e continuar vivo, você destrói ou mata algo.


Outra interpretação [ou complementar à primeira]

Pã = desejo e pânico [medo inexplicável]:

Todo medo é, em essência, medo da morte.

Mas apesar do medo da morte, 

O ser humano deseja demais aquilo que o assusta, às vezes deseja sentir medo. Então também temos:

Desejo por aquilo que nos dá medo [e todo medo é, em essência, medo da morte],

Assim, temos:

Desejo pela morte [neste caso, não significa acabar com a vida, mas se libertar de algo].

A morte simboliza um recomeço, um retorno a algo primordial ou essencial.


Os exemplos disso na literatura, nas letras de canções etc são muito recorrentes! Muitas usam a metáfora de um trem ou carruagem que nos leva de volta à casa, podendo significar um retorno à infância ou à pátria-mãe ou à morada de Deus.

Os gêneros musicais "negro spiritual", "gospel" e "blues" são mestres nisso, e passaram para o rock essa tradição. A libertação da escravidão era cantada pelos negros em forma de prece. Funcionava em dois níveis: num primeiro, retornar à pátria-mãe [África], num segundo, retornar à morada de Deus [a liberdade para um escravo só viria, infelizmente, com a morte].

Outras canções posteriormente substituíram a palavra "casa" por "Califórnia", idealizando um lugar ensolarado [iluminado] e paradisíaco.

Obs: Estou com preguiça de citar textos. Se você não entende as referências acima, você não tem bagagem cultural para compreender esta postagem.

Historicamente, vários povos enterravam seus mortos em posição fetal [i.e: retorno ao útero, de onde vieram todos eles]. Vale aqui retomar Freud e os antigos gregos [Sófocles]: o complexo de Édipo está intrinsecamente ligado a esta prática histórica.


Conclusão

Pã, simbolizando desejos primários [instintivos] e medos incontroláveis [pânico] também carrega intrinsecamente a contradição entre desejar o que mais nos amedronta, ou seja, desejar a morte. Mas não a morte que anula a vida, e sim uma fuga dos problemas da vida, ou a fuga da dor existencial, ou a volta a algo primordial [a infância, por exemplo] ou uma re-ligação a algo transcendental.

Pã, como deus pastoril, também está relacionado à fertilidade [vida] e masculinidade [homens que trabalhavam na lavoura]. Por isso, vale lembrar deuses como Min dos egípcios e Priapo na mitologia dos gregos e romanos. Ambos muito presentes na arte desses povos.

Tanto a masculinidade como a feminilidade eram cultuadas no paganismo antigo. Os deuses tinha sexo e isso era bem visto nessas culturas. A boa colheita e o perfeito funcionamento das estações do ano dependiam desses deuses e deusas.


ADENDO: a mitologia hindu 

Para eles, o universo é cíclico. Há uma trindade de deuses: Brahma [deus construtor], Vishnu [deus mantenedor] e Shiva [deus destruidor-modificador-renovador]. Podemos associar estas divindades ao Id, Superego e Ego. Ou ainda, associá-las à pulsão de vida, pulsão de morte e o equilíbrio entre as duas pulsões.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Je t'aime... Moi non plus (tradução)

Composição: Serge Gainsbourg 

A primeira gravação foi feita por Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot (1967). Todavia, a versão que ficou conhecida mundialmente foi a segunda gravação: Serge Gainsbourg e Jane Birkin (1969). Ela era a namorada do compositor na época.

A letra traz uma metáfora de cunho sexual, o vai e vem das ondas quebrando numa ilha. Mas não se detém na linguagem figurada. Ela é também explícita, revelando inclusive a posição sexual que o casal pratica na letra, claro como numa fotografia. 

Conhecimentos em idiomas nunca são o suficiente para traduzir um texto, ainda mais quando se trata de um texto literário. Nesses casos, conhecimentos em Linguística e Teoria Literária se tornam indispensáveis. As observações que faço após a tradução exemplificam isso e são importantes para entender as escolhas lexicais usadas nesta tradução.

A letra é um diálogo entre homem e mulher, começando por ele. Os travessões [-] indicam as mudanças de locutor.


Letra e tradução


- Je t'aime, je t'aime, oh, oui je t'aime.   - Eu te amo, eu te amo, oh sim, eu te amo.
- Moi non plus.                                       - Eu tampouco. [Eu também]* 
- Oh, mon amour!                                   - Oh, meu amor!
- Comme la vague                                  - Como a onda 
Irrésolue.                                                  Irresoluta.   

Je vais, je vais et je viens                        Eu vou, eu vou e venho
Entre tes reins.                                         Entre tuas costas.**
Je vais et je viens                                     Eu vou e eu venho   
Entre tes reins                                          Entre tuas costas
Et je me retiens.                                       E eu me contenho.

- Je t'aime, je t'aime, oh, oui je t'aime.   - Eu te amo, eu te amo, oh sim, eu te amo.
- Moi non plus.                                       - Eu tampouco. [Eu também]
- Oh mon amour,                                    - Oh, meu amor
Tu es la vague                                          Tu és a onda
Moi l'île nue.                                             E eu, a ilha nua.

Tu vas, tu vas et tu viens                       Tu vais, tu vais e vens
Entre mes reins.                                     Entre minhas costas.
Tu vas et tu viens                                   Tu vais e vens
Entre mes reins                                      Entre minhas costas
Et je te rejoins.                                       E eu te acompanho. 


[Repete primeira estrofe, segunda estrofe e quarta estrofe.]

- Je t'aime, je t'aime, oh, oui je t'aime.  - Eu te amo, eu te amo, oh sim, eu te amo.
- Moi non plus.                                      - Eu tampouco. [Eu também]. 
- Oh mon amour!                                  - O meu amor!
- L'amour physique                               - O amor físico 
Est sans issue.                                        É sem saída.
Je vais, je vais et je viens                        Eu vou, eu vou e venho
Entre tes reins.                                        Entre tuas costas
Je vais et je viens                                    Eu vou e eu venho
Je me retiens                                           E eu me contenho. 
- Non, maintenant viens!                      - Não, agora vem!


Observações:

* Moi non plus - Ao pé da letra, "Eu não mais". Essa expressão é usada para reforçar uma negativa. Por exemplo, se alguém diz "Eu não gosto de futebol" e um outro responde "Moi non plus" significa concordar com a negativa dizendo "Eu também não". 

Porém, a mesma expressão usada após uma afirmativa "Eu gosto de futebol" pode assumir, nesse contexto, o significado de "Eu também". Esse registro não é usual na língua francesa. Ele parece ter surgido, segundo minha pesquisa, de uma fala do pintor espanhol Salvador Dalí.

Quando Salvador Dalí disse: "Pablo Picasso é comunista, moi non plus" talvez ele quisesse dizer "Eu não mais". De fato, Picasso foi membro do partido comunista até a sua morte, enquanto Dalí foi comunista apenas em sua juventude, daí dizer "Eu não [sou] mais". O francês não era a língua nativa de Dalí, então é possível que ele tenha feito um uso equivocado da expressão "Moi non plus". Ou ele tenha usado de sua irreverência surrealista, e com muita consciência, deu uma resposta ambígua.

É possível supor que esse uso incomum da expressão tenha chamado a atenção do compositor. O suposto equívoco gramatical do pintor assumiria um significado inovador e poético na letra desta música.

** reins - Essa palavra, quando no singular, pode ser traduzida como "rim" ou "dorso". Mas na letra, a palavra aparece no plural. Para ser fiel ao sentido original, quis manter o plural na tradução. Isso me deu opções de traduzir "reins" como "rins", "lombos" ou "costas". Aqui entra uma questão de campo semântico. A palavra "rins" está no campo da medicina, o que descarta seu uso aqui. Já "lombos" remete à culinária, o que também descarta seu uso aqui. A palavra "dorso" usada no plural soaria estranha, então "costas" pareceu a escolha mais acertada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O que é Teoria Literária?

Escreverei de maneira simples e resumida para responder a essa questão. Teoria Literária é uma disciplina do curso de Letras que estuda as várias formas de se abordar, compreender e interpretar um texto.

Para isso, a disciplina de Teoria Literária traz várias escolas teóricas em diversos campos de conhecimento: Filosofia, História [biografia], Linguística, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Antropologia etc; e claro, as próprias teorias do texto, da comunicação, da arte e da literatura.


Antes de continuar, acho importante diferenciar os conceitos: "compreender" e "interpretar".

Compreender um texto é entender o seu significado original, ou seja, a intenção do autor.

Interpretar um texto é perceber as possibilidades que o texto permite, sem cometer o erro da superinterpretação.

Superinterpretação é um conceito de Umberto Eco. Em resumo, é o mesmo que colocar chifres em cabeça de cavalo. Ou seja, ver além do que realmente existe. Isso é um erro tão desastroso, que chega a ser melhor não ler um texto do que ver nele coisas que não existem. 


ALGUMAS CORRENTES TEÓRICAS

Biografismo - estuda o histórico de vida do autor e suas influências literárias. A partir daí, tenta dar significado exato às intenções do autor em um texto.

Psicanálise - Utiliza o método de Sigmund Freud [e de Lacan] para analisar as personagens. Obs: Usar a Psicanálise para analisar um autor a partir de seu texto literário pode ser um erro grotesco. O autor [pessoa que escreve] se difere de seu narrador em uma narrativa e de seu eu lírico em um poema.

Psicologia Analítica - Utiliza o método de Carl Gustav Jung. 

Escola de Frankfurt [Teoria Crítica] - Utiliza a dialética.

Estruturalismo - Opõe-se ao historicismo. Divide-se em diversos campos: 

- Linguística;

- Estilística;

- Antropologia [do mito];

- Psicologia;

 - Semiologia.

Semiótica - O estudo de todos os signos linguísticos, verbais e não verbais.

Formalismo Russo [Teoria do Texto Literário] - Método que rompe com as abordagens psicológicas e histórico-culturais [extrínsecas à literatura]. Busca características que distinguem a linguagem literária das demais.

New Criticism [Teoria do Texto Literário] - Introduz a separação entre texto e autor, excluindo o biografismo por completo. Analisa o texto pelo próprio texto, sem qualquer outra fonte. Preza pela ambiguidade da obra literária.


Obviamente, não há como resumir cada teoria aqui, pois cada uma delas demanda muitas páginas para serem minimamente explicadas. Então, elas ficam como dica de leitura para vocês. Aprofundem-se em cada uma delas e aprendam a usar essas teorias nas suas análises de textos e críticas literárias.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Dissertação sobre Augusto dos Anjos

Esta é minha dissertação de mestrado em Letras - Estudos Literários (2011), na qual estudo a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914).

http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_4543_.pdf

No capítulo 1 abordo suas influências, desde o positivismo da Escola de Recife até o seu misticismo. Augusto dos Anjos se caracteriza por congregar influências diversas e antagônicas, mas de forma dialética, resolver a seu favor os empasses entre medo e esperança, religião e ciência, vida e morte.

No capítulo 2 faço uma discussão sobre as pulsões psicanalíticas que reverberam em sua poesia: o Eros e o Tânatos complementando-se em equilíbrio. 

No capítulo 3 o tema passa a ser a angustia existencial de seu "eu lírico" e como, na sua retórica, ele expressa a angustia de toda humanidade perante a morte e a vontade de transcendência que é intrínseca a todos os povos desde os primórdios da nossa História.

O poeta paraibano manifesta ao decorrer dos textos o seu complexo de Édipo, a sua rejeição da poesia erótica e da luxúria, a admiração pela maternidade e seu entusiasmo ecológico, beirando ao panteísmo e ao vegetarianismo.

Essas manifestações somadas aos recursos retóricos, além de toda a ciência e filosofia de seu tempo empregadas em sua poesia, são as bases que Augusto dos Anjos utilizou para lançar seu projeto literário, único e original, e que nos deixa uma pergunta sem resposta, mas também uma certeza: a palavra é imortal.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Semiótica, Teoria Literária e arquétipos

Semiótica, Teoria Literária e arquétipos: ferramentas para a compreensão do texto.


A Semiótica (às vezes referida também como Semiologia) é a ciência que estuda todos os signos linguísticos: verbais, visuais, auditivos e múltiplos. Neste campo, alguns estudiosos de destaque são:

Charles Peirce (EUA) – filósofo, cientista, matemático e químico.
Roland Barthes (França) – filósofo e crítico literário;
Umberto Eco (Itália) – escritor, autor de “O nome da rosa” e crítico literário.

Alguns conceitos importantes da Semiótica:

Ícone - é uma representação que se assemelha ao objeto representado. Exemplo: uma fotografia se assemelha à pessoa retratada.

Índice - é uma representação que se relaciona ao objeto representado. Exemplo: uma pegada humana lembra-nos um ser humano (mas a pegada não se assemelha a ele).

Símbolo - é uma representação arbitrária feita em dado espaço-tempo. Possui um caráter cultural. Exemplos: uma letra para representar um fonema ou uma logomarca para representar uma empresa.


Metáforas e símbolos

A metáfora é a mãe de muita outras figuras de linguagem, também referidas como figuras de estilo ou de retórica ou de expressão.

Tanto a metáfora quanto o símbolo consistem em substituir uma coisa pela outra. A metáfora substitui uma palavra por outra, o símbolo substitui um conceito por uma imagem, por exemplo. Algumas vezes, metáforas e símbolos produzem o mesmo efeito, por isso a linguagem figurada por vezes é definida como uma linguagem simbólica.

Todos os textos (orais, escritos, visuais etc) são recheados de metáforas e símbolos. Não apenas os textos definidos hoje como literários (poemas, peças teatrais, narrativas ficcionais etc), mas qualquer forma de texto (conversas, diálogos, cartas, epístolas, notícia jornalística, propaganda, manifesto etc).


A alegoria

Uma palavra que define um conceito filosófico (abstrato) pode ser substituída por uma palavra imagética (visual) ou uma figura (concreta). Este é o caso da alegoria. 

Há infinitos exemplos de simbolização no dia a dia:

O dinheiro substitui a riqueza por um pedaço de papel ou metal;

A logomarca substitui/representa uma empresa ou produto;

A parábola substitui um enunciado moral por uma narrativa;

O exemplo substitui uma explicação geral (conceituação) por um caso particular.



A operação da linguagem

A linguagem (oral e escrita) pode ser compreendida tanto como uma operação alegórica quanto como uma operação simbólica. Ambas podem ocorrer simultaneamente ou serem didaticamente separadas:

Operação alegórica (do abstrato ao concreto) – o ato de substituir um pensamento ou sentimento (internos em um sujeito) por uma palavra que possa ser expressa a toda uma comunidade. Ou seja, o ato de transformar nossas percepções sensoriais (mundo psíquico) em palavras que as definam.

Operação simbólica (do concreto ao abstrato) – o ato de dar nome a objetos (do mundo exterior) rotulando-os com palavras é uma operação de abstração (simbolização do mundo exterior).

Estas operações possibilitam a existência da linguagem e definem o que muitos filósofos chamam de consciência.


Concretismo e poesia visual

O Concretismo e a Poesia Visual são conceitos literários do século XX e consistem em operar do abstrato ao concreto, ou seja, tomar a palavra (antes entendida como símbolo arbitrário) e aproximá-la do conceito de ícone, fazendo-a se assemelhar à imagem que ela representa.

Exemplo:
 O significante se assemelhando ao significado



                      


Metáfora, alegoria, símbolo e cultura

Da mesma forma que um sujeito para compreender a língua portuguesa deve estar inserido nessa cultura linguística, também para compreender um símbolo ele deve se inserir naquela cultura simbólica. A seguir alguns exemplos.

Na mitologia grega, o trabalho se Sísifo é uma alegoria que reflete a inutilidade de certas tarefas, convocando o homem a refletir sobre o seu trabalho. No mito, Sísifo passa a vida empurrando uma pedra morro acima, mas ela sempre rola abaixo quando atinge o topo.

Nas culturas orientais, a flor de lótus simboliza pureza espiritual, pois é uma flor que nasce em meio ao lodo.

As máscaras do teatro grego e da commedia dell’ arte italiana representavam estereótipos sociais, ou seja, tipos comuns de personalidade, facilmente reconhecíveis pelo público. No teatro moderno, porém, a máscara física foi substituída pela “máscara psicológica”.



Há que se destacar o trabalho do psicólogo Carl Gustav Jung na interpretação de fábulas, mitos e símbolos, bem como pelo conceito de "arquétipo" para entender as tais "máscaras psicológicas".

Alguns arquétipos conhecidos popularmente

Para C. G. Jung, os arquétipos são ideias primordiais no inconsciente coletivo. Essas ideias não possuem forma definida, mas são materializadas ou personificadas (alegoricamente) em símbolos visuais, narrativas, personagens etc. A simbolização ocorre de forma diferente em cada cultura, mas a ideia primordial (a essência) permanece a mesma já que essas ideias fazem parte de um inconsciente coletivo, logo, comum a toda a humanidade.

inúmeros arquétipos que representam a natureza humana. Como somos seres complexos, assumimos várias personalidades, cada uma em um contexto distinto. A seguir alguns exemplos que julgo recorrentes e importantes nos textos.

O pai castrador – é a qualidade controladora da nossa personalidade. É personificado em diversas culturas na figura de um pai ou um deus punitivo. Um exemplo é Odin na mitologia nórdica.

A mãe – é a qualidade amorosa da personalidade. Está ligada à fertilidade e nutrição. É personificada por Proserpina, deusa romana da fertilidade (Perséfone dos gregos); Gaia, a mãe-terra na mitologia grega; Ísis, na mitologia egípcia, Inanna, na mitologia suméria etc.

O pai amoroso – é a qualidade feminina no ser masculino, ou seja, o lado afetivo e criativo no homem, menos receoso de expor as emoções publicamente. Este é o traço de personalidade que Jung chamaria de anima. É personificado em diversas culturas na figura de um homem ou um deus, sempre bondoso, sensível e dado ao perdão. Pode ser pintado (representado iconicamente) como um homem de traços femininos.

A madrasta – é a qualidade masculina no ser feminino, ou seja, o lado violento, competitivo e vingativo na mulher. Este é o traço de personalidade que Jung chamaria de animus. É personificado por Hera (a vingativa esposa de Zeus) e as diversas madrastas dos contos infantis.

O velho sábio – diz respeito ao nosso conhecimento, ao nosso hábito de aconselhar e orientar. É personificado na figura de um mágico, mago, mestre, profeta, professor, guru etc. O mago Merlin é um exemplo, assim como Gandalf (em Senhor dos Anéis) e Dumbledore (em Harry Potter).

O velho conservador – é o lado conservador de nossa personalidade. Julga o presente de acordo com paradigmas passados. É mantenedor de tradições. Um exemplo seria o Velho do Restelo na obra “Os Lusíadas” de Camões.

O jovem rebelde – é o nosso lado revolucionário, inconformado, contestador que exige mudanças. Um exemplo é Bob da Família Dinossauro (seriado de TV).

O mensageiro – trata da nossa característica de levarmos recados que nem sempre são aguardados ou bem recebidos. Exemplos são: Hermes (na Grécia), Mercúrio (em Roma), Loki (na Escandinávia), Exu (orixá africano), Pombero (guarani).

O herói – ele é o nosso lado aventureiro. Na literatura ele é personificado em várias figuras que protagonizam as narrativas. Aquiles é um exemplo.

O rei prometido – é a nossa esperança de mudança de uma situação que não podemos mudar sozinhos. Um exemplo é o rei Arthur.

O duplo (ou alter ego)– é o lado obscuro da nossa personalidade, isto é, aquelas características que rejeitamos em nós mesmos por não conseguirmos conviver com elas. Nas narrativas aparece como o gêmeo mau, ou o irmão mau, sendo antagonistas do gêmeo bom ou do irmão bom. Exemplos podem ser vistos no conto “William Wilson” de Edgar Allan Poe e no famoso “Dr. Jekill and Mr. Hide” (R. L. Stevenson) que inspirou o Hulk dos quadrinhos.

O macho-alfa – é a vontade masculina de dominar ou se destacar em uma comunidade, indo muito além de apenas ser aceito. Um exemplo é o personagem Don Juan.

A fêmea-fatal – é a vontade feminina de se destacar em seu grupo social, indo muito além de apenas ser aceita. Exemplos são dos mais variados, desde Lilith até a mulher-gato das histórias em quadrinhos.

O andrógino ou hermafrodita – é uma identidade indefinida, esta assume características atribuídas aos dois sexos, porém causando estranhamento aos outros. Pode ser representada por um morcego (mamífero alado).

Édipo/ Electra – é o nosso sentimento ambíguo em relação aos nossos próprios progenitores; de um lado amor e admiração, de outro, ressentimento e rancor.


Também há inúmeros arquétipos que representam sentimentos e situações recorrentes na vida humana.

A terra prometida/o lar perdido – vontade de retorno à infância, nostalgia de nos sentirmos acolhidos como éramos na infância. Na música temos vários exemplos, desde o gospel “Swing low, sweet chariot, Coming for to carry me home” até "Mama, I'm Coming Home" de Ozzy Osbourne.

A vida – simbolizada como uma estrada ou um rio. Na música há vários exemplos: “Born To Be Wild”, “Highway Star”, “Infinita Highway” etc. Nos três exemplos citados, o eu poético tenta fazer da vida uma aventura, uma busca pela almejada liberdade.

A morte – simbolizada por um barco, um trem etc. Diversos são os exemplos de metáforas desse tipo: o mito de Caronte, o barqueiro do Hades; “O auto da barca do inferno”, peça de Gil Vicente; a música “Trem das sete” de Raul Seixas etc.

A palavra dura – aquele ensinamento que é importante para o crescimento espiritual de um indivíduo ou de uma comunidade, porém, inicialmente traz discórdia e não é imediatamente aceito. Pode ser simbolizada por uma espada.

A efemeridade (ou dialética da natureza)  – é a consciência de que tudo é fugaz, efêmero, passageiro. Uma fruta apodrecendo ou um dente-de-leão podem ser imagens representativas desse conceito.


Os animais também ocupam papéis simbólicos.

Memória – elefante. É personificado por Ganexa, deus da sabedoria no hinduísmo.
Fartura/potência sexual – o bode. Exemplos são Pã, os faunos e os sátiros.
Pureza/fartura – a vaca.
Fidelidade – o cão.
Astúcia/magia/curiosidade – o gato.
Poder/liberdade/visão – a águia.
Trabalho degradante – o burro.
Reprodução/multiplicação – coelho/preá.
Sociedade/comunidade – formigas/abelhas.
Sabedoria/mistério – coruja.


Para ler mais sobre o assunto, deixo links de outras postagens:

Narratologia (e a jornada do herói):


Alter egos:


A função do mito:

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Discurso, macacos e literatura

O signo linguístico é ideológico. Ele nasce a partir de um contexto temporal (histórico), espacial (geográfico), social, político, econômico e cultural. Também a comunicação é ideológica, porque, da mesma forma, nasce a partir de um lugar, uma história, um contexto, logo, é discurso.

Para entender melhor o conceito de ideologia, leia aqui a publicação de 30 de julho de 2015.

Visando a explicar didaticamente o conceito de discurso, proponho um exemplo imagético.  Numa árvore repleta de macacos, cada qual vivendo fixamente sobre um galho, cada macaco aponta e expressa ideias sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore. O galho representa o contexto histórico-geográfico-político-econômico-cultural diferenciado a que cada macaco pertence. O galho, portanto, determina a estrutura moral, cultural e emocional do macaco. A ideia que cada um faz sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore é o discurso. A árvore é a superestrutura histórico-geográfica na qual os macacos estão inseridos e por ela são determinados e condicionados. O conjunto de ideias expressadas é a superestrutura ideológica: moral-política-religiosa-cultural. Este conjunto de ideias (a ideologia) rege a consciência daqueles seres, ou seja, a forma de pensar sobre si e sobre o mundo e de se expressar, porém, limitados pelo paradigma da superestrutura: a árvore em que habitam.

A filosofia de Sócrates, o materialismo histórico dialético e a psicanálise contribuem respectivamente para que cada macaco perceba: 1- a própria ignorância sobre a árvore como um todo e a insustentabilidade de seus argumentos ao analisar o galho alheio do ponto de vista de seu próprio galho; 2- a necessidade de pensar criticamente para além da árvore, entendendo como ela determina e condiciona o discurso e o modo de viver; 3- a fragilidade de seu próprio galho, o qual enganosamente o macaco considera ser rígido o suficiente para sustenta-lo para sempre (neste caso, o galho representando a relação entre o sistema de valores morais e as emoções do primata).

Porém, mesmo com todas as filosofias, as teorias críticas, as ciências, a psicanálise e as psicologias, o macaco não pode enxergar muito além de seu próprio galho, tampouco contemplar toda a árvore do galho em que ele está desde quando nasceu, onde ele mora hoje e lá um dia morrerá. Ainda que o macaco seja muito crítico, ele não pode erguer o próprio galho onde ele se senta, o qual sustenta seu corpo, muito menos erguer ou derrubar a árvore sem descer de seu galho. O contexto pré-determinado de seu nascimento (o galho) e a superestrutura (a árvore) são uma conditio sine qua non da existência do macaco (considerando que todo o seu mundo é uma árvore e seu galho é uma parte desse mundo). Portanto, a visão desses macacos imagéticos é ad infinitum ideológica e o que eles expressam é discurso.

Além disso, a consciência deles está reduzida a uma visão parcial sobre o todo. Esta lacuna é necessariamente preenchida pela especulação, religião e expressões artísticas.

O signo linguístico é ideológico. Mas a língua na literatura não é mais um discurso ou “o Discurso” sobre moral, estética, sociedade, amor etc. Este papel de insucesso cabe às ciências, filosofias etc. A literatura, como todo o resto, também é ideológica, mas o seu papel não é (ou não pode ser) o de criar discursos, mas sim, apenas ser, existir, mostrar-se, estar o quanto tiver de estar, ser infinita enquanto dure e assumir sua efemeridade por ser apenas expressão fiel de emoções momentâneas (e comuns a todos, por isso eternas), sem a intenção de ser uma verdade ou a Verdade, o que a colocaria como mero discurso, mas, ao contrário, sendo assumidamente uma ficção sobre tudo – o ser, a sociedade e o mundo –, tendo como ferramenta de trabalho todas as ciências, filosofias e religiões. A literatura, pelo menos enquanto catarse poética e solitária, assume para si o papel de ser uma ironia do discurso, não sendo mais um discurso ou antidiscurso, mas apenas uma ironia que não pretende mais do que ornar sua própria ironia, como uma macaca que se enfeita sem se interessar por nenhum macaco.

A função das ciências é muito objetiva: a manutenção da vida. A função das artes, religiões, filosofias e teorias da psique é dar um sentido a tudo, nem que seja pelo discurso, ou ao menos entreter e desmemoriar os primatas superiores de sua angústia existencial.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sujeito, modernidade e literatura fantástica



 “Cada vez que o escritor lança um complexo de palavras é a própria existência da Literatura que está sendo questionada; o que a modernidade dá a ler na pluralidade de suas escritas é o impasse de sua própria História” (BARTHES, 2000, p.54). Pensar a modernidade é pensar o sujeito que a faz, e no caso da literatura, pensar especialmente em escritores e leitores. Portanto, a pluralidade em voga na modernidade, bem como a complexidade de suas produções, simula o questionamento do sujeito desta modernidade, seja leitor ou escritor, e o impasse de utopias passadas.

Tentar apreender a essência do mundo natural deixa de ser a preocupação do pensador moderno. Um dos muitos que inaugura tal concepção foi o filósofo Nietzsche, que ainda no século XIX concebeu a realidade natural como metáforas. Nietzsche também foi um crítico da linguagem, para ele a separação entre sujeito e predicado era inconcebível, de modo que não haveria um sujeito de uma ação, mas apenas o sujeito, que seria a própria ação no espaço-tempo. Algo semelhante nos é apresentado na peça “Seis personagens à procura de um ator” de Lugi Pirandello.

“No fantástico atual, não há reconstrução; nenhuma explicação é dada ao acontecimento estranho, permanecendo na total ambiguidade” (RODRIGUES, 1998, p. 49). Esta é a condição do questionamento da linearidade, da fundamentação, do leitor, e, em última instância, do próprio ser e do próprio fazer literário. A ambiguidade no conto fantástico difere-o de outras narrativas e torna-se conditio sine qua non para o efeito de interrogação do sujeito e do mundo, ou seja, do eu e do outro, como ocorre em Kafka, Borges e Cortázar.

“Existem narrativas que contêm elementos sobrenaturais sem que o leitor jamais se interrogue sobre sua natureza, sabendo perfeitamente que não deve tomá-los ao pé da letra. Se animais falam, nenhuma dúvida nos assalta o espírito” (TODOROV, 1992, p. 38).  Este é o caso da fábula, nela tudo se resolve, tudo está pronto. O fantástico não se trata, portanto, de uma fábula, esta não produz o estranhamento que o fantástico se propõe a produzir. Neste sentido, o fantástico se aproxima mais do real do que outros gêneros.

O dadaísta Marcel Duchamp, utilizando-se da técnica do ready made, transportou elementos da vida cotidiana para o mundo artístico, dando-lhes uma nova função: ser Arte. Os conceitos de movimento, transitoriedade e de ruptura com o passado serão algumas das faces mais visitadas pela arte moderna que se seguirá. Na literatura, o escritor mexicano Octavio Paz trouxe um dos maiores paradoxos da arte do século XX: a tradição de ruptura.

“A ordem será sempre aberta, não se tenderá jamais a uma conclusão porque nada conclui e nem nada começa num sistema do qual somente se possuem coordenadas imediatas” (CORTÁZAR, 2008, p. 177). Não está contida no conto fantástico uma obra acabada, de um pensamento finalizado, mas talvez um início, um pensar inicial sobre um tema que pode sempre despertar novos olhares e novos inícios.

A modernidade também (re)inaugura uma retórica que não se fixa numa fundamentação, mas num jogo entre o eu e o outro. Não há, portanto, algo que seja apreensível, estável e uno. O sujeito moderno se caracterizará pela sua multiplicidade. O ser humano se constrói a partir do outro, vive múltiplos papéis de acordo com a identificação que se faz do outro, não se fundamenta no ser, mas no estar.

O fantástico e a alteridade promovem uma experiência inauguradora, ou seja, um olhar novo e diferente sobre a natureza e, em suma, a ruptura.

Referências:

BARTHES, Roland. O Grau Zero da Escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Tradução de Mario Laranjeira.

RODRIGUES, Selma Calasans. O Fantástico. São Paulo: Ática, 1998.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992. 2ª edição.

CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 2008. Tradução de Davi Arriguci Jr e João Alexandre Barbosa.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Literatura e psicanálise: Alteridade e terror auto-infligido



Gostar de tomar susto assistindo a filmes de terror ou descendo uma montanha russa. A isto dou o nome de “terror auto-infligido”. Mas não fica apenas nisso, como podemos ver a seguir.

Alguns casos clássicos:

a) O Autocrítico – o sujeito que sofreu uma castração rígida no período edipiano e que por isso possui um alto sistema de valores morais. Este sujeito não se permite à felicidade plena, mesmo quando tudo está bem em sua vida. Ele sempre se compara aos outros (alteridade), mas de modo a diminuir-se e cobrar-se mais.

a.1) Casos extremos: síndrome de pânico e transtorno de pânico.

b) O "crítico do vizinho" – este sujeito projeta suas insatisfações pessoais no outro (alteridade).

b.1) Caso extremo: o sádico – aquele que sente prazer no sofrimento alheio.

c) O apaixonado pelo desprezo – aquele sujeito que sempre se apaixona pela pessoa que mais o despreza. Há aí uma necessidade do sujeito de sofrer nas mãos de um outro (alteridade).

c.1) Caso extremo: o masoquista – aquele que sente prazer na dor física e/ou psicológica infligida por um outro.


Todos esses casos podem ser vistos nos estudos psicanalíticos e na literatura em geral: em personagens, narradores ou no eu lírico de alguns autores. O terror auto-infligido é muito comum. Reconhecê-lo e compreender suas razões é compreender a própria complexidade do ser.

É importante salientar que o terror auto-infligido é também um sofrimento auto-infligido. 

No campo social isso pode ser notado também, por exemplo, no pessimismo político que algumas pessoas manifestam, tanto em época de paz como em época de guerra, tanto na recessão econômica quanto no crescimento do país. Isto são sintomas de uma era pessimista. Por mais que as pessoas desfrutem de um padrão digno de vida, de "bens" de consumo e das facilidades tecnológicas, há muitas queixas e a sensação de que tudo vai mal. O pessimismo social é um terror auto-infligido, mas também é um terror infligido pela influência de terceiros a mídia, por exemplo.

Em razão do medo, a sociedade cede ao controle de terceiros. Isso até ela descobrir que não há razão para ter medo.




Dica de filme: "O primeiro amor" (Flipped, EUA, 2010).

sábado, 15 de março de 2014

Para quem não lê, para quem lê e não entende e para quem escreve...

Erros comuns de quem lê, mas não CONHECE poesia:

1- Achar que poesia é algo “bonitinho” feito para confortar, alegrar ou enfeitar.

2- Achar que poesia pode ser interpretada de qualquer forma, dependendo da vontade ou subjetividade de cada um.

3- Achar que o conteúdo escrito é válido para todas as épocas, em especial, a SUA.

4- Achar que aquilo foi escrito para alguém específico, digamos... VOCÊ.

5- Achar que qualquer pensamento ou expressão de sentimentos é uma boa poesia.

ENTENDER a poesia é sempre um desafio. Costumo dizer que quem lê e entende poesia, entende qualquer tipo de texto (além de ler o mundo de forma mais crítica e consciente).

A seguir, apresento uma justificativa para cada item numerado acima.


1 - A poesia é uma forma de reflexão retórica. Embora seja bela, por trazer musicalidade em sua forma; e cativante, por organizar o conteúdo de forma lógica, ela não tem o objetivo de agradar, mas apenas de ser uma bela reflexão, isto é, ser a expressão organizada (artística) de uma subjetividade única (original). Então, nunca pense em poesia como sendo algo “bonitinho”, mas sendo uma técnica de argumentação.

2- A poesia tem como objetivo passar uma mensagem esteticamente organizada. Se essa mensagem pudesse ser interpretada de qualquer forma, não haveria razão de ela existir. Todo texto tem uma mensagem que é comunicada ao leitor pelo autor. Embora a poesia tenha sentido amplo, isto não significa que ela possa ser interpretada ao bel prazer do leitor. A motivação do autor (formada pelo seu contexto histórico e psicológico) deve ser levada em consideração para se entender a mensagem de um texto.

3- Nada é tão universal que possa ser interpretado fora de seu contexto (exceto para o New Criticism que valoriza a ambiguidade e as múltiplas interpretações). Cada autor tem uma motivação própria ao escrever. O contexto histórico e psicológico de cada um é dialeticamente determinante na produção do texto (contexto histórico e condições materiais de existência + subjetividade do autor = poesia).

4- É verdade que a poesia une todas as subjetividades individuais em sentimentos comuns a toda espécie humana, mas isto não significa que o autor entenda a subjetividade de seus leitores. Pelo contrário, o leitor deve se esforçar para entender a subjetividade do autor. Esta tarefa nunca será perfeitamente possível, mas o leitor deve se esforçar para assim apreender pelo menos o essencial de cada texto. Ler é um exercício de empatia e isto devemos colocar em prática também em nossas vidas.

5- Se você escreve poesia, não se iluda pensando que seus leitores o entenderão. A moeda mais válida na poesia é a estética, então, ao escrever, capriche na organização formal e na argumentação. Só assim sua produção textual será considerada bela pelos seus leitores, ainda que seja impossível compreenderem inteiramente a sua subjetividade. Ao escrever, ouse ir aos lugares incomuns de sua consciência, mas faça-o de modo textualmente organizado. O bom texto é original em conteúdo, mas técnico em sua forma.

Em resumo, a leitura requer empatia e prática do leitor. A escrita exige, além de uma boa vivência de mundo, um grande conhecimento das ferramentas linguísticas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Narratologia

Semelhança acidental entre narrativas:

Em a Morfologia do conto de fadas Vladimir Propp verificou que os contos de fadas possuem uma forma monotípica, desde a função das personagens até a construção do conto.  

O antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss redefiniu o trabalho de Propp dizendo que o formalista russo não teria descoberto a morfologia, mas sim a estrutura do conto fantástico. 

A teoria do monomito (a jornada do herói ou ciclo do herói) do mitologista Joseph Campbell mostra que há estágios que se repetem nos mitos de heróis. Podemos inferir, como o nome sugere, que houvesse um mito primordial do qual surgiram todos os outros mitos.  

Os trabalhos de Propp e Campbell fortalecem o conceito de inconsciente coletivo do psicólogo Carl Gustav Jung. Segundo esse conceito, haveria uma reserva de memórias inconscientes compartilhadas por toda a humanidade, daí a semelhança acidental entre as narrativas mitológicas. Jung também estudou os contos infantis e neles verificou a existência de arquétipos do inconsciente coletivo. 

Na Linguística, o conceito de polifonia de Mikhail Bakhtin parte da premissa da ideologia, portanto, a influência de um texto sobre outros não seria algo realizado conscientemente pelos autores, mas sim pelo fato de estes estarem inseridos num contexto ideológico que os influencia. 

O filósofo Friedrich Nietzsche elaborou um conceito (inacabado) conhecido como eterno retorno segundo o qual a vida é limitada por um número restrito de acontecimentos e sensações. Podemos concluir que se isso ocorre no mundo não-diegético, também ocorrerá no diegético, uma vez que este se inspira naquele. 



Semelhança proposital entre narrativas:

O memorando de Vogler, redigido pelo roteirista Christopher Vogler com base nos estudos de Campbell, padronizou a redação de roteiros nos estúdios Disney, criando uma fórmula para narrativas de sucesso. Ou seja, no caso dos filmes da Disney, a semelhança entre as narrativas ficcionais não é mera coincidência.                

 Intertextualidade – Consideraremos como intertextualidade toda vez que um texto faz referência intencional a outro texto, isto é, quando o autor de uma obra mais recente faz, propositalmente, uma alusão a uma obra anterior. A paráfrase, a paródia e a citação são alguns exemplos de intertextualidade.



O monomito de Campbell (inspiração para o memorando de Vogler)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Resenha do livro “Jacques Derrida: literatura, política e tradução”






















FICHA TÉCNICA

Título: Jacques Derrida: literatura, política e tradução
Autor: Marcos Siscar
Editora: Autores Associados
Ano: 2013


Travar contato com o trabalho de Jacques Derrida, um dos filósofos mais polêmicos do séc. XX, é imanente a qualquer professor/pesquisador das áreas humanas, em especial das Ciências Sociais, Literatura e Língua. Este livro apresenta três assuntos que foram objeto de reflexão do filósofo franco-argelino: crítica literária, política e teoria da tradução, três grandes temas que conversam entre si.

O autor é Marcos Siscar, que já havia publicado na França "Jacques Derrida: Rhétorique et philosophie" (1998) sobre o qual Derrida afirmou: "É de uma lucidez, de uma força e de uma novidade sem iguais. Ninguém fez isso ainda". Marcos Siscar é graduado em Letras, doutor em Literatura Francesa pela Universidade de Paris e pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (2003) e Collège International de Philosophie (2008), além de livre-docente (2005). Hoje é professor do departamento de Teoria Literária da Unicamp, pesquisador do CNPq, tradutor e poeta. O belo prefácio é de Mauricio Mendonça Cardozo, graduado em Letras, mestre em Língua e Literatura Alemã e pós-doutor pela Faculdade de Estudos da Tradução da Universidade de Mainz (Germersheim, 2013).

O livro é uma revisão especializada sobre o pensamento de Derrida com enfoque nos três temas citados no título. Como não poderia deixar de ser, a desconstrução é abordada pelo autor. Não obstante, é uma obra composta de artigos que tratam estritamente da filosofia de um pensador do pós-estruturalismo e pós-modernismo, logo, um pensador por vezes tido como hermético, prolixo; de uma reflexão efêmera, relativista, inconclusiva, o que pode desagradar ao leitor desavisado. Por esta razão, a editora e a obra foram felizes ao direcionarem-se a um nicho de leitores acadêmicos, ainda que a leitura estenda seu convite a curiosos da crítica derridiana.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Áreas do conhecimento humano



Há basicamente quatro formas de conhecimento humano: religião, arte, filosofia e ciência. Hoje diferentes entre si, mas historicamente já foram interligadas. Como são formas diferentes de saber, não há como mensurar o valor de uma sobre a outra, logo, cada uma dessas formas possui valor em si.



RELIGIÃO

- Religar-se com o sagrado/ o divino/ o ideal.

- Fundamenta-se na .

- Nasce como uma crença pessoal, posteriormente transmitida a uma coletividade.

- Cria mitos, isto é, parábolas, alegorias e metáforas para explicar a origem do universo e justificar o comportamento humano, os dogmas, rituais e tabus sociais. Todo mito traz traços de intertextualidade com outros mitos ou contêm arquétipos, isto é, símbolos similares. Os mitos são manifestações literárias narrativas vindas da tradição oral e posteriormente escritos. Ou seja, os mitos são exemplos de manifestações artísticas que nascem em função da religião.

- É uma forma de conhecimento, mas não no sentido epistemológico.






ARTE

Etimologicamente, é sinônimo de técnica/saber fazer. Logo, arte é tudo aquilo que é produzido pelo homem. Sintetizando a opinião de Platão com a de Aristóteles, arte é a imitação do mundo natural, mas também é a ação do homem ao expressar a sua humanidade, suas dúvidas e sentimentos diante do mundo natural. Numa definição mais restrita, seriam consideradas como arte apenas aquelas manifestações de valor estético mais apurado, ou seja: música, pintura, escultura, literatura, teatro, dança, arquitetura, cinema.

As artes liberais







FILOSOFIA

- É uma investigação crítica que busca conhecer algo.

- Métodos: empirismo ou racionalismo. Os empiristas partem da observação da natureza. Os racionalistas desconfiam dos sentidos humanos, por isso cultivam a dúvida, logo, buscam outras formas de conhecimento. Porém, há filósofos que fazem uma síntese dialética entre esses métodos antagônicos.

Dialética






















- Fundamento: materialismo ou idealismo. Os materialistas consideram apenas o mundo material, concreto, palpável, visível. Os idealistas levam em consideração ideias que eles entendem como absolutas e fundamentais. 


Platão aponta para o mundo das ideias,
Aristóteles aponta para o mundo visível/palpável.


















- A filosofia é uma manifestação da retórica (a arte de argumentar). Enquanto a filosofia restringe-se a explicar algo apenas por meio de conceitos teóricos, objetivos e universais, a literatura enquanto arte transmite a sua mensagem também por meio de parábolas, alegorias, metáforas, casos específicos e conceitos subjetivos.




Hoje a filosofia se divide em áreas, algumas delas são:


Epistemologia – investiga o que é o conhecimento e como ele é produzido. É por excelência uma forma de metalinguagem, já que usa o pensamento para explicar o que é o pensamento. Por sua natureza, a epistemologia se torna o campo mais importante da filosofia e deve ser a primeira investigação de um filósofo antes de lançar-se em outros campos.

Metafísica/ontologia – estuda o que é o ser e como é a natureza das coisas.

Ética – estuda a moral. Às vezes faz juízo de valor ao tentar definir um modo adequado de se comportar. Busca um valor universal e racional que fundamente o modo de agir, ou seja, busca uma teoria para orientar a prática.

Política – estuda a organização humana em sociedade, mas hoje este campo foi delimitado pela sociologia e pela antropologia.

Estética – questiona o que é o belo e como podemos definir a criatividade. É a filosofia da arte.

Filosofia da linguagem – é um campo que foi ocupado pela linguística, mas esta assumiu um caráter científico (a partir de Saussure) e não mais apenas filosófico.

Lógica – estuda formas de estruturar o pensamento de modo coerente. Propõe fórmulas e denuncia falácias.





  
CIÊNCIA

- Baseia-se no método científico.

- Chega a conclusões a partir de pesquisas metódicas e experiências controladas, isto é, vai muito além do empirismo. A partir da prática científica, surge a teoria e nunca o oposto.

- Busca fatos para confrontar as conclusões a fim de testa-las.

- Não se impõe como uma verdade absoluta e imutável, mas suas conclusões são inteligíveis a qualquer pessoa desde que esta tenha o conhecimento técnico necessário para ler e compreender a linguagem científica.

- Por ser racional assim como a filosofia, a ciência também evita preconceitos (ideias pré-concebidas). Ela parte da dúvida.

- É essencialmente materialista, pois seu objeto de estudo deve ser palpável, observável, testável, verificável.


















Onde se localizam a teoria literária e a crítica literária?

- Área de ciências humanas/ curso de Letras.

- A teoria literária e a crítica literária são atividades científicas enquanto utilizam o método científico para averiguar elementos observáveis como a linguagem. 

Leia: O que é crítica literária?

No entanto, uma parte desse estudo investiga fatos não positivos (fatos não comprováveis), mas sim fenomenológicos. 

Leia: O que é consciência e o que é realidade?

Portanto, esse estudo também depende da epistemologia, método de investigação adotado, interpretação dos dados etc. No geral, as ciências humanas compartilham com a filosofia uma essência retórica.

Leia: O que é dialética?