terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Por que é difícil compor?



Compor um poema não é apenas trabalhar a palavra,
É despir-se diante de Deus e dos olhares do mundo
E mais do que isso,
É olhar-se no espelho encarando as próprias cicatrizes.
É ver manchas invisíveis
E dizer palavras indizíveis.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Definição de literatura



O termo “literatura” (do latim: littera = letra) foi difundido no Romantismo (final do século XVIII e durante o século XIX) para definir a “arte de escrever”. Mas este é ainda um conceito recente. Para entender o que é literatura, precisamos voltar na história.

Com base em Aristóteles (século IV a.C.):

A Física (do grego: physis = natureza) estuda os seres e as ações produzidos pela natureza. Isto é, a ciência do mundo visível.

A Metafísica (do grego: meta physis = além da natureza) estuda os fenômenos existenciais, contingentes e necessários. É a filosofia sobre o Universo de Deus.

A Poesia (do grego: póiesis = fabricação) estuda as ações fabricadas pelos seres humanos. Ou seja, a arte.


O que é arte?

Arte (do latim: ars), (em grego: téchne), significa “saber fazer”. O radical da palavra grega é a origem da palavra “técnica”.

O artista produz “feitiços” e “fetiches” (do latim: facticius = fictício), ou seja, ações que fingem um estado natural, objetos que imitam a natureza.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)

Os gregos antigos usavam o conceito de mimesis que significa “imitação”, “representação”. Por exemplo: um desenho (ou fotografia) de um carneiro imita a aparência de um carneiro, o som de uma flauta imita o pio de um pássaro, a arquitetura de uma casa imita uma caverna, os fogos de artifício (fogos artificiais) imitam o relâmpago e o trovão, o pão produzido pelo homem imita o alimento produzido naturalmente, o ator imita as emoções humanas; a linguagem expressa a psique humana: nossas necessidades, desejos, medos, angústia, pensamentos.

A arte é a humanização do mundo natural. O ato de fabricar (poietike) não é apenas uma questão de sobrevivência, é também o que anima e motiva a manutenção da vida, dando sentido a ela.

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
(Titãs, Comida)

Sendo assim, a literatura (arte de escrever) é a forma como o homem expressa, por meio da linguagem, a sua percepção de mundo e de si mesmo. É o autodescobrimento, numa busca pelo autoconhecimento. Em outras palavras, é a procura e o reencontro do homem com a sua essência humana.

O primeiro estudo do homem que quer ser poeta é o seu próprio conhecimento, inteiro; ele procura a sua alma, a inspeciona, a tenta, a aprende (...) O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos para só guardar as quintessências.
(Arthur Rimbaud, Carta Dita do Vidente,1871).

A demagogia dos tolos sobre o gênio



Uma nova caça às bruxas está se formando. Os “vigilantes da boa-moral”, em nome da ditadura do “politicamente correto” agora estão apontando suas tochas para Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros, sob a alegação de sua obra ser racista.

O ponto não é se ele era racista ou não. Proibir, censurar ou adulterar uma obra literária é o mesmo que omitir a Nossa História. Monteiro Lobato faz parte do nosso passado literário, nossa herança, nosso folclore, nossa identidade como povo brasileiro.

Ora, toda a História Humana tem guerras, escravidão, machismo, racismo... Até a Bíblia tem isso. Monteiro Lobato viveu e retratou um período da História Brasileira. Julgá-lo segundo os paradigmas atuais seria no mínimo injusto (para não dizer burrice). Proibi-lo nas escolas seria tão ridículo quanto proibir a Bíblia nas igrejas sob a alegação de ela conter muita violência em suas páginas.

A arte denuncia a realidade, doa a quem doer. Não importa se a obra é bonita para uns e feia para outros, o importante é que toda obra deve ter o seu espaço respeitado e que a expressão artística seja livre. Sem liberdade de expressão e de opinião, não há debate, não há respeito, não há democracia.

Os demagogos que torçam seus narizes, mas a liberdade de expressão não é discutível nem negociável. Essa é uma coisa da qual a sociedade jamais pode abrir mão. Toda ideia é passível de ser expressa e discutida. Há apenas uma ressalva para isso. Em todo debate, os dois lados devem estar munidos de conhecimento especializado sobre o tema, quando este assim o exige (como é o caso da Literatura). Logo, não há debate entre especialistas e não-especialistas.

A obra de Monteiro Lobato é um exemplo da genialidade literária brasileira. Este é um fato aceito entre estudiosos da área de Letras, portanto, não está em discussão.

Quanto ao racismo? Combatam-no! Ensinem os valores universalmente aceitos! Os livros existem para serem lidos e questionados, mas jamais censurados.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O ato de escrever


“O ato de escrever, antes de tudo é legítimo ato de auto-afirmação.... É rasgar os traços de dependência social e mental. Certamente é um ato de coragem, pois aquelas primeiras palavras parecem nossas; mas as segundas e as seguintes o serão muito mais”. (BERNARDO, p. 38).  

O ato de fazer rascunho, rasgar e refazer é uma tentativa de se libertar da nossa personalidade mais superficial, das ideologias mais cristalizadas em nossa mente, para dar asas a um novo pensamento. 

O processo dialético (escrever, apagar e reescrever) nos conduz à idéia de exposição sincera de nós mesmos. Por isso é um ato de coragem. E a coragem implica no enfrentamento de nossos medos, fobias e tudo aquilo que nos causa aversão. Esta lição serve para o ato de escrever, mas também para toda a vida.

Citação:
BERNARDO, Gustavo. Redação Inquieta. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2000.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Emancipação



O governo não tem poder maior do que o povo que o elegeu. Mas acima de todos, estão as grandes corporações, estas sim têm poder e governam os nossos políticos. O povo vive de joelhos e não se levanta por medo, mas ele não tem nada a perder, só terá que aprender a andar sobre os próprios pés.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Intertextualidade em “Iracema” de José de Alencar


Iracema - tela de José Maria de Medeiros



Paralelo entre Iracema e a história da colonização do Continente Americano 

Iracema é uma índia virgem, cujo nome é um anagrama para "america" (América). Martim é o homem branco com quem Iracema tem sua primeira relação sexual. Esse episódio representa o desbravamento da floresta tropical, da mata atlântica, da natureza ainda "virgem" do Continente Americano. 



Paralelo entre Iracema e a Bíblia (história de Raquel e Jacó) 

Raquel, personagem do Antigo Testamento, deu à luz um menino e chamou-o pelo nome de Ben'onî – que em língua hebraica significa "filho da dor".

Iracema, personagem de Alencar, deu à luz um menino e chamou-o pelo nome de Moacir – que em língua tupi significa "filho da dor".

Por que "filho da dor"? Porque nas duas histórias, a mãe morre pouco depois de dar à luz. Raquel morre no parto, Iracema morre após entregar o seu filho a Martim.

Obs: Mais tarde, o nome Ben'onî (ou Benoni) foi mudado para Benjamin.

A intertextualidade (aproximação) entre Moacir e Benjamin pode ser interpretada como sendo uma tentativa de Alencar de atribuir aos brasileiros a qualidade de “povo escolhido”, assim como os judeus, fazendo-os ambos pertencer a uma mesma casta.



Paralelo entre Iracema e o mito de fundação de Roma

Segundo o mito da fundação de Roma, Rômulo e Remo foram amamentados por uma loba.

No livro Iracema, a índia amamenta seu filho com dificuldade. A amamentação só se torna possível depois que a índia faz com que uma loba sugue o seu seio.

Matim, pai de Moacir, é um guerreiro branco e representa a cultura europeia. O seu nome significa "guerreiro" – derivado do latim – e remete ao deus romano Marte, deus da guerra.

Em resumo, Alencar criou em Iracema uma lenda sobre a origem do Brasil, cujo povo se inicia a partir da miscigenação do índio com o branco. A intertextualidade entre Moacir (em Iracema) e o mito da fundação de Roma é uma tentativa de Alencar de atribuir uma origem lendária (heróica) ao povo brasileiro.

Sendo assim, o romance de Alencar tem características épicas, apesar de ser escrito em prosa.

Cinema com tema: globalização e mercado de trabalho


Quatro ótimos filmes que refletem sobre os problemas do mundo atual.


Casamento à indiana (Monsoon Wedding, 2001)
Mostra a contradição entre as tradições da Índia e o mundo globalizado. Como essas tradições podem resistir aos novos tempos? Um filme sobre valores familiares, como o amor e o perdão, contrapondo-se ao dinheiro e ao avanço do capitalismo.



Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind vorbei, 2004)
No mundo pós-moderno, sem heróis e sem bandeiras, jovens tentam recuperar o espírito revolucionário de épocas passadas, porém, a moral deles não lhes permite cometer as atrocidades daqueles revolucionários mortos. A criatividade é a única arma de que eles querem dispor para mandar sua mensagem, porém, os riscos parecem ser os mesmos. O argumento do filme é uma metáfora sobre a dívida de países pobres com países ricos, dívida esta que permite os ricos exercerem uma economia plena, baseada na exploração do mais fraco.



O que você faria? (El Método, 2005)
Baseado na peça teatral “El Método Grönholm”. A narrativa apresenta-nos um processo seletivo cruel para uma vaga de emprego. Os candidatos submetem-se à humilhação, em provas que beiram o ataque pessoal e a disputa por um emprego. Uma alegoria sobre o mercado de trabalho globalizado.



O Corte (Le Couperet, 2005)
O filme traz muitas reflexões sobre a loucura do mercado de trabalho do mundo contemporâneo. O desemprego leva um pai de família ao desespero e à beira da insanidade. Para resgatar sua antiga vida ele é capaz de tudo, mas será que seus fins justificam os meios?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Jim Morrison - poeta do rock

Ontem, dia 3 de julho, foi aniversário da morte de Jim Morrison, poeta e vocalista da banda The Doors.  Por isso publico aqui novamente um trecho do que escrevi no dia 3 de setembro de 2011, na postagem “Alteregos” sobre o poeta do rock.

O tecladista Ray Manzarek (do grupo The Doors) afirmou que Jim Morrison teria desenvolvido duas personalidades:

Jim – poeta criativo, amigo, divertido, contagiante, inteligente.
Jimbo – alcoólatra, sarcástico, autoconfiante, agitador das multidões.

Na adolescência, Morrison recebeu uma correspondência escolar que o descrevia como sendo um jovem tímido e centrado em si mesmo.

Ele fez testes de QI na escola e obteve a pontuação de 149. Na classificação proposta por Lewis Terman, o QI acima de 140 denota genialidade. Na classificação, originalmente proposta por Davis Wechsler, o QI acima de 127 denota superdotação.

Esse garoto, leitor de Nietzsche e Rimbaud, quando começou a se apresentar era tão inseguro que não conseguia encarar a platéia de frente, preferindo cantar com os olhos fixos na banda e de costas para o público. Ele nunca teve treinamento vocal.

Mas Jim passou por uma metamorfose. Incorporando um índio num ritual xamanístico, ou drogando-se cada vez mais, fato é que Jim foi aos poucos se tornando Jimbo.

O cantor referiu a si mesmo na música L.A. Woman como Mr. Mojo (na língua inglesa, mojo é uma gíria para libido ou charme). Morrison repetia insistentemente os versos: “Mr. Mojo risin” que numa tradução livre seria algo como “O Sr. Garanhão está ressurgindo”. Repare que esse verso é um anagrama perfeito do nome “Jim Morrison”.

Ray Manzarek, que era adepto da meditação, disse ter visto a energia psíquica de Jim deixar o seu corpo. Isso aconteceu na última apresentação da banda ao vivo.

Jim Morrison, autor de livros de poesia e vocalista dos Doors, morreu em Paris, com 27 anos de idade. Pouco antes dele foram Jimi Hendix e Janis Joplin, também aos 27.

The Doors:
Robby Krieger – guitarrista com formação de música flamenca.
John Densmore – baterista de jazz.
Jim Morrison – poeta e amigo de Ray na faculdade de cinema.
Ray Manzarek – tecladista e pianista com formação clássica.

 
Jim e a sua face oculta (Jimbo).
















O poeta também chamado de "Lizard King".




















Jim Morrison: 1943 a 1971




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Beatles e a contracultura (fotos)

Em comum, todos questionam os valores da sociedade burguesa.

Beatnik (final da década de 1950. )
Expressão na literatura, música e artes visuais.



















Influenciados pelos beatniks

























Hippie (de 1967 até a metade da década de 1970. )
Orientalismo, meditação, autoconhecimento, liberdade sexual, paz e amor.



















The Beatles: heróis da geração hippie.




















Punk (final da década de 1970. )
Um novo conceito de anarquia: antiformal, antifilosófico, anti-acadêmico... 
Apenas anárquico.

Ramones: influenciados pelos Beatles e o som da déc. de 1950.








 





Grunge (início da década de 1990.)
A denúncia de uma geração sem heróis a serem seguidos, sem valores a serem defendidos, uma guerra interna contra o sentimento de se sentir sozinho em meio a uma multidão.  



Geração embalada pelo Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains...
















  












Influenciados pelos Beatles e os punks















Beatles: influenciando gerações

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Linguagem poética, comunicação e magia

Atente para este fato: a linguagem literária cria metáforas e outras figuras de pensamento que determinam novas maneiras de ver e perceber o mundo a nossa volta. Ora, não posso imaginar uma linguagem mais técnica e ao mesmo tempo mais emotiva do que essa, em especial, a poesia.

A linguagem poética parece ser, dentre as formas de expressão verbal, a que mais exige da nossa capacidade de interpretação. Talvez seja o mais alto grau de técnica aliada a sentimento. Até o pensamento mais subjetivo pode ser entendido quando expressado poeticamente. Até o sentimento mais incomunicável pode se tornar em verbo no fazer poético.

A subjetividade poética extrapola a suposta objetividade da filosofia e da ciência. Isso porque a linguagem objetiva não dá conta de exprimir toda a paixão humana, todo o desejo, todo o medo, toda a raiva, toda a tristeza e toda a alegria. A linguagem poética é o dom que torna a comunicação de sentimentos possível.

Não se pode falar em comunicação sem falar em poesia. Hoje chega a ser difícil dizer quem veio primeiro: o sentimento humano ou a poesia. Será que seríamos capazes de sentir emoções complexas sem uma linguagem poética que desse conta de traduzir isso para o pensamento? Certamente não seríamos capazes de expressar algo assim sem a “Pena” ou a “Lira”. Estas já habitavam o coração, a alma e o cérebro dos nossos antepassados mesmo antes de terem sido inventadas concretamente. Sem essas ferramentas interiores, eles não teriam inventado nada, se quer uma língua!

A palavra só ganha significado quando é referente a um pensamento e a um sentimento. Porém, o pensamento abstrato só pode ser visível para a imaginação depois de se transformar em um neologismo ou em uma alegoria. O sentimento, antes incomunicável, se transforma em metáfora e esta se torna uma visão de mundo. Este é o berço da realidade como a percebemos.

Contudo, além da linguagem, há algo de mágico que acontece em toda tentativa de comunicação. Não é possível haver entendimento entre duas pessoas, ou compreensão do texto pelo leitor, se não houver uma conexão mágica entre as duas pontas do processo de comunicação. E esta conexão vai além de qualquer linguagem, mensagem e canal. Mesmo a poesia mais bem trabalhada não pode ser entendida por alguém que não se conecte ao fio mágico que passa por trás da linguagem. Um exemplo: este texto é um monte de afirmações inúteis e não passa de baboseiras para aqueles que não são apaixonados por poesia. Eles não entenderão a minha tentativa de comunicação (e a comunicação é sempre uma tentativa).

Acho que a magia a que me refiro pode ser definida por substantivos como amor e empatia e verbos como cativar. Logo, tais sentimentos deviam existir antes de haver uma linguagem poética, mas, paradoxalmente, não existiam.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Aberrações da mídia opinando sobre Educação e Língua Portuguesa

Assista ao vídeo com muita atenção:





 Após assistir ao vídeo, observe estes detalhes.

1 - O livro didático aprovado pelo MEC (do qual eles falam na matéria jornalística) ensina a gramática tradicional, normativa, com todas as regras e exceções que estudamos no segundo grau. Apenas em um pequeno trecho de um capítulo, o livro menciona a variação linguística. Mas os jornalistas falam do livro como se ele ensinasse a "língua errada" em todos os capítulos.


2 - Os argumentos do jornalista Alexandre Garcia manipulam a realidade dos fatos.

Fato: as aprovações "automáticas" em escolas públicas não acontecem para "evitar o constrangimento do aluno". A verdade é que o número de vagas é limitado. Todos os anos é preciso criar vagas para novos alunos. Como as escolas não têm vagas, elas aprovam todos os que lá estudam, logo, alguns deles subirão de série e outros se formarão e sairão da escola. Assim são criadas as vagas para os novos estudantes que chegarão. Este é o real problema, mas Alexandre Garcia não enxerga isso, e pior, ele culpa a qualidade de ensino.

Os exemplos citados por Alexandre Garcia (Coreia do Sul e China) realmente ilustram uma alta qualidade de educação. Porém, falar em variação linguística na escola não diminui em nada a qualidade da educação, pelo contrário. O jornalista é tão leigo no assunto, que desconhece o fato de que a variação linguística já é estudada em todo o mundo há décadas. Isso começou nos EUA, na década de 1960. Não duvide que a variação linguística também é estudada na Coreia, China, Japão, Reino Unido, Noruega etc.

O jornalista desconhece o significado do termo "preconceito linguístico", mas fala como se conhecesse. Alexandre ignora que a linguagem usada por ele não é o "padrão" que ele mesmo defende. Ele condena tanto o "erro" e não nota os próprios "erros" que costuma cometer em vários de seus comentários.


3 - O "especialista" convidado para a entrevista, o professor Sérgio Nogueira, não é especialista em Linguística. Pelo contrário, ele é um professor tradicionalista e muito conhecido entre os acadêmicos por combater a Linguística Moderna. Como professor, ele deveria se atualizar das pesquisas recentes e valorizar a opinião de acadêmicos (pesquisadores e cientistas da língua) ao invés de ignorá-los e até criticá-los.

Nogueira começa dizendo que Alexandre Garcia “foi brilhante em sua fala” e depois até manda um “abraço para ele”.

Contudo, mesmo sendo tradicionalista, às vezes, Nogueira tem algumas opiniões positivas sobre a variação linguística (ou seja, ele não é tão radical). Mas repare que quando ele começa a defender a variação linguística dizendo "as variações linguísticas são valorizadas, até aí tudo bem" e "ensinar os alunos a não serem preconceituosos é função de todo professor" a jornalista o interrompe. Ou seja, a fala do "especialista convidado" já não atende aos interesses, já não serve para o jornal.


4- A jornalista ao interromper o professor diz "gostaríamos de mostrar às pessoas que estão em casa o que está nesse livro aprovado pelo MEC". Isto é uma tentativa de persuadir (emocionalmente) a opinião do telespectador, fazendo-o concordar com a opinião do jornal, ou seja, a opinião de que o livro ensina “português errado e isto é um absurdo”.

Quem conhece o livro nota imediatamente que o exemplo mostrado no jornal está totalmente fora de contexto. Eles suprimiram várias partes importantes, fazendo o telespectador crer que o livro é aquilo mesmo. Note que o livro real NÃO é mostrado, o que é mostrado é uma imagem manipulada, feita em computador.

O professor cita de forma elogiosa o Soletrando (quadro do programa de Luciano Huck, na Rede Globo). No final o professor também elogia a linguagem da Rede Globo classificando-a como "linguagem padrão". Fazendo isso, ele supervaloriza a linguagem do Sudeste (especialmente RJ e SP) e desqualifica todas as outras linguagens do Brasil.

Ora, um professor que elogia tanto assim a Rede Globo, obviamente seria o convidado perfeito. Ele não foi convidado para estar ali por acaso. Sérgio Nogueira é consultor da emissora carioca. Ou seja, ele é pago pela Rede Globo, logo, seu ponto de vista não é nada imparcial.

Um doutor em Linguística (que recebe seu salário de uma Universidade Federal) nunca estaria naquela cadeira como convidado. Este sim, poderia emitir uma opinião bem embasada e imparcial, sem comprometimento com a emissora.

Especialistas de verdade são os acadêmicos (pesquisadores e cientistas) e não consultores de jornais.


Abaixo, envio links para textos de Marcos Bagno (Doutor em Filologia e Língua Portuguesa, Linguísta, tradutor, escritor e professor da Universidade de Brasília).

Besteirol midiático:
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=926


Carta para a revista Veja:
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=39


Nada na língua é por acaso:

http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=37



quarta-feira, 18 de abril de 2012

A função do mito

O mundo atual, quando visto a partir de uma perspectiva etnocêntrica, é encarado como sendo lógico, racional, consciente e científico. Tal ponto de vista atribui apenas às “sociedades primitivas” a criação dos mitos. O erro aí é crer que os mitos não permeiam nosso mundo atual e, além disso, julgar que a nossa consciência individual é impermeável ao inconsciente coletivo.

Os mitos não constituem uma verdade científica, porém, não podem ser encarados como uma mentira. Alguns mitos aludem à natureza humana, proporcionando uma visão legítima da nossa condição de vida e um ponto de vista crítico sobre a nossa essência humana e animal.

Portanto, o conhecimento e interpretação dos mitos nos levam a muitas descobertas sobre nós mesmos enquanto seres racionais e emocionais. Exemplo disso é a linguagem simbólica dos sonhos. Esta é construída numa lógica muito semelhante à do mito, mostrando que o inconsciente individual e o inconsciente coletivo estão, de alguma forma, relacionados.

Outros mitos tentam justificar ou explicar a nossa organização social, a moral vigente, os tabus e certos padrões de comportamento. Não há como não fazer um paralelo entre mito e ideologia, ou mito e história. Ora, frequentemente, a História Oficial não passa de uma exaltação do vencedor sobre o vencido, ou ainda, de um conto para enaltecer a origem de um povo. Neste caso, a História deixa de ser ciência e passa a ser um aparelho ideológico do Estado. E não só a História, mas muitas outras ciências se corrompem em métodos pseudocientíficos, visando um ideal político ou religioso. E isso não é observado apenas nas ciências. Refiro-me agora à imprensa: o jornalismo, infelizmente, é a maior fábrica de “mitos”, sendo sempre parcial, visando interesses econômicos próprios. Neste caso, uso “mito” (entre aspas) para indicar que estou me referindo a outra concepção de mito. O mito não é uma mentira, ele é literário (de tradição oral), simbólico, utiliza-se do maravilhoso para expressar algo além do entendimento puramente racional. Já o “mito” é sinônimo de mentira, manipulação, ocultação da verdade. Ironicamente, os “mitos” criados pela imprensa, pela pseudociência e, algumas vezes pela História, recebem mais crédito do que os mitos literários.

Muitos mitos são alegorias sobre nossa condição humana e nossa relação com o mundo. Assim como as parábolas, os mitos têm o poder de nos fazer enxergar mais além, logo, eles podem ser mais poderosos do que proposições filosóficas e fatos científicos.

Entretanto, na nossa sociedade, cada tipo de conhecimento tem seu valor e lugar específico: o mito, a filosofia, a ciência. Até mesmo o jornalismo e a publicidade têm sua importância, aliás, enorme, já que a mídia é a maior formadora de opinião do nosso tempo (ou será a religião?). Tirando o fanatismo míope de algumas crenças, a religião é uma forma importantíssima de conhecimento. A religião, quando bem aplicada, só edifica.

Contudo, ainda considero a arte como a expressão mais sábia e sincera de conhecimento técnico, racional e emocional. Dentre todas as formas de conhecimento, apenas duas considero como necessidades inatas e indispensáveis ao homem: a arte e a filosofia. E incluo também a fé, mas não como um tipo de conhecimento, e sim como uma virtude.

Em resumo, o mito é um olhar para além da realidade. E o que é a realidade? Esta, talvez, nunca poderemos conhecer em si, porque o limite da ciência é a condição humana. O limite da condição humana é sua subjetividade intransponível. Mas o limite para a imaginação é o infinito.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Etnocentrismo versus Relativismo cultural


Etnocentrismo

Relativismo cultural
Preconceitos (pré-julgamentos)

Sem juízo de valor
Imposição da subjetividade
(impõe crenças e gostos pessoais)

Busca pela objetividade
(tenta ser imparcial)
Dicotomia:
 civilização x bárbaros (primitivos)

Não há dicotomia
(há empatia pela cultura do outro)
Pseudocientífico
(pesquisa contaminada pela visão parcial)

Científico e filosófico
(pesquisa factual, verificável, demonstrável)
Moralista (senso-comum)
Ética (filosófica)

Visão dogmática
(impondo dogmas pessoais para julgar o outro)
Visão humanista
(busca entender, sem julgar os dogmas do outro)

Impõe a “língua padrão”

Aceita a variação linguística

Racismo, extremismo, fanatismo e intolerância.

Empatia

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ciência versus pseudociência


 
Ciência
Pseudociência

Observação

Observação

Hipóteses

Hipóteses

Experimentação
Teoria
▼ (dúvidas, críticas, confrontação)
Experimentação


Não há críticas;
Não há confrontação.



Lei (pode ser questionada)


Lei



Ciência

Pseudociência

Testa e confronta a teoria frequentemente;

Testa a teoria já se sabendo de antemão o resultado;

Busca fatos e exemplos que confrontem a teoria;

Recusa fatos e exemplos que confrontam a lei;

Utiliza a experiência para confrontar a teoria;

Adapta a experiência para confirmar a própria teoria;

Retira da experiência exemplos factuais (verificáveis).
Adapta os exemplos para confirmar a própria teoria/lei.


Exemplo:


















Epistemologia:
  

domingo, 15 de abril de 2012

O que é consciência e o que é realidade?


A consciência na filosofia ocidental

A Fenomenologia de Edmund Husserl (1859 – 1938):
O matemático alemão dizia que a consciência dá sentido às coisas, mas ela não revela a realidade das coisas, ela apenas funciona como um sistema de significações que dependem da estrutura da própria consciência.

Para Husserl, a intenção do observador (ou a intencionalidade) define a forma de atuação dos processos mentais, logo, tornando a percepção sempre subjetiva.

Na Grécia Antiga...
 O filósofo Platão (428 – 347 a.C.), em sua alegoria da caverna, mostra que toda humanidade vive num mundo de aparências e que esta humanidade não contempla o mundo real, mas apenas “as sombras” deste mundo.


A consciência no pensamento oriental

O pensador chinês Wang Yangming (1472 – 1529) ensinava que os objetos não existem inteiramente separados da mente porque é a mente que os dá forma. A mente dá razão ao mundo.

O taoísta Chuang Tzu (séc. IV a.C.) certa vez sonhou que era uma borboleta. Depois ele se perguntou: sou um homem que sonhou ser borboleta, ou sou uma borboleta que agora sonha ser um homem?



Resumindo...

A consciência é formada por: nossa condição biológica humana, nosso estado psíquico (nossos desejos, nossos medos), nossa angústia existencial, nosso histórico de vida (experiências e traumas), nossa criação familiar, os dogmas e tabus sociais e religiosos, a cultura, a linguagem e a ideologia (a superestrutura).

Por isso, nós não conhecemos a realidade em si, mas a realidade tal como aparece para nós, estruturada e organizada pela nossa consciência.