sexta-feira, 21 de abril de 2017

Literatura de cordel: Tradição e Educação.

A literatura de cordel é uma tradição cultural e popular, muito forte no Nordeste, mas também presente em todo território nacional. Apesar de sua origem não ser brasileira, aqui o cordel ganhou características próprias e uma nova identidade.

Características da poesia de cordel:
- Estrofes em sextilhas (estrofe de 6 versos) ou septilhas (estrofe de 7 versos);
- Métrica em redondilha maior (cada verso possui 7 sílabas poéticas);
- Esquema de rimas ABCBDDB;
- Temática variada, tendendo a falar com humor sobre o cotidiano.

Exemplo:

No Brasil é diferente
O Cordel-Literatura
Tem que ser todo rimado
Com sua própria estrutura
Versificado em sextilhas
Ou senão em septilhas
Com a métrica mais pura.

Glosa em redondilha maior:
Rodolfo Coelho Cavalcante (1919 - 1987) 



Exemplo de livro:




















Tradicionalmente as ilustrações eram feitas usando técnicas de xilogravura.
Exemplo de xilogravura.














Os livros eram pendurados e vendidos em varais. Nas fotografias abaixo, exemplos de trabalhos sobre literatura de cordel, da escola à faculdade:

Colégio Cec (foto tirada da internet).















Colégio Consa (foto tirada da internet).















Faculdade Multivix-Serra (trabalho com alunos).

























Além da produção de livros, a literatura de cordel também está ligada ao teatro, à música regional e contação de histórias. Na Educação de crianças, jovens e adultos, o cordel é muito benéfico, pois trabalha o raciocínio e a criatividade com a língua em todos os seus níveis (fonético, gramatical, semântico e literário).

Para ler mais sobre literatura de cordel, origem e história, acesse o link:


sábado, 15 de abril de 2017

Frases "preciosas"

"Errar é humano, colocar a culpa em alguém, então, nem se fala"!

"Tudo é relativo: um cabelo na cabeça é pouco, na sopa é muito".

"Diz-me com quem andas e eu te direi se vou contigo".

Autores desconhecidos.



Do programa Rock Gol (bons tempos da MTV Brasil):

Preservativos Júnior: um estouro!
Recomendado pelos meus 35 filhos!

Poema

I was thinking about the past,
worried about what the future has.

My family has no gold.
I was born with no blue blood.

So I am free of virtues and sins
of popes and kings,
princes and lords of land
who washed their hands.

I was made from the common clay
Where the fine wines were made,
Where we have the guarantee
Of the glorious eternity

In the end of the journey, so long…
I find on You,
the heaven from where my wings belong.

By myself, based upon the poem of Joseph de Sousa



Pensavo al passato, duro,
preoccupato al futuro, oscuro.

La mia famiglia non ha oro
Sono nato senza sangue blu,
senza tesoro.

Sono privi di virtù e peccati
dei re e principi decadenti.
Ho le mie mani lavate
dal sangue innocente.

Della morte perdonato,
Sono creato dalla sabbia
Dove il vino, buono, si diventerà
In cui abbiamo la grazia
Della nostra eternità

I lunghi giorni passano,
Alla fine trovo su di Lei,
il cielo, dove le ali mie
nelle Sue riposano.


Proprio mio, basata sulla poesia di Joseph de Sousa

 (Renan, 2003)

domingo, 20 de novembro de 2016

O pássaro engaiolado

Da minha janela vejo um pássaro engaiolado. E os pássaros livres voam em volta dele. Ele tem água e comida em fartura, mas não parece feliz, ao contrário daqueles que voam livres ao seu redor e só contam com  a providência divina para comer e beber.

Parece uma metáfora sobre a inútil tentativa humana de governar o destino dos outros. Ou uma alegoria sobre o capitalismo. Ou uma autorreflexão sobre vontades e frustrações, disfarçada por arquétipos oníricos. Ou uma epifania sobre os desígnios de Deus. Mas não. É apenas um pássaro engaiolado, triste, real e nada simbólico. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A origem de Monga

Em 1901, no interior da Rússia havia um pequeno circo, tão pequeno que não tinha nome. Tinha anões, um homem forte, mímicos malabaristas, equilibristas e um tocador de trompete, mas não tinha nome. A atração principal era um mágico ilusionista, talvez o melhor de sua época.

Num palco escuro, cheio de suspense e surpresas, esse mágico materializava qualquer animal ou objeto no ar. E com igual facilidade ele fazia essas coisas levitarem diante de um respeitável público. Certa vez ele fez um elefante desaparecer do picadeiro, como se tivesse evaporado tão rápido quanto um piscar de olhos. A plateia batia palmas tão alto e tão forte que dava a impressão de o som dos aplausos poderem chegar à capital.

Mas tanta comoção também trouxe ventos de inveja. Seu camarim era muito visado, porque lá estavam guardados todos os objetos de mágica. Por isso ele não podia se afastar muito. Lá ele comia, dormia, aparava a barba e o bigode. Toda a sua vida estava ali. Obviamente nunca recebia visitas no interior do camarim. Era de lá para o picadeiro e do picadeiro de volta para lá. O problema era como fazer para proteger seus segredos de mágico enquanto ele estava no centro do picadeiro entretendo e encantando as pessoas.

De tanta preocupação, um dia ele teve um estalo e Zap! Inventou um método para espantar curiosos e espiões que tentavam descobrir seus segredos e vender para outros mágicos.

Numa noite de espetáculo três meninos aguardavam o mágico entrar no picadeiro. Após dois números eles saíram da lona como se fosse para comprar pipoca ou ir ao banheiro, mas o que eles realmente procuravam era o quarto do mágico. E lá fora encontraram entre tendas um corredor sombrio que dava naquele camarim. Os moleques seguiram pelo corredor, mas se depararam com uma jaula vazia bem na frente da porta do camarim. Quando se aproximaram um pouco mais, uma luz se acendeu e eles viram uma mulher belíssima dentro daquela jaula. Ficaram pasmos por aquela surpresa, mas também admirados pela beleza da moça. Não deram nem mais um passo, mas os olhos se moviam na direção dela. E apreciando aquela forma feminina eles pouco a pouco viram a mulher se transmutar num enorme gorila enfurecido e que rompeu as grades da jaula. Os três rapazes saíram de lá apavorados, correndo o mais rápido que podiam e sem olhar para trás.

E foi assim, nos bastidores, longe do interior da lona circense, que aquele grande mágico fez a sua maior contribuição para o mundo do ilusionismo.

Após a sua morte, já em idade avançada, o truque da mulher gorila se espalhou pelo mundo, tornando-se mais uma atração de parques e circos. Não se sabe muito bem como ou quem revelou o segredo, mas essas coisas são assim mesmo, ainda que não se entenda o porquê. Os segredos dos mágicos se esfarelam com o tempo, como pedras que viram pó e são carregadas pelo vento.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Bob Dylan - Nobel de Literatura 2016

O cantor e compositor americano Bob Dylan é o eleito para o prêmio Nobel de Literatura 2016. Isso soou estranho para alguns, surpresa para outros, e não faltaram críticas do tipo "Ele deveria receber um Grammy". Este prêmio ele também já possui, dentre vários outros.

Dylan mereceu? Dada a importância de suas letras, Sim! Uma prova disso é que a revista Rolling Stone elegeu uma de suas músicas como a mais importante de todos os tempos. A música é "Like a rolling stone". E quando Dylan foi introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame, Bruce Stringsteen disse: "Elvis libertou seu corpo, Dylan libertou sua mente.".

O documentário "No direction home" de Martin Scorsese traça a vida do cantor em seus primeiros anos de carreira e mostra o impacto que Dylan causou na música folk e pop.

Outro argumento a favor de Dylan é a influência que ele foi para importantes artistas e bandas de rock. Cito apenas uma: The Beatles.

E as letras de música podem ser consideradas poesia/literatura? A resposta é Sim! Desde a Grécia Antiga, o hino, a ode, o epinício, a elegia, o ditirambo etc e na Idade Média a canção, a cantiga (trovadora), a balada, o madrigal, o rondó etc eram todas formas de poesia cantada. Daí essas formas poemáticas serem agrupadas e categorizadas na Teoria Literária como sendo formas líricas. Até mesmo no nome elas têm relação com a música: ode (canto, em grego), soneto (sonzinho, em italiano), hino, cantiga, canção etc.

Após o anúncio da premiação, Dylan foi acusado de ser arrogante, por ter se mantido em silêncio. Mas o prêmio era pela sua contribuição que "criou novas expressões poéticas dentro da grande tradição musical americana". Ou seja, não era um prêmio para "cantor/compositor mais simpático".

Mas sempre há os críticos com aqueles argumentos do tipo: "há tantos escritores por aí que mereciam". Sim, há. Todos eles provavelmente merecem. Mas vejo essa premiação como um importante e definitivo reconhecimento de que as letras de música pop, folk e rock têm valor poético. Ou ainda, de que a letra de música é poesia (como sempre o foi, desde a tradição grega). 

Pessoalmente, se fosse pelas letras de músicas eu teria elegido John Lennon ou Morrissey (The Smiths). Mas Morrissey começou nos anos 80, quando todas as maiores revoluções já tinham acabado, e Lennon só começou a apresentar letras realmente interessantes a partir de 1965 com a música "Help", e depois gradualmente no álbum Rubber Soul (1965), mais ainda em Revolver (1966), Sgt. Peppers (1967), a música "All You Need is Love" (mesmo ano), "Revolution" (68) e assim por diante até por toda sua carreira solo (1970-80). Dylan começou a ser diferente e a chocar o mundo um pouco antes, já em 63 com "Blowin in the wind" e mais ainda em 65 com "Like a rolling stone". Por isso, ele é o cara! Sua poesia de protesto, influenciada pela literatura beat e a música folk são os elementos que o fizeram ser reconhecido, admirado, seguido e copiado.

Se Dylan aceitará o prêmio, isso já é outras história. O filósofo Jean-Paul Sartre, vencedor do Nobel, o recusou. E o poeta brasileiro Carlos Dummond de Andrade desencorajou sua candidatura. Talvez Dylan seja desses. Afinal, dinheiro, prêmios e reconhecimento pelo seu talento são coisas que não lhe faltam. Humildade, simpatia, essas coisas talvez sim. Mas nossa sociedade sempre premiou o talento, o mérito, não a humildade e a simpatia (pelo menos não com um prêmio no valor de quase 1 milhão de dólares). 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Ozymandias

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante,
Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,
Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,
Afundando na areia, um rosto já quebrado,
de lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante
Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia.
Quantas paixões lá sobrevivem nos fragmentos,
À mão que as imitava e ao peito que as nutria!
No pedestal estas palavras notareis:
"Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis
Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!"
Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
Da ruína colossal, areia ilimitada
Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.


Percy Bysshe Shelley, 1818.
Tradução de Eugênio da Silva Ramos.

Comentário:
No poema vemos um exemplo de efemeridade: o tempo a tudo corrói, destrói, derruba, leva consigo... Até mesmo a pretensa "divindade" do Faraó Ozimândias (Ramsés II) cujo império e poder foram consumidos pelas areias do tempo.