quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A obsessão do sangue

Acordou, vendo sangue... — Horrível! O osso 
Frontal em fogo... Ia talvez morrer, 
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço, 
Ah! certamente não podia ser! 

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço, 

Na mão dos açougueiros, a escorrer 
Fita rubra de sangue muito grosso, 
A carne que ele havia de comer! 

No inferno da visão alucinada, 

Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, 
Viu vísceras vermelhas pelo chão ... 

E amou, com um berro bárbaro de gozo, 

o monocromatismo monstruoso 
Daquela universal vermelhidão!


(Augusto dos Anjos)

O poema que inspirou Mandela

O poema que inspirou Nelson Mandela em seus 27 anos de prisão.

INVICTO
William Ernest Henley

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.


Fonte:  Revista Pazes, 13 de maio de 2017.

Aos Homo Zappiens

Meus pais cresceram com o Elvis na infância, Beatles na flor da adolescência e Led Zeppelin na juventude.

Eu cresci com Michael Jackson, Madonna, Cindy Lauper e Legião Urbana nas rádios, e tinha medo das bandas Heavy, que hoje são chamadas de Glam Metal (rs). Lembro-me da morte do Cazuza ser anunciada nos jornais. Tornei-me adolescente com clipes do Guns n' Roses, Metallica e Nirvana na MTV, todos no ápice de suas carreiras. No primeiro ano do ensino médio os Mamonas Assassinas eram a febre!

Quantas histórias para contar, quantas mudanças o mundo passou. Vi o começo da internet com 17 ou 18 anos, e como era diferente! Até a internet mudou.

As gerações que nasceram com a internet e o celular precisam fazer um estudo minucioso desse passado recente, quando não havia internet. Os Homo Zappiens têm muito a descobrir nesse baú de tesouros enterrado nas mentes dos Homo Sapiens que restam, antes que estes desapareçam de vez.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Qualidades do profissional de Letras

Com base na grade curricular do curso, o estudante aplicado em sua formação deverá desenvolver, pelo menos, estas quatro qualidades que o diferem de outros profissionais.

* Não ser um leitor amador – ao fim da formação, o graduado fará parte de um grupo seleto que conhece a tradição literária da Antiguidade à Modernidade, entendendo bem as inúmeras referências e relações que existem entre os textos.

* Ser um redator/escritor/tradutor/revisor de textos preciso – saber escolher as palavras e usa-las em seu contexto preciso, na ordem precisa, no parágrafo preciso, sabendo também organizar os parágrafos de forma exata para atingir sua intenção de comunicação.

* Ser um orador/palestrante/professor adaptável a qualquer público ou situação de comunicação – dominar um repertório linguístico variável e adaptável aos vários contextos e situações de comunicação.


 * Ser um professor que entende as dificuldades de aprendizagem em cada nível da Educação e ser capaz de elaborar aulas, questões, provas e testes a fim de sanar essas dificuldades – com base em conhecimentos fonológicos, linguísticos e teorias de recepção, compreensão e interpretação de textos, adaptar os conteúdos às necessidades e situações, sabendo entender e sanar cada dúvida. 

A formação também capacita o profissional de Letras a ser crítico de artes, principalmente Literatura, Teatro e roteiros para TV e cinema (neste caso, o desenvolvimento da história, não as técnicas de captação e reprodução audiovisuais). Também crítico musical, mas neste caso focando na letra da música e em seus aspectos socioculturais; analisando, por exemplo, como as letras participam do imaginário coletivo, seu impacto, influência etc.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Contestando Rousseau

Disse Jean-Jacques Rosseau: "O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe".

Isso dito no contexto a que Rousseau se referia, talvez pareça mais verdadeiro. Mas num contexto geral, seria mais razoável afirmar: o homem nasce sem consciência de bondade e maldade, mas pode ser cruel por sua própria natureza instintiva. Cabe à sociedade aparar-lhe as arestas.

Bondade e maldade não são conceitos relativos. Por exemplo, uma criança na tenra idade que atira pedras em passarinhos pode não ter a consciência do que é ser bom ou mal, mas a prática que ela realiza é má em si própria, pois fere outra vida.

Cabe à sociedade [família, escola, igreja, governo e mídia] o papel de educar esse ser, tornando-o sociável.

A essa educação, dá-se o nome de moral, que pode ser entendida a grosso modo como sendo regras sociais de boa conduta.

Mas há outro autor que tem algo a acrescentar nesta discussão:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera. 
Somente a Ingratidão – esta pantera – 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera! 
O homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera.  

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto dos Anjos)


Rosseau fala num contexto Pré-Romântico, interpretando os índios como "bons selvagens", em detrimento da sociedade francesa da época, corrompida.

Augusto dos Anjos fala de seu lugar peculiar na literatura, mantendo a hipótese de que o homem se corrompe a partir do meio social, mas também trazendo isso para o seu ponto de vista pessoal, como quem dissesse algo do tipo: não aceite a piedade dos homens, pois estes são traiçoeiros.

Mas considerando um contexto geral e, portanto, rejeitando a hipótese de ambos, daria para afirmar que o homem tem uma natureza cruel e que a sociedade o tornaria sociável e ético. Mas isso depende do papel que esta sociedade deseja assumir para si: se ela é responsável e cumpre o papel de educar a todos ou se ela desiste da difícil tarefa.

Contudo, se o ser humano é cruel por sua natureza e a sociedade é o conjunto de seres humanos, é possível existir uma sociedade bondosa?

Contradizendo essa lógica, penso que sim. E aí introduzo o conceito de "fazer esforços diários", como no aprendizado diário de uma língua estrangeira. Uma sociedade que faz seus esforços em ser boa, contrariando sua natureza humana e cruel, poderia chegar a ser boa, ou pelo menos, esta seria a definição de uma sociedade utópica: um conjunto de indivíduos que diariamente se esforça em praticar apenas o bem, pensando no bem coletivo e não só no seu próprio bem-estar individual, consciente de que isso faria bem a todos, inclusive ao próprio indivíduo, como no conceito de karma, que olhando assim não tem nada de místico ou metafísico, é pura lógica e física.


domingo, 17 de setembro de 2017

O Rock in Rio perfeito

Como seria o melhor Rock in Rio de todos os tempos:


1ª noite

2ª noite

3ª noite

Charlie Brown Jr.
Groundation
Soldiers of Jah Army (SOJA)
Bob Marley & The Wailers
Red Hot Chili Peppers
Creedence Clearwater Revival
Days of the New
Smashing Pumpkins
Pearl Jam
KISS
Scorpions
U2
Dire Straits
Pink Floyd
Queen 
Jimi Hendrix
Deep Purple
Blind Guardian
AC/DC
Queens of the Stone Age
Saxon
Iron Maiden
Alice in Chains
Soundgarden
Black Sabbath
Metallica
Guns n’ Roses
Sex Pistols
Led Zeppelin
Nirvana 
Cazuza e Barão Vermelho
Legião Urbana
Janis Joplin
Echo and The Bunnymen
The Doors
Ramones
Green Day
R.E.M.
a-ha
Joy Division
The Smiths
The Who
The Rolling Stones
The Beatles
Chuck Berry 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dica de leitura: POESIA!

Sempre digo a todos os meus alunos que a leitura de poesia aprimora muito a nossa capacidade de entendimento de qualquer tipo de texto, aprimora também o pensamento e desenvolve consideravelmente a nossa capacidade de relacionar informações, de ter ideias criativas e articular estruturas linguísticas mais complexas e profundas, além de desenvolver o senso crítico.

Quem já é iniciado na arte de ler, interpretar e analisar poemas, sabe do que estou falando. Mas esta postagem é dedicada especialmente àqueles que querem desenvolver esse tipo de conhecimento. Por isso, listo abaixo alguns autores e obras que considero recomendáveis para inciar essa jornada.

O mais importante é persistir! É claro que no primeiro dia haverá um estranhamento do leitor com esse tipo de texto. Mas continue lendo! Leia o mesmo poema quantas vezes for necessário, mesmo que você ache que o texto não faz sentido ou pense: "Eu não estou entendendo nada". No segundo dia, após descansar a mente, garanto que será mais fácil digerir as ideias daquele texto. Após 3 meses, provavelmente, você já notará grande melhora na sua capacidade de compreender e analisar textos (de qualquer tipo) no seu dia a dia.

Segue  a lista >

Poesia: autores/obras
Vinícius de Moraes - O operário em construção;
Bertolt Brecht - Se os tubarões fossem homens;
Fernando Pessoa - Mar português;
Charles Baudelaire - Os olhos dos pobres;
Percy Bysshe Shelley - Ozymandias;
Mário Quintana - obra completa;
Gonçalves Dias - obra completa, incluindo I-Juca Pirama;
Augusto dos Anjos - Eu e outras poesias (obra completa);
Castro Alves - obra completa;
Manuel Maria B. du Bocage - obra completa, incluindo poemas satíricos e eróticos;
Fernando Pessoa (heterônio Bernado Soares): Livro do desassossego.

Letras de música
Legião Urbana - Eduardo e Mônica (só para começar);
Cazuza - todas;
Raul Seixas - todas;
John Lennon - todas;
The Smiths - todas.

Por fim, saindo um pouco do campo poético, recomendo uma obra de teatro cheia de mistério, suspense, revelações e surpresas:
Sófocles - Édipo Rei. 

Boa leitura!