quarta-feira, 17 de agosto de 2016
quinta-feira, 23 de junho de 2016
Namoradinha*
Quando era criança
Tinha uma namoradinha,
Ou melhor,
Namorvizinha.
Morava na casa ao lado.
Mas o pai dela...
Era uma onça!
Eu sou Mendonça.
Namorávamos então por telefone de latinha,
Lá tinha!
Isso no tempo do onça.
Hoje, menos criança,
Tenho uma namorada que é uma onça.
* Paródia do poema "A namorada" de Manoel de Barros,
Escrito com tristeza pela barbárie contra um animal tão lindo e inspirador,
Mas a namorada brava e linda que me suporta nos momentos tristes
Inspira-me a escrever com leveza e humor.
Tinha uma namoradinha,
Ou melhor,
Namorvizinha.
Morava na casa ao lado.
Mas o pai dela...
Era uma onça!
Eu sou Mendonça.
Namorávamos então por telefone de latinha,
Lá tinha!
Isso no tempo do onça.
Hoje, menos criança,
Tenho uma namorada que é uma onça.
![]() |
| In memoriam: Que haja justiça para a onça das Olimpíadas. |
* Paródia do poema "A namorada" de Manoel de Barros,
Escrito com tristeza pela barbárie contra um animal tão lindo e inspirador,
Mas a namorada brava e linda que me suporta nos momentos tristes
Inspira-me a escrever com leveza e humor.
terça-feira, 10 de maio de 2016
Dissertação sobre Augusto dos Anjos
Esta é minha dissertação de mestrado em Letras - Estudos Literários (2011), na qual estudo a poesia de Augusto dos Anjos (1884-1914).
http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_4543_.pdf
No capítulo 1 abordo suas influências, desde o positivismo da Escola de Recife até o seu misticismo. Augusto dos Anjos se caracteriza por congregar influências diversas e antagônicas, mas de forma dialética, resolver a seu favor os empasses entre medo e esperança, religião e ciência, vida e morte.
No capítulo 2 faço uma discussão sobre as pulsões psicanalíticas que reverberam em sua poesia: o Eros e o Tânatos complementando-se em equilíbrio.
No capítulo 3 o tema passa a ser a angustia existencial de seu "eu lírico" e como, na sua retórica, ele expressa a angustia de toda humanidade perante a morte e a vontade de transcendência que é intrínseca a todos os povos desde os primórdios da nossa História.
O poeta paraibano manifesta ao decorrer dos textos o seu complexo de Édipo, a sua rejeição da poesia erótica e da luxúria, a admiração pela maternidade e seu entusiasmo ecológico, beirando ao panteísmo e ao vegetarianismo.
Essas manifestações somadas aos recursos retóricos, além de toda a ciência e filosofia de seu tempo empregadas em sua poesia, são as bases que Augusto dos Anjos utilizou para lançar seu projeto literário, único e original, e que nos deixa uma pergunta sem resposta, mas também uma certeza: a palavra é imortal.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Sentença de Tiradentes
[...] prova, que especificamente soubessem da
conjuração e dos ajustes dos conjurados, mas que somente souberam das
diligências públicas, e particulares, que fazia o réu Tiradentes, para induzir
gente para o levante, e estabelecimento da república, pelas práticas gerais que
com ele teve, ou pelos convites que lhes fez para entrarem na sublevação,
suposto que não estejam em igual grau de malícia e culpa como os sobreditos
réus, contudo a reserva de segredo de que usaram, sem embargo de reconhecerem,
e deverem reconhecer a obrigação que tinham de delatar isso mesmo que sabiam,
pela qualidade e importância do negócio, sempre faz um forte indício da sua
pouca fidelidade, o que sempre é bastante para estes réus ao menos serem
apartados daqueles lugares onde uma vez se fizeram suspeitosos, porque o
sossego dos povos e conservação do Estado pedem todas as seguranças para que a
suspeita do contágio da infidelidade de uns, não venha a comunicar-se e
contaminar os mais.
Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva
Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da
Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas
públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que
depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar
mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e
o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho
de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames
práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os
consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens
aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada
e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será
avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um
padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]
http://www.portalan.arquivonacional.gov.br/Media/Autos%20da%20devassa%20completo.pdf
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Suffer little children
Tradução: “Deixai as criancinhas”. O
título dessa canção dos Smiths faz referência à Bíblia, livro de Lucas 18:16,
quando Jesus diz “Deixai vir a mim as criancinhas”. Mas há duplo sentido,
podendo ser traduzido como “Sofrem as criancinhas”.
A letra se refere a uma série de
assassinatos de crianças ocorridos em Manchester nos anos 60. O caso ficou conhecido
como “Moors Murders”, isto é, “Homicídios de Moor”. Esta última palavra é um termo geográfico sem correlato preciso na língua portuguesa, mas refere-se a um lugar como um planalto com prados ou um tipo de charneca britânica (moorland). É o local onde foram escondidos os corpos das vítimas.
![]() |
| Moor (ou Moorland) de Saddleworth, Manchester. |
Das crianças, três nomes são citados: Lesley Ann “Lesley Ann with your pretty white beads”[1]; John “Oh, John, you'll never be a man. And you'll never see your home again”[2] e Edward “Edward, see those alluring lights. Tonight will be your very last night”[3].
O verso “Find me, find me”[4]
refere-se a Keith Bennett cujo corpo nunca foi encontrado. A letra faz
referência também à mãe desse menino quando diz: “I know my son is dead. I'll
never rest my hands on his sacred head”[5].
Myra Hindley e Ian Brady receberam
prisão perpétua pelos homicídios. Ela é citada na letra: “Hindley wakes and says: Oh,
whatever he has done, I have done”[6].
A lírica de Morrissey assume uma voz
fictícia representando as crianças quando ele canta: “Estamos numa moor silenciosa e enevoada. Nós podemos estar mortos e podemos ter ido
para sempre. Mas sempre estaremos bem perto, até o dia em que vocês morrerem.
Este não é um passeio fácil. Nós os assombraremos quando vocês rirem. Sim, vocês
poderiam dizer que formamos um time. Vocês podem até dormir, mas vocês nunca
mais irão sonhar”. Esta fala também pode ser interpretada como vozes acusativas na consciência pesada do casal, ainda que a psicopatia seja caracterizada pela
ausência de remorso.
De acordo com o site Songfacts, Morrissey escreveu essa letra após ler “Beyond Belief: A Chronicle of Murder and its Detection” (Inacreditável: uma crônica de assassinato e suas descobertas). O livro não tem título em português, então fiz aqui uma tradução livre.
Este é um vídeo musical de “Suffer little children” com slides sobre o triste caso:
Nota 1: este é um exemplo de lírica sobre um caso verídico. Morrissey fez esta letra em tributo às vítimas e seus familiares. Ele próprio era uma criança quando esses crimes horríveis aconteceram em Manchester, cidade onde ele cresceu.
Nota 2: fiz uma tradução contextualizada aos fatos e de alguns trechos mais difíceis, buscando explicar as ocorrências de duplo sentido e a falta de correlato na língua portuguesa. Os demais versos não carecem de explicação, bastando uma tradução literal simples, por isso não os mencionei aqui.
A letra completa e correta, na sua versão original, pode ser vista neste site:
http://www.azlyrics.com/lyrics/smiths/sufferlittlechildren.html
Nota 2: fiz uma tradução contextualizada aos fatos e de alguns trechos mais difíceis, buscando explicar as ocorrências de duplo sentido e a falta de correlato na língua portuguesa. Os demais versos não carecem de explicação, bastando uma tradução literal simples, por isso não os mencionei aqui.
A letra completa e correta, na sua versão original, pode ser vista neste site:
http://www.azlyrics.com/lyrics/smiths/sufferlittlechildren.html
[1] Lesley
Ann, com seu belo colar de miçangas brancas.
[2]
Oh, John, você nunca se tornará um homem (adulto). E você jamais verá seu lar
de novo.
[3]
Edward, veja aquelas luzes atraentes. Hoje será sua última noite.
[4]
Encontre-me, encontre-me.
[5] Eu
sei que meu filho está morto. Eu nunca mais irei colocar minhas mãos sobre sua
cabeça sagrada.
[6]
Hindley acorda e diz: Oh, o que quer que ele tenha feito, eu também fiz.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Poesia e retórica
Eis um soneto em que se vê um
belo exemplo de retórica, assemelhando-se a um texto dissertativo, mas em
linguagem poética. Apresenta-se também como um texto metalinguístico, porque o
argumento sustentado pelo autor é justamente a valorização da forma textual. Olavo
Bilac defende a tese parnasiana segundo a qual o poeta deve prezar pelo valor
estético de sua obra e que esta produzirá o efeito esperado pelo artista.
A Um Poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica, mas sóbria, como um templo grego.
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica, mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
No primeiro quarteto o autor
introduz o tema e diz: “[O poeta] trabalha e teima, e lima e sofre, e sua”. No
segundo quarteto ele recomenda e argumenta: “Mas que na forma se disfarce o
emprego do esforço”, ou seja, que o poeta não expresse emoções, mas priorize a temperança
“como em um templo grego” e, sobretudo, o valor formal [estético] do seu
engenho [o fazer poético]. No primeiro terceto o autor reforça o argumento:
“Não se mostre na fábrica o suplício do mestre”. Isto significa que a
composição não deve enfatizar o sentimento do poeta, mas que o efeito “agrade
sem lembrar os andaimes do edifício [i.e: que o resultado final seja belo sem
lembrar o trabalho de composição]”.
No terceto final, Bilac conclui dizendo que a Beleza [a estética] é a Verdade,
inimiga do artifício [do sentimento produzido em poesia], e que a Beleza se
encontra na simplicidade [de conteúdo].
Os poetas parnasianos defendiam a arte pela arte, o culto à forma, rejeitando as emoções exacerbadas e os conteúdos elaborados. Eles foram uma antítese ao sentimentalismo romântico e à poesia social dos realistas.
Nota pessoal
Como leitor, valorizo a subjetividade
da poesia romântica e o engajamento político do Realismo, mas não posso negar
que Bilac desenvolveu uma excelente argumentação capaz de defender a proposta artística
parnasiana e de questionar os movimentos literários que a antecederam.
Observe que as minhas paráfrases
sobre trechos citados não dão conta de explicar totalmente o que o autor diz em
linguagem poética, porque esta forma de linguagem expressa um nível de
raciocínio que a linguagem dissertativa não é capaz de atingir sem simplificar
a riqueza semântica e formal do texto poético.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Nise da Silveira nas telas de cinema
O filme "Nise: o coração da loucura" estreia
nesta quinta, dia 21 de abril. A produção — estrelada por Glória
Pires e dirigida por Roberto Berliner — ganhou o festival de cinema
de Tóquio, no Japão.
Nise da Silveira foi pioneira da Psicologia Analítica no
Brasil, mantendo correspondências com Carl Jung.
Ela obteve reconhecimento internacional por suas ideias
humanistas no tratamento de doentes mentais.
Na década de 1930 foi detida pela posse de livros marxistas.
Tendo convivido com Graciliano Ramos na prisão, tornou-se personagem de sua
obra literária "Memórias do Cárcere".
Nise inovou ao estimular em seus pacientes a pintura de
telas e o contato com animais como técnicas coterapêuticas de reabilitação.
![]() |
| Uma das obras publicadas por Nise. |
![]() |
| Cartaz do filme |
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Letra de música traduzida
That Joke Isn't Funny Anymore
Composição de Morrissey e Johnny Marr (The Smiths)
Pare o carro no acostamento
Você deveria saber
A maré do tempo vai te sufocar
E a mim também
Quando você ri de pessoas
Que se sentem tão sozinhas
Que o único desejo delas é morrer
Eu lamento
Que isso não me faça sorrir
Eu gostaria de rir
Mas esta piada não tem mais graça
É muito perto de casa
É muito próxima ao osso
É muito perto de casa
É muito próxima ao osso
Muito mais do que você jamais saberá
Você os chuta quando eles caem
Você os chuta quando eles caem
Por que você tem que fazer isso?
Você os chuta quando eles caem
Você os chuta quando eles caem
Estava escuro como se eu dirigisse até chegar em casa
E nos bancos frios de couro
De repente me pareceu
Que eu simplesmente posso morrer
Com um sorriso no rosto afinal
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
E agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
E agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
E agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
Agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
Agora está acontecendo na minha
Acontecendo na minha, acontecendo na minha, acontecendo na minha
Acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
Agora, agora, agora
Está acontecendo na minha
Acontecendo na minha
Agora...
Comentário
Tentei ser o mais literal possível, isto é, busquei fazer uma tradução ipsis litteris. Mas algumas expressões como "parar no acostamento" devem ser contextualizadas, assim como o valor semântico de algumas palavras como "casa" e "osso", que parecem ser metáforas. Não utilizei recursos de adaptação formal, ou seja, ignorei as rimas e outras figuras fonéticas, prezando pela letra no seu sentido bruto, cru (i.e.: literal).
Composição de Morrissey e Johnny Marr (The Smiths)
Pare o carro no acostamento
Você deveria saber
A maré do tempo vai te sufocar
E a mim também
Quando você ri de pessoas
Que se sentem tão sozinhas
Que o único desejo delas é morrer
Eu lamento
Que isso não me faça sorrir
Eu gostaria de rir
Mas esta piada não tem mais graça
É muito perto de casa
É muito próxima ao osso
É muito perto de casa
É muito próxima ao osso
Muito mais do que você jamais saberá
Você os chuta quando eles caem
Você os chuta quando eles caem
Por que você tem que fazer isso?
Você os chuta quando eles caem
Você os chuta quando eles caem
Estava escuro como se eu dirigisse até chegar em casa
E nos bancos frios de couro
De repente me pareceu
Que eu simplesmente posso morrer
Com um sorriso no rosto afinal
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
E agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
E agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
E agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
Agora está acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
Agora está acontecendo na minha
Acontecendo na minha, acontecendo na minha, acontecendo na minha
Acontecendo na minha
Eu vi isto acontecer na vida de outras pessoas
Agora, agora, agora
Está acontecendo na minha
Acontecendo na minha
Agora...
Comentário
Tentei ser o mais literal possível, isto é, busquei fazer uma tradução ipsis litteris. Mas algumas expressões como "parar no acostamento" devem ser contextualizadas, assim como o valor semântico de algumas palavras como "casa" e "osso", que parecem ser metáforas. Não utilizei recursos de adaptação formal, ou seja, ignorei as rimas e outras figuras fonéticas, prezando pela letra no seu sentido bruto, cru (i.e.: literal).
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