segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O estilo de Morrissey e The Smiths

Steven Patrick Morrissey foi o vocalista que junto ao guitarrista Johnny Marr compôs todas as músicas da banda inglesa The Smiths (formada em Manchester). O grupo esteve ativo entre 1982 e 1987, depois de desfeito, Morrissey lançou-se em carreira solo e assim permanece até hoje, tendo realizado shows no Brasil em novembro de 2015. Ele rejeita qualquer possibilidade de reunir o seu antigo grupo, mas tanto ele quanto Johnny Marr, também em carreira solo, cantam as músicas dos Smiths em seus shows, agregando material próprio.

Principais características de Morrissey como letrista:

- Sarcasmo: letras cheias de humor mordaz que dão a falsa impressão de serem depressivas ou violentas, quando são, na maioria, apenas irônicas, mas de uma ironia cáustica.

- Vocabulário incomum: faz questão de palavras que não se usam no cotidiano da língua inglesa. Também, às vezes, construções sintáticas ou semânticas pouco usuais, como por exemplo, a palavra “handsome” que para ele é sem gênero, como afirmou uma vez. Gosta de palavras “antigas” e justifica isso quando canta: “Veja como as palavras tão antigas quanto o pecado se encaixam em mim como uma luva” (música: The hand that rocks the cradle).

- Discurso sem gênero: ele prefere fazer letras sem especificações de gênero para que o público, masculino e feminino, se interesse e se identifique. Mas isso não é uma regra.

- Sem rimas: nem sempre faz questão de rimar os finais das palavras, demonstra mais preocupação com o conteúdo do que com a forma.

- Discurso direto: ainda que use metáforas, não é muito simbólico nem fantasioso. Sua poesia “toca na ferida”; é provocante, causa impacto ao ponto de gerar admiração ou rejeição imediata. É uma poesia corajosa, desnudada, sem receios de julgamento, simples e feroz, sentimental e indiferente, de estilo ousado e marcante.

- Temas recorrentes nas letras dos Smiths: as relações amorosas, a timidez, a morte (às vezes, desejando-a), a política (em especial a crítica à monarquia inglesa), a violência (na escola, no futebol, no cotidiano; contra os animais, contra a mulher etc).

Sua vida pessoal influencia grandemente o conteúdo das letras. Algumas delas remetem a experiências traumáticas vividas no período escolar e infância, exemplos são “The headmaster ritual” e “Barbarism begins at home”. Morrissey é vegetariano e defensor dos animais (Meat is Murder é um dos discos mais célebres dos Smiths). Também é um crítico ácido da família real inglesa e de outras personalidades políticas (The Queen is Dead é outro álbum célebre da banda). Sua sexualidade é especulada até hoje (Morrissey atualmente tem 56 anos), mas tudo o que se lê ou se ouve sobre esse assunto ainda provoca mais dúvidas. Por exemplo, ele já se declarou celibatário nos anos 80 e em 2013 afirmou: “sou humanossexual – sinto atração por seres humanos, mas não muitos”. Tudo parece misterioso e incomum em sua vida particular, mas sua poesia gera uma notável identificação ou admiração nas pessoas. Os shows de Morrissey ficaram célebres devido ao número incrível de pessoas que constantemente invadem o palco para tocá-lo. Seu nome é cantado em coro pelo público como os hinos de times ingleses de futebol.

Principais influências de Morrissey
Literária: o escritor irlandês Oscar Wilde (Morrissey é um leitor ávido de literatura);
Musical: a banda de punk rock New York Dolls

Principais influenciados
A Legião Urbana, grupo de rock brasileiro surgido na década de 1980. É possível notar claramente a influência de Johnny Marr na guitarra de Dado Villa-Lobos, mais ainda a influência de Morrissey no estilo de Renato Russo. Todavia, o fundador da Legião Urbana soube criar um estilo próprio a partir de várias influências (desde os Beatles até o punk rock) e foi brilhante como compositor e vocalista.

Obs: Vale dizer que o estilo de Marr na guitarra Rickenbacker foi influenciado pelo som dos anos 60, em especial da banda americana The Byrds e das guitarras de George Harrison no início dos Beatles. Sua batida às vezes lembra o Creedence Clearwater Revival. No lugar das distorções pesadas, Marr optou por ser um guitarrista sutil, agregando sentimento e energia às letras de Morrissey.

Outros fãs conhecidos dos Smiths: o cantor e compositor Cazuza (falecido em 1990), Noel Gallangher (outro famoso beatlemaníaco, guitarrista e compositor da banda inglesa Oasis), Radiohead (outra banda inglesa), The Cranberries (banda irlandesa), Smashing Pumpkins (banda americana), The Pretenders (banda inglesa), Bono Vox (vocalista do U2), a escritora J.K. Rowling (notória autora dos livros de Harry Potter), Belle & Sebastian (banda escocesa), entre outros.

Por que "The Smiths"? Segundo o próprio vocalista, o nome da banda foi definido assim porque “Smiths é um sobrenome comum (na Inglaterra) e é hora das pessoas comuns mostrarem a sua cara”. Ironicamente, as capas dos discos nunca traziam fotos de pessoas comuns ou da própria banda, mas sempre celebridades do cinema como James Dean, Elvis Presley entre outros atores e atrizes do gosto de Morrissey.


Citações de trechos de suas letras com The Smiths:

“Uma cama de casal e um(a) amante vigoroso(a) são as riquezas do pobre”
(I want the one I can’t have)

"Então eu encontro você nos portões do cemitério. Keats e Yeats estão do seu lado, enquanto Wilde está do meu... Gravemente lemos as lápides. Todas estas pessoas, todas estas vidas, onde estão agora?... Você diz: "Aqui três vezes o sol prestou saudação à aurora" E você alega que estas palavras são suas, mas eu sou muito instruído e já as ouvi uma centena de vezes... Se você tem que escrever prosa/poesia as palavras usadas devem ser as suas próprias. Não plagie ou pegue emprestado, porque há sempre alguém em algum lugar que é narigudo e sabe" (Cemetery Gates)

"Quando você ri de pessoas que se sentem tão sozinhas que o único desejo delas é morrer, eu lamento que isso não me faz sorrir. Eu queria poder rir, mas essa piada perdeu a graça” 
(That joke isn't funny anymore)

“Cante para eu dormir e depois me deixe sozinho. Não tente me acordar de manhã, porque eu terei partido. Não se sinta mal por mim” (Asleep)

“E se um ônibus de dois andares colidisse em nós: morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer!” (There’s a light that never goes out)

“Eu gostaria de sair hoje à noite, mas não tenho um trapo para vestir. E aquele homem disse: - é horrível que alguém tão bonito(a) ligue para isso” (This charming man)

“Bons tempos, só pra variar. Entenda, a sorte que eu venho tendo pode fazer um homem bom se tornar mau” (Please Please Please let me get what I want)

“E ela disse: - Eu fumo porque estou ansiando por uma morte precoce e eu preciso me agarrar a algo” (What she said)

“Eu sei que acabou e na verdade nunca começou, mas em meu coração era tão real. E você até falou comigo e disse: - Se você é tão engraçado, então por que está sozinho à noite? E se você é tão esperto, por que está sozinho à noite? E se você é tão divertido, por que está sozinho à noite? E se você é tão bonito, então por que dorme sozinho hoje à noite? - Eu sei, porque essa noite é exatamente como todas as outras noites” (I know it’s over)

“Noite passada eu sonhei que alguém me amava. Nenhuma esperança, nenhum dano, apenas um alarme falso” (Last night I dreamt that somebody loved me)

“Eu sou o filho e o herdeiro de uma timidez que é criminosamente vulgar”
(How soon is now?)

“A timidez é legal, mas a timidez pode te impedir de fazer todas as coisas que você gostaria de fazer na vida. Ser reservado é legal, mas ser reservado pode te impedir de fazer todas as coisas que você gostaria de fazer na vida” (Ask)

“Você tinha que invadir furtivamente meu quarto apenas para ler o meu diário, só para ver, só para ver todas as coisas que você sabia que eu tinha escrito sobre você” (Suedehead)

* Todas letras citadas são de canções dos Smiths, exceto Suedehead que é do álbum de estreia de Morrissey em carreira solo (1988).

Vistas assim, fora de contexto, as letras expressam muita tristeza, revolta e sentimentos depressivos/violentos, mas, como eu disse, há também uma ironia aí. Isso fica mais claro em canções como “Sweet and tender Hooligan” e “Bigmouth strikes again”. Na primeira ele critica os hooligans (torcedores violentos) e na segunda denuncia o homem que bate em mulher, mas para fazer isso de modo majestosamente poético, ele ironicamente assume um eu lírico que toma o ponto de vista de quem está sendo criticado/denunciado e assim expõe as fraquezas e contradições de seus alvos de crítica. Em outras canções com teor mais autobiográfico o compositor consegue transpor sentimentos e imagens comuns para envolver o público na sua poesia, fazendo o sentimento de um se assemelhar ao sentimento de todos. Não só pelas letras, mas Morrissey também cativa o público tocando-o na mão, chamando ao palco, dançando loucamente, fazendo caretas e interpretando a canção com o sentimento que tiver disponível no momento da apresentação.

Outros exemplos de sua ironia são vistas nas canções “Shoplifters of the world” e “Panic”. Na primeira ele modifica a célebre expressão marxista “Trabalhadores do mundo, uni-vos” substituindo “trabalhadores” por “ladrões de loja” (como metáfora). E em “Panic” ele se utiliza de uma expressão idiomática inglesa: hang the DJ, isto é, “enforque o DJ, porque a música que eles tocam não diz nada sobre a minha vida” (na verdade, mais do que uma crítica à discoteca, denuncia o seu próprio desajuste social, o que o leva ao pânico/fobia social numa época conturbada – Inglaterra, anos 80).

Em suma, o eu lírico/poético de Morrissey deve ser interpretado com cuidado, melhor ainda, compreendido antes de qualquer conclusão. Quanto ao seu eu de carne e osso, este parece que morrerá como viveu: misterioso, recluso, polêmico, mas inofensivo até onde se sabe.

Ainda sobre The Smiths, vale destacar a óbvia genialidade e criatividade do guitarrista para bolar bases musicais, a perícia do baixista ao fazer seu instrumento se destacar em quase todas as faixas, dando-as um brilho refinado, e o entrosamento do baterista ao adaptar-se a qualquer estilo, mostrando versatilidade e energia rítmica.

Morrissey – voz e composições (melodia e letra)
Johnny Marr – guitarra e composições (base musical, harmonia etc)
Andy Rourke – baixo
Mike Joyce – bateria

Apesar de todas as composições dos Smiths serem atribuídas a Morrissey e Marr em parceria, Rourke e Joyce contribuíram valorosamente para os arranjos musicais na parte do baixo e da bateria. É evidente que Morrissey era o gênio por traz das letras e carisma da banda, enquanto Marr o gênio musical, um guitarrista que não se preocupava com longos solos, mas seus arpejos preenchiam todos os espaços possíveis soando como um quarteto de cordas, valorizando a voz grave de Morrissey. Mas não seria a mesma coisa sem o baixo de Rourke, que não se limitava em marcar a nota do acorde nem a fazer riffs (imitando a guitarra), mas procurava preencher espaços onde a guitarra não poderia estar, enquanto a bateria de Joyce com seu sonoro bumbo se encaixava perfeitamente a tudo. Estes últimos elementos fizeram toda a diferença no som da banda.

The Smiths foi um daqueles poucos grupos que não se encaixava numa tendência musical, eles arriscavam e criavam suas próprias. Seu estilo é único e facilmente reconhecível. Embora identificado como rock independente, alternativo, pós-punk, não soava como a nenhuma outra banda da época.

Da esq para dir: Rourke, Morrissey, Joyce e Marr (The Smiths)















A paixão de Morrissey por animais














Cazuza - fã dos Smiths

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Discurso, macacos e literatura

O signo linguístico é ideológico. Ele nasce a partir de um contexto temporal (histórico), espacial (geográfico), social, político, econômico e cultural. Também a comunicação é ideológica, porque, da mesma forma, nasce a partir de um lugar, uma história, um contexto, logo, é discurso.

Para entender melhor o conceito de ideologia, leia aqui a publicação de 30 de julho de 2015.

Visando a explicar didaticamente o conceito de discurso, proponho um exemplo imagético.  Numa árvore repleta de macacos, cada qual vivendo fixamente sobre um galho, cada macaco aponta e expressa ideias sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore. O galho representa o contexto histórico-geográfico-político-econômico-cultural diferenciado a que cada macaco pertence. O galho, portanto, determina a estrutura moral, cultural e emocional do macaco. A ideia que cada um faz sobre o galho do outro ou sobre toda a árvore é o discurso. A árvore é a superestrutura histórico-geográfica na qual os macacos estão inseridos e por ela são determinados e condicionados. O conjunto de ideias expressadas é a superestrutura ideológica: moral-política-religiosa-cultural. Este conjunto de ideias (a ideologia) rege a consciência daqueles seres, ou seja, a forma de pensar sobre si e sobre o mundo e de se expressar, porém, limitados pelo paradigma da superestrutura: a árvore em que habitam.

A filosofia de Sócrates, o materialismo histórico dialético e a psicanálise contribuem respectivamente para que cada macaco perceba: 1- a própria ignorância sobre a árvore como um todo e a insustentabilidade de seus argumentos ao analisar o galho alheio do ponto de vista de seu próprio galho; 2- a necessidade de pensar criticamente para além da árvore, entendendo como ela determina e condiciona o discurso e o modo de viver; 3- a fragilidade de seu próprio galho, o qual enganosamente o macaco considera ser rígido o suficiente para sustenta-lo para sempre (neste caso, o galho representando a relação entre o sistema de valores morais e as emoções do primata).

Porém, mesmo com todas as filosofias, as teorias críticas, as ciências, a psicanálise e as psicologias, o macaco não pode enxergar muito além de seu próprio galho, tampouco contemplar toda a árvore do galho em que ele está desde quando nasceu, onde ele mora hoje e lá um dia morrerá. Ainda que o macaco seja muito crítico, ele não pode erguer o próprio galho onde ele se senta, o qual sustenta seu corpo, muito menos erguer ou derrubar a árvore sem descer de seu galho. O contexto pré-determinado de seu nascimento (o galho) e a superestrutura (a árvore) são uma conditio sine qua non da existência do macaco (considerando que todo o seu mundo é uma árvore e seu galho é uma parte desse mundo). Portanto, a visão desses macacos imagéticos é ad infinitum ideológica e o que eles expressam é discurso.

Além disso, a consciência deles está reduzida a uma visão parcial sobre o todo. Esta lacuna é necessariamente preenchida pela especulação, religião e expressões artísticas.

O signo linguístico é ideológico. Mas a língua na literatura não é mais um discurso ou “o Discurso” sobre moral, estética, sociedade, amor etc. Este papel de insucesso cabe às ciências, filosofias etc. A literatura, como todo o resto, também é ideológica, mas o seu papel não é (ou não pode ser) o de criar discursos, mas sim, apenas ser, existir, mostrar-se, estar o quanto tiver de estar, ser infinita enquanto dure e assumir sua efemeridade por ser apenas expressão fiel de emoções momentâneas (e comuns a todos, por isso eternas), sem a intenção de ser uma verdade ou a Verdade, o que a colocaria como mero discurso, mas, ao contrário, sendo assumidamente uma ficção sobre tudo – o ser, a sociedade e o mundo –, tendo como ferramenta de trabalho todas as ciências, filosofias e religiões. A literatura, pelo menos enquanto catarse poética e solitária, assume para si o papel de ser uma ironia do discurso, não sendo mais um discurso ou antidiscurso, mas apenas uma ironia que não pretende mais do que ornar sua própria ironia, como uma macaca que se enfeita sem se interessar por nenhum macaco.

A função das ciências é muito objetiva: a manutenção da vida. A função das artes, religiões, filosofias e teorias da psique é dar um sentido a tudo, nem que seja pelo discurso, ou ao menos entreter e desmemoriar os primatas superiores de sua angústia existencial.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Estilística e Estilo


Cada sujeito tem características que o torna único, seja na forma de se comunicar, comportar-se ou vestir-se. Popularmente, chamamos de estilo a esses aspectos singulares que transformam esse sujeito em um indivíduo destacado dos outros sujeitos sociais.

Porém, quando o assunto é a linguagem, adentramos no campo da Estilística, o ramo de estudos linguísticos que, como o próprio nome entrega, trata de entender o estilo de linguagem, suas peculiaridades, recursos e finalidade.

Dos ramos da Estilística podemos destacar a Estilística da Língua, que estuda a expressão diferenciada ou marcante na fala e escrita; e a Estilística Literária, que estuda os estilos de época, corrente literária, figuras de linguagem, autor e obra.

A Estilística verifica processos expressivos de natureza fonológica, morfológica, sintática e semântica que conferem singularidade ao texto. Assim, temos que considerar uma fonoestilística, que trata dos valores expressivos de natureza sonora; uma morfoestilística, que estuda a construção de palavras; uma estilística sintática, que analisa a construção de enunciados e uma estilística semântica, que examina os significados expressos nos enunciados.


Jales Amaral¹


A Estilística também pode analisar o estilo de um autor e de uma obra. Cada escrita contém marcas específicas que o autor imprime sem perceber, isto significa que a sua forma natural de se expressar pode conter traços que para ele talvez sejam imperceptíveis, mas que para o olhar aguçado de um especialista esses “traços” são claramente identificáveis como marcas de estilo. Há também aqueles autores geniais que conseguem imprimir propositalmente um estilo em um texto, calculando cada palavra para gerar aquela impressão específica no enunciado. Por exemplo, pode-se citar aqui o poeta Fernando Pessoa, seu ortônimo e heterônimos. Ao ler um de seus poemas, pode-se identificar qual de seus heterônimos o escreveu, sem que para isso necessite ver o nome do autor, mas baseando-se apenas no estilo de sua escrita.

A partir do estudo da Estilística o especialista pode chegar a várias respostas sobre questões literárias e linguísticas, o que auxiliam no aperfeiçoamento e enriquecimento dos estudos sobre língua e linguagens.


Érilly Maria Ferraz²

_________________________________________________________________________________

¹ e ² Estudantes de Letras Português-Inglês (faculdade Multivix, unidade Serra-ES).


Trechos de trabalhos apresentados à disciplina de Estilística, 2015/2.
Orientação e revisão: prof. Renan.

domingo, 22 de novembro de 2015

Poesia, música e musa

Os poetas antigos cantavam seus versos de cor. A expressão "saber de cor" significa "saber de coração" (cor = coração em latim). Em inglês "saber de cor" se diz "know by heart" (= saber de coração).

As rimas, ritmo e métrica são algumas técnicas que facilitam a memorização dos versos. E assim, cantando, tanto as notícias quanto as tradições eram transmitidas por gerações.

Durante muitos séculos a poesia era feita para ser cantada (gênero Lírico).  Ainda hoje é assim, mas agora chamamos isso de “letra de música”, ou em inglês “Lyrics”.

Poesia e música sempre estiveram ligadas desde os primórdios. Alguns dos estilos poéticos mais consagrados desde a Antiguidade são: hino, ode (canto, em grego), elegia, cantiga, canção, madrigal, rondó, balada, redondilha, soneto (sonzinho, em italiano).

Etimologicamente, a palavra "música" se origina de "musa". 

As musas representavam a personificação das Artes, a quem os poetas pediam inspiração, enquanto que as ninfas representavam a personificação de elementos naturais. 



INVOCAÇÃO DAS MUSAS - Trechos selecionados das quatro grandes epopeias ocidentais:

Canta, ó Musa, a ira de Aquiles, filho de Peleu, que incontáveis males trouxe às hostes dos aqueus. (HOMERO, ILÍADA)

Ó divina poesia, mantenha viva para mim esta canção do homem [...] Faça com que essa história viva para nós [...] Conta-me, Musa, a história do homem, que, depois de destruir a sacra cidade de Troia, andou peregrinando larguíssimo tempo. (HOMERO, ODISSEIA)

Conta-me, musa, as causas (VIRGÍLIO, ENEIDA)

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente [...]
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou flauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa, [...]
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.
(CAMÕES, OS LUSÍADAS)

Obs: Tágides é como Camões nomeia as Musas do rio Tejo (ou ninfas do Tejo, por também personificarem um elemento da natureza: o rio).

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Antes tarde do que nunca...

Acho que finalmente consegui cumprir a tarefa-desafio para a disciplina de Sistemas Nacionais e Internacionais de Comunicação ministrada pelo prof. Dr. J. Edgard Rebouças em 2004 enquanto eu ainda cursava a faculdade de Comunicação Social, turma de Publicidade e Propaganda.

A tarefa consistia em construir uma analogia entre as relações capitalistas das empresas de comunicação e o poema "Quadrilha" de Carlos Drummond de Andrade. Mas antes de continuar, quero postar aqui outro poema de Drummond:



Voltando ao poema "Quadrilha", ele foi acertadamente bem analisado e explicado pelo professor em sala de aula. Depois, em casa, após dias de muita pesquisa e leitura sobre compras, vendas, sociedades e fusões entre empresas, e após várias tentativas frustradas de construir o paralelo entre a história das empresas e o poema, o melhor resultado só veio agora em 2015. Ficou assim:



A Globo amava o Bradesco
que amava a Samarco 
que amava a Vale 
que não amava ninguém. 

A Globo foi para a França, 
o Bradesco correu para a bolsa, 
a Samarco poluiu o Rio Doce 
que morreu de desastre 
e a Vale foi vendida por F. Henrique Cardoso 
que não tinha entrado na história.

 
Jornal de Brasília, coluna "Esplanada", de Leandro Mazzini. Edição 14508 de 17/11/2015, página 15.



















Agradecimentos:

Ao prof. Edgard - obrigado pelas aulas que tanto me acrescentaram e cujo conteúdo ainda guardo na memória e nos cadernos.

E aos meus colegas formandos de 2005.




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poesia em prosa

Folhas de outono me dão calafrios. Isso porque não consigo associá-las a outra coisa senão a momentos. Lembranças. Passado perdido, jogado ao vento. Momentos vividos, outrora tão vivos, agora distantes, tomados de um fogo tão frio. Eu me lembro dos momentos verdes e do sol que os aquecia, o calor reconfortante, a brisa que percorria a pele e a sensação de vida que esconde um futuro inevitável. Mas, quem se lembra de folhas secas, quando se tem momentos verdes? O tempo é ardiloso, sorrateiro, mas não mente. A culpa é da alma, que escolhe ignorar a mudança no clima e o esfriar do vento. A culpa é das cores que os sinais trazem, folhas de cores, cores de fogo. E quando finalmente os olhos se abrem, já é tarde. Não que as folhas não queiram ficar, mas é chegada a hora e elas sabem, desistem de lutar e se vão. Cores leves, livres, soltas, guiadas pelo vento, folhas de momentos. Folhas de outono me dão calafrios, então fecho os olhos e revivo, na minha alma e nos sonhos, cada momento verde que vivi, antes de chegar o frio.

Elaine Delpupo¹
(Boston-MA)

















¹ A autora é graduada em Letras Português-Inglês.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

My Dream Last Night

– by The Trickster

In the evening
You rang the bell,
I opened the door
And even when I saw
I asked to be sure
And then I went to you.

Envolving your waist gently in my arms,
You were surprised,
I kissed your face many times.

I brought you inside
And closed the door
Holding you and kissing you more.

Walking like dancers
(I was leading you)
Backward to the room
To show you all I’ve been preparing
All day long
Waiting for you to come.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

15 de outubro, dia do professor

Ser professor é o que eu mais queria para a minha vida profissional! Primeiro foi uma escolha pessoal e certeza de que era isso que eu queria, depois foi uma benção alcançar essa meta (uma verdadeira benção!).

Tive ótimos professores, eles foram uma inspiração para mim! Todos estão na minha memória, em cada detalhe, até hoje, e sempre levarei comigo o que me ensinaram. Guardo na cabeça, coração e também os cadernos da época de escola e faculdade...

Além de uma verdadeira admiração, tenho um sentimento de gratidão a eles e todos os professores que trabalham com ética, competência e amor pela profissão – que às vezes, vejo como uma nobre causa! (É impossível Educar sem amor!)


Amo esses profissionais que nos motivam, ajudam e às vezes são mais do que profissionais: alguns são amigos, outros anjos em nossas vidas! Demonstro minha gratidão seguindo essa profissão, que escolhi, amo e admiro.

domingo, 11 de outubro de 2015

Despertar (Renan)

Quando a noite envelhece e morre
Ela amanhece com todos os anseios
Que todos julgavam perdidos nos travesseiros
Mas que estão vivos no sangue que inda corre.

Do que vale a poesia se não fizer raiar o dia? Ela não é a luz do sol irradiado, mas seu significado, porque não se alimenta o homem só de pão, mas de toda palavra [ainda que em vão].

Mais fácil seria vivermos como os pássaros que bicam o alimento da terra e depois voam à revelia, mas o homem não voa, a não ser pela poesia.

E o que é a poesia senão um louvor à vida com seus percalços despedaçados e rimas?

Ela não é a filosofia que merecemos, mas a de que precisamos. Precisemos, portanto, o tom das palavras faladas: Com empatia! – para que no mundo haja mais poesia! Elas podem ser tanto a alegria de viver, quanto a covardia em ofender.

Palavras são tão eternas quanto a total entrega à Efemeridade, ou tão efêmeras quanto a aceitação da Eternidade.

Já dizia a poesia de Petrarca: "A morte seria menos cruel se [pudesse] portar esta esperança à viagem incerta, já que o espírito cansado nunca poderia em um porto mais gentil ou em um túmulo mais quieto deixar para traz suas carnes e ossos agitados".

Mas chega outro e diz: "Não faças versos sobre acontecimentos [...] Nem me reveles teus sentimentos [...] Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?" (Drummond).

Então o que é a poesia, irmão? Sentimento ou razão? Palavras jogadas a ermo em vão? Não!
Proponho outra questão: se é a poesia um capricho humano, o que é o homem sem seus caprichos?

O problema da poesia é que ela nos mantém acordados nas noites sempre serenas, deixando-as menos amenas, mas isto não é só culpa da poesia, ou da filosofia, nem do momento de grande epifania que inevitavelmente se aproxima e que teima em não se revelar. É também a agonia de sobreviver, o medo de se esquecer das contas a pagar, do lar a sustentar... Poetas e homens, iguais nessa questão!... E da paixão! Sobretudo a angústia de não se esquecer de um amor perdido! Esta maltrata a todos, poetas ou não.

Logo será o despertar, mas até lá...


... Só as palavras povoam os sonhos de que precisamos, não importando quais sejam. Se em vão as sonhamos ninguém sabe.

Missing you

The hours passing by,
I can’t control my mind
To stop thinking about you.
It is true!

I love you more this minute
Than the minute before
And the next minutes even more and more
Deeply inside of my heart,
Missing you each second a lot.

But,
The moment I meet you…

I know our love is true!


From The Trickster to Muse.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

For reading with British accent



Day after
By The Trickster


(She’s thought it was for fun
Not imagining she’s the only one).

So come on closer now
Feel my heart beating… And how!
Listen closely to my whispers in your ears
My lips beside your lips
For the first day after’s morning kiss.

With you days after we’ll have
Tomorrow and after,
Each one still better.

Yesterday night and the day after
And after, every time better.

Keeping me deeply there inside
Your body, your soul, your mind…

For the day after yesterday
Then tomorrow, and the next day after
Forever and ever getting better.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Poema enviado por Raul...

Ninguém se importa
E isso eu entendo:

Temos importados, TVs, carros velozes, Velox....
E obrigações com tudo isso,

Mas nada disso m’ importa,
Porque tenho haicais imagéticos,
Plácidos e transparentes com’ água parada
Que refletem meu olhar como concreto
(estátua d’entreaberto lábio gelado)

Mas meu coração feit’ um pêndulo!

Estou icônico feit’ a estátua
E mesm’ a torrente a jorrar do meu lado não me abala,

Mas ora esse pêndulo tende pr’um lado,
Ora outro,
E cheg’ a hora da estátua finalmente desabar.

Poderia ser agora
Sem me abalar.


Raul K’ Lima
(Goa – 03/09/15)

Imagem enviada pelo autor:

domingo, 13 de setembro de 2015

Sociedade dos Poetas Anônimos: perfis dos poetas


Com a devida autorização e consentimento dos três:



Francisco Michel Pechê
Português nascido e criado em Lisboa até os 17 anos;
Pai desconhecido, mãe de nacionalidade franco-portuguesa;
Ex-seminarista, mas pretende retomar os estudos;
Vive atualmente em Fontaine-de-Vaucluse, sudeste da França.


The Trickster
Brasileiro;
Prefere escrever em inglês;
Curte ficar na internet – redes sociais, chats etc;
Estudante, reprovado duas vezes no vestibular para Ciências Contábeis;
Seu pai é contador;
Moram em São Paulo – Centro.


Iulio Ypiranga
Descendente de portugueses, italianos e índios nativo-brasileiros;
Apreciador de dias e noites de orgias regadas ao álcool;
Antinacionalista, apátrida, mas orgulhoso da ancestralidade;
Neopaganista gnóstico;
Graduado em Agronomia e Jornalismo, nunca exerceu nenhuma dessas atividades;
Endereço flutuante, atualmente de favor na Rua Dionísio Abaurre, Vitória-ES.


Sociedade dos Poetas Anônimos: Fórum

























Ao celibatário F.P.


Sua lírica aprisiona as paixões mais verdadeiras da natureza humana. O corpo só é cativeiro da alma quando ele não pode expressar a sofreguidão dos desejos dela. No meu caso, às vezes, por uma imposição cultural dessa chamada “civilização” – que castra todos os homens e mulheres de espírito livre. Ainda assim, gozo com os deleites efêmeros e imediatos sempre que possível, bailando a valsa de Tânatos se necessário, mas nunca deixando de aproveitar cada sopro de Vida.

No seu caso, por uma aberração da moral que você mesmo escolheu seguir. – fado impossível até para os deuses.

Mas se em sonho, nitidamente, vê sua casa com muitos quartos e móveis, significa que finalmente tomou consciência da sua grandeza. Abrace esse espírito humano e pueril sem receio, este é seu verdadeiro eu.


Iulio Ypiranga


Da nova série neste blog: Sociedade dos Poetas Anônimos. Poetas que não divulgam seus nomes. Pseudônimos e heterônimos. Textos descobertos por acaso.

Poema do seminarista F. Pechê

Marie, je vous salue, La Mère de les mères
Je suis aussi votre fils.

Reine de les reines,  
Roi de les rois est votre fruit,
Dominus tecum. 

Donnez-nous notre chevalier blanc,
Juge de les juges,
Avec sa légion d'anges
Para expurgar todo o mal.


Francisco Pechê


Da nova série neste blog: Sociedade dos Poetas Anônimos. Poetas que não divulgam seus nomes. Pseudônimos e heterônimos. Textos descobertos por acaso.

sábado, 12 de setembro de 2015

ODE TO EBE



I. She has an incredible skin
I wanted so hard to kiss
What I love about her
Is that smile I miss.

II. She has a hot body
Hiding her shy happiness,
What I love about her
Is the will for kindness.

III. She has intelligence,
Ten virtues to be fair
What I love about her:
The yellow sun hitting that hair.


With care,
The Trickster
(In a cloudy day, no wind, no magic spells).





Da nova série neste blog: Sociedade dos Poetas Anônimos. Poetas que não divulgam seus nomes. Pseudônimos e heterônimos. Textos descobertos por acaso.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Poema de Francisco Pechê

Prece I


Ò, Cavaleiro, usa sua espada
Libera-nos de nossos grilhões
Que nos mantém presos ao pecado.

Príncipe dos Príncipes,
Toca fogo nesta morada,
Cativeiro do Diabo.

Ensina-nos o caminho da luz
E o prazer do sacrifício,
Abstinência e caridade.

Ensina-nos a matar a vontade da carne
E libertar nossa alma do cativeiro infernal!
Ainsi soit-il.


Francisco Pechê



Da nova série neste blog: Sociedade dos Poetas Anônimos. Poetas que não divulgam seus nomes. Pseudônimos e heterônimos. Textos descobertos por acaso.

Três poemas de Iulio Ypiranga



Biografia

Nasci em tempos remotos,
Quando o homem tinha tempo de ser completo
E prolixo.

Embriaguei-me no sangue de nosso segundo Dionísio,
Aquele que foi viver em nossos arbustos e arvoredos,
Entre jabuticabeiras e pitangueiras
Da outrora ilha mítica Hy Brazil,
Agora “ilha” continental,
Minha terra natal de onde nunca saí.

Fui o último da tribo a evocar os poderes luxuriosos de Pã
(Io, Pã! Io, Pã!)
Antes que ele morresse.

Devorei a carne de meus ascendentes e irmãos antropófagos
Até roer seus ossos,
Para, além de absorver a valentia daqueles últimos guerreiros,
Puni-los, principalmente, por renegar nossos velhos costumes.

Depois me misturei às mazelas brancas,
Romanas, Lusitanas,
Protocristãos,
Pagãos de toda a parte
Degredados ao Novo Mundo, minha velha terra,
Abandonados à Sorte para morrer.
Entre eles eu era o Mestiço.

Na modernidade, meu tempo encarcerado
(Não quero falar sobre isso)

Hoje minha alma cumpre pena no meu corpo,
O costume outrora fiel à natureza
É doravante tardio.





Epicurismo e hedonismo 69’

Saber viver
E gozar
Xamanicamente
Os desejos do corpo,

Dionisicamente dividindo,
Roubando essências,
Orgasmos;
Gastando a força vital
Até não poder mais
Se manter acordado.

E morrer jovem!

Rogar e roer da vida
O que de mais prazeroso houver,
Consciente, mas...
Kilometricamente desmedido.




Pânico

Io Pã, Io Pã! – canta o homem pastoril temente, com medo, paralisado na obscura floresta de seus pensamentos.

Hermético! tal qual a alquimia dos anciãos!

Sua Pedra floresce pelo desejo,

Petrificado diante de sua lasciva musa que lhe ordena:

- Decifra-me, mortal!
 


Iulio Ypiranga



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