domingo, 4 de setembro de 2016

Redação no Enem

Competências avaliadas na redação:

I- Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita.

II- Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.

III- Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

IV- Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

V- Elaborar proposta de solução para o problema abordado, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

A matriz tem um aspecto inovador no que se refere ao texto dissertativo-argumentativo: além de solicitar um ponto de vista da parte do autor, prerrogativa desse tipo textual, também requer a elaboração de uma proposta de intervenção social que respeite os direitos humanos (competência V).

A redação é corrigida e avaliada por dois corretores, profissionais da área de Letras. Para o cálculo da nota, soma-se a pontuação atribuída pelo corretor em cada competência, e divide-se o total por 5. O mesmo é feito com referência ao segundo corretor. Cada corretor desconhece a nota atribuída pelo outro corretor, sendo a nota final a média aritmética das duas notas obtidas. No caso de discrepância igual ou maior do que 300 pontos, haverá outra correção por um professor supervisor. Essa terceira nota é a que prevalecerá. A terceira correção configura-se como um recurso de ofício.


A nota zero na redação poderá ser atribuída ao participante nas seguintes situações:

Apresenta texto em branco - B (em branco)
Apresenta texto com até 7 linhas (não incluindo título) - I (insuficiente)
Apresenta texto em que haja a intenção clara do autor em anular a redação ou texto que desconsidera a competência V (fere explicitamente os direitos humanos) - N (nulo)
Apresenta texto que não desenvolve a proposta de redação, considerando-se a competência II (desenvolve outro tema e/ou elabora outra estrutura textual - F (fuga ao tema/ não atendimento ao tipo textual)


Por fim, vale lembrar:

Apenas as redações adequadamente transcritas na Folha de Redação são corrigidas.
A redação deve ser transcrita para a Folha de Redação com caneta esferográfica de tinta preta.
Para ser corrigida, a redação deve ter o mínimo de 8 linhas.
O rascunho e as marcações assinaladas nos Cadernos de Questões não são considerados para fins de correção da redação.
Na redação corrigida, não há necessidade de título. Caso o participante inclua título, este não será computado como linha efetivamente escrita para o mínimo de 7 linhas.
As rasuras devem ser evitadas. Caso ocorram, basta passar um traço no trecho inadequado e dar continuidade ao texto.
A proposta de redação apresenta textos motivadores que não devem ser copiados no texto produzido.


Fonte: Ministério da Educação, 2011.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Namoradinha*

Quando era criança
Tinha uma namoradinha,
Ou melhor,
Namorvizinha.

Morava na casa ao lado.
Mas o pai dela...
Era uma onça!
Eu sou Mendonça.

Namorávamos então por telefone de latinha,
Lá tinha!
Isso no tempo do onça.

Hoje, menos criança,
Tenho uma namorada que é uma onça.


In memoriam: Que haja justiça para a onça das Olimpíadas.














* Paródia do poema "A namorada" de Manoel de Barros,
Escrito com tristeza pela barbárie contra um animal tão lindo e inspirador,
Mas a namorada brava e linda que me suporta nos momentos tristes
Inspira-me a escrever com leveza e humor.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Dissertação sobre Augusto dos Anjos

Esta é minha dissertação de mestrado em Letras - Estudos Literários (2011), na qual estudo a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914).

http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_4543_.pdf

No capítulo 1 abordo suas influências, desde o positivismo da Escola de Recife até o seu misticismo. Augusto dos Anjos se caracteriza por congregar influências diversas e antagônicas, mas de forma dialética, resolver a seu favor os empasses entre medo e esperança, religião e ciência, vida e morte.

No capítulo 2 faço uma discussão sobre as pulsões psicanalíticas que reverberam em sua poesia: o Eros e o Tânatos complementando-se em equilíbrio. 

No capítulo 3 o tema passa a ser a angustia existencial de seu "eu lírico" e como, na sua retórica, ele expressa a angustia de toda humanidade perante a morte e a vontade de transcendência que é intrínseca a todos os povos desde os primórdios da nossa História.

O poeta paraibano manifesta ao decorrer dos textos o seu complexo de Édipo, a sua rejeição da poesia erótica e da luxúria, a admiração pela maternidade e seu entusiasmo ecológico, beirando ao panteísmo e ao vegetarianismo.

Essas manifestações somadas aos recursos retóricos, além de toda a ciência e filosofia de seu tempo empregadas em sua poesia, são as bases que Augusto dos Anjos utilizou para lançar seu projeto literário, único e original, e que nos deixa uma pergunta sem resposta, mas também uma certeza: a palavra é imortal.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sentença de Tiradentes

[...] prova, que especificamente soubessem da conjuração e dos ajustes dos conjurados, mas que somente souberam das diligências públicas, e particulares, que fazia o réu Tiradentes, para induzir gente para o levante, e estabelecimento da república, pelas práticas gerais que com ele teve, ou pelos convites que lhes fez para entrarem na sublevação, suposto que não estejam em igual grau de malícia e culpa como os sobreditos réus, contudo a reserva de segredo de que usaram, sem embargo de reconhecerem, e deverem reconhecer a obrigação que tinham de delatar isso mesmo que sabiam, pela qualidade e importância do negócio, sempre faz um forte indício da sua pouca fidelidade, o que sempre é bastante para estes réus ao menos serem apartados daqueles lugares onde uma vez se fizeram suspeitosos, porque o sossego dos povos e conservação do Estado pedem todas as seguranças para que a suspeita do contágio da infidelidade de uns, não venha a comunicar-se e contaminar os mais.

Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]


Fonte:
http://www.portalan.arquivonacional.gov.br/Media/Autos%20da%20devassa%20completo.pdf

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Suffer little children

Tradução: “Deixai as criancinhas”. O título dessa canção dos Smiths faz referência à Bíblia, livro de Lucas 18:16, quando Jesus diz “Deixai vir a mim as criancinhas”. Mas há duplo sentido, podendo ser traduzido como “Sofrem as criancinhas”.

A letra se refere a uma série de assassinatos de crianças ocorridos em Manchester nos anos 60. O caso ficou conhecido como Moors Murders, isto é, “Homicídios de Moor”. Esta última palavra é um termo geográfico sem correlato preciso na língua portuguesa, mas refere-se a um lugar como um planalto com prados ou um tipo de charneca britânica (moorland). É o local onde foram escondidos os corpos das vítimas.


Moor (ou Moorland) de Saddleworth, Manchester.















Das crianças, três nomes são citados: Lesley Ann “Lesley Ann with your pretty white beads”[1]; John “Oh, John, you'll never be a man. And you'll never see your home again”[2] e Edward “Edward, see those alluring lights. Tonight will be your very last night”[3]

O verso “Find me, find me”[4] refere-se a Keith Bennett cujo corpo nunca foi encontrado. A letra faz referência também à mãe desse menino quando diz: “I know my son is dead. I'll never rest my hands on his sacred head”[5].

Myra Hindley e Ian Brady receberam prisão perpétua pelos homicídios. Ela é citada na letra: “Hindley wakes and says: Oh, whatever he has done, I have done”[6].

A lírica de Morrissey assume uma voz fictícia representando as crianças quando ele canta: Estamos numa moor silenciosa e enevoada. Nós podemos estar mortos e podemos ter ido para sempre. Mas sempre estaremos bem perto, até o dia em que vocês morrerem. Este não é um passeio fácil. Nós os assombraremos quando vocês rirem. Sim, vocês poderiam dizer que formamos um time. Vocês podem até dormir, mas vocês nunca mais irão sonhar”. Esta fala também pode ser interpretada como vozes acusativas na consciência pesada do casal, ainda que a psicopatia seja caracterizada pela ausência de remorso.

De acordo com o site Songfacts, Morrissey escreveu essa letra após ler Beyond Belief: A Chronicle of Murder and its Detection (Inacreditável: uma crônica de assassinato e suas descobertas). O livro não tem título em português, então fiz aqui uma tradução livre.

Este é um vídeo musical de “Suffer little children” com slides sobre o triste caso:



Nota 1: este é um exemplo de lírica sobre um caso verídico. Morrissey fez esta letra em tributo às vítimas e seus familiares. Ele próprio era uma criança quando esses crimes horríveis aconteceram em Manchester, cidade onde ele cresceu.

Nota 2: fiz uma tradução contextualizada aos fatos e de alguns trechos mais difíceis, buscando explicar as ocorrências de duplo sentido e a falta de correlato na língua portuguesa. Os demais versos não carecem de explicação, bastando uma tradução literal simples, por isso não os mencionei aqui.

A letra completa e correta, na sua versão original, pode ser vista neste site:
http://www.azlyrics.com/lyrics/smiths/sufferlittlechildren.html




[1] Lesley Ann, com seu belo colar de miçangas brancas.
[2] Oh, John, você nunca se tornará um homem (adulto). E você jamais verá seu lar de novo.
[3] Edward, veja aquelas luzes atraentes. Hoje será sua última noite.
[4] Encontre-me, encontre-me.
[5] Eu sei que meu filho está morto. Eu nunca mais irei colocar minhas mãos sobre sua cabeça sagrada.
[6] Hindley acorda e diz: Oh, o que quer que ele tenha feito, eu também fiz.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Poesia e retórica

Eis um soneto em que se vê um belo exemplo de retórica, assemelhando-se a um texto dissertativo, mas em linguagem poética. Apresenta-se também como um texto metalinguístico, porque o argumento sustentado pelo autor é justamente a valorização da forma textual. Olavo Bilac defende a tese parnasiana segundo a qual o poeta deve prezar pelo valor estético de sua obra e que esta produzirá o efeito esperado pelo artista.


A Um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica, mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.


No primeiro quarteto o autor introduz o tema e diz: “[O poeta] trabalha e teima, e lima e sofre, e sua”. No segundo quarteto ele recomenda e argumenta: “Mas que na forma se disfarce o emprego do esforço”, ou seja, que o poeta não expresse emoções, mas priorize a temperança “como em um templo grego” e, sobretudo, o valor formal [estético] do seu engenho [o fazer poético]. No primeiro terceto o autor reforça o argumento: “Não se mostre na fábrica o suplício do mestre”. Isto significa que a composição não deve enfatizar o sentimento do poeta, mas que o efeito “agrade sem lembrar os andaimes do edifício [i.e: que o resultado final seja belo sem lembrar o trabalho de composição]”. No terceto final, Bilac conclui dizendo que a Beleza [a estética] é a Verdade, inimiga do artifício [do sentimento produzido em poesia], e que a Beleza se encontra na simplicidade [de conteúdo].

Os poetas parnasianos defendiam a arte pela arte, o culto à forma, rejeitando as emoções exacerbadas e os conteúdos elaborados. Eles foram uma antítese ao sentimentalismo romântico e à poesia social dos realistas.


Nota pessoal
Como leitor, valorizo a subjetividade da poesia romântica e o engajamento político do Realismo, mas não posso negar que Bilac desenvolveu uma excelente argumentação capaz de defender a proposta artística parnasiana e de questionar os movimentos literários que a antecederam.

Observe que as minhas paráfrases sobre trechos citados não dão conta de explicar totalmente o que o autor diz em linguagem poética, porque esta forma de linguagem expressa um nível de raciocínio que a linguagem dissertativa não é capaz de atingir sem simplificar a riqueza semântica e formal do texto poético.