sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poema de Augusto dos Anjos


Sonho de um monista

Eu e o esqueleto esquálido de Ésquilo
Viajávamos, com uma ânsia sibarita,
Por toda a pró-dinâmica infinita,
Na inconsciência de um zoófito tranquilo.

A verdade espantosa de Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus – essa mônada esquisita –
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho cálculo dos dias,

Como um pagão no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias! 

Fonte:
ANJOS, Augusto dos. Poesias de Augusto dos Anjos – Eu e Outras Poesias. São Paulo: Editora Letras & Letras, 2003.


Este é o poema mais hermético de Augusto dos Anjos. A análise completa do poema está em minha dissertação neste endereço:

O link acima leva à postagem de 22 de abril de 2011, cujo título é Textos publicados: dois poemas e dissertação. Lá haverá três links, o terceiro leva direto à minha dissertação.

A seguir, postarei algumas “pistas” para compreender este poema.

O monismo é a doutrina que prega uma realidade única, ou seja, a unidade em detrimento da dualidade, a união entre mente e corpo, espírito e matéria.

A referência a Ésquilo, dramaturgo grego frequentemente reconhecido como o pai da tragédia, aparentemente surge apenas em razão da sonoridade obtida no verso: “esqueleto esquálido de Ésquilo”. Com efeito, produz-se o eco dos sons: [esk], [esk], [esk]. O som realça a presença sombria do esqueleto – simbolizando a morte – que está próxima do eu lírico.  Mas “Ésquilo” também é metonímia para “tragédia”. Portanto, o eu lírico viajava na companhia da morte trágica.

A trecho “com uma ânsia sibarita” (2º verso) significa: ostentando valores materiais. Luxos e caprichos que o eu lírico deixará após uma descoberta, uma epifania que acontecerá mais adiante no poema.

O eu lírico e o esqueleto do dramaturgo grego viajavam na “inconsciência de um zoófito tranquilo”. Zoófito é uma designação antiga para corais, esponjas e medusas. Portanto, seria uma metáfora para microcosmos ou um mundo onírico, talvez surreal, visto que o texto menciona “inconsciência” (4º verso).

Na segunda estrofe, “A verdade espantosa do Protilo” aterrorizava o eu lírico. Protilo é um termo usado em alquimia, seria a hipotética matéria primitiva de que se formam os elementos dos corpos.

A conjunção coordenada adversativa “mas” (6º verso) sugere uma oposição entre “a verdade do Protilo” e “Deus”. Se a “verdade do Protilo” causa terror ao eu lírico, logo, Deus causa o oposto. A “alma” do eu lírico está “aflita” com a “verdade de Protilo” (ou teoria do Protilo). Mas o eu lírico “via Deus” dentro de sua “alma aflita” e essa visão o acalmava.

No sétimo verso, Deus é descrito como “essa mônada esquisita”. Mônada, segundo a teoria de Pitágoras, seria a união perfeita do espírito e da matéria constitutiva de Deus. Então, Deus, descrito como mônada, significaria a unidade de tudo: os microorganismos, o princípio criador, a união perfeita entre espírito e matéria, a simplicidade. O significado de “esquisita” nesse verso é “delicada, bem acabada, rara”, portanto, uma “mônada rara e bem feita”.

O eu lírico “via Deus coordenando e animando tudo aquilo”, ou seja, coordenando todo o universo e dando vida a tudo. O verbo animar significa dar ânimo, dar alma, dar vida, ou o sopro divino.

A própria etimologia da palavra relaciona-se ao sopro e ao ar, enquanto princípio vital. Animus – princípio pensante e sede dos desejos e paixões, correspondente ao grego anemos, ao sânscrito aniti, ambos significando sopro; de valor intelectual e afetivo; de registro masculino. Anima: princípio da aspiração e expiração do ar; de registro feminino. [...] Reteremos ainda uma outra definição dada por Jung: a anima é o arquétipo do feminino que desempenha um papel muito especial no inconsciente do homem. Se a anima é o índice feminino do inconsciente do homem, o animus, segundo Jung, é o índice masculino no inconsciente da mulher.

Fonte:
BRUNEL, Pierre. et al. Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.


Logo, no poema Deus pode ser também interpretado como o sopro divino que é a união perfeita entre princípios masculino e feminino, ou yin e yang (segundo a tradição oriental).

No décimo primeiro verso, o eu lírico se encontra “Alheio ao velho cálculo dos dias” Significa que ele abandonara a racionalidade, abandonara o “velho cálculo”.

No décimo segundo verso, há uma referência a Proserpina, a deusa romana cuja lenda fornece uma explicação mitológica para o ciclo das estações do ano. Enquanto Proserpina está no submundo de Plutão, é inverno na superfície terrestre, as plantas morrem, o alimento é escasso. Quando Proserpina deixa o submundo de Plutão e sobe à superfície, a primavera tem início e a terra se torna fértil para o plantio. Pelo caráter sazonal de seu mito, Proserpina está ligada a terra, à agricultura, à fecundidade, ao ciclo de nascimento-morte-renascimento, e por extensão, como vários outros mitos de fertilidade, carrega também um simbolismo de fecundidade sexual, ou seja, a união entre masculino e feminino gerando frutos (ou filhos). O pagão cultuava a deusa da fertilidade no rito de hieros gamos, rito este de caráter sexual, simbolizando a fertilidade. Este é o “altar de Proserpina”, mas a referência a ele, no poema, tem caráter apenas metafórico.

Ainda no décimo segundo verso, o eu lírico se compara com o pagão: “Como um pagão no altar de Proserpina”. Faz-se necessário lembrar que a palavra “pagão” vem do latim paganus, que por sua vez, vem de pagus, que indicava uma circunscrição territorial rural. Portanto, pagão significa originalmente homem do campo. O pagão tinha sua própria fé, as suas próprias crenças. A religião pagã era a religião do homem do campo, ligada ao culto da natureza. O sentido de pagão no poema é este: o pagão é o homem do campo, fiel, temente aos deuses e deusas da natureza. Portanto, o verso significa: “Como um fiel no altar da deusa da fertilidade”.

O homem do campo sem fé seria aquele que, preso à razão, preocupa-se em contar os dias para o plantio e a colheita, logo, está preso aos “velhos cálculos dos dias”. Mas o homem do campo com fé é aquele que vai ao altar de Proserpina, alheio aos velhos cálculos e entrega-se unicamente à fé, faz sua oferenda no altar da deusa e pratica seu culto confiando que, ao fazer isto, terá uma boa colheita.

Logo, o poema diz que o eu lírico “alheio ao velho cálculo dos dias” (alheio à razão) volta-se unicamente para a fé “como um pagão no altar de Proserpina”.

Em troca de sua devoção à Proserpina, o pagão queria obter fertilidade em sua lavoura e uma boa colheita. Mas o eu lírico não é o pagão, ele é “como um pagão”. Ou seja, ele se compara ao pagão que troca a razão pela fé. Mas ele não é devoto do paganismo e não busca boa colheita. O objetivo dele é outro: vencer a morte. A referência a Proserpina tem motivo apenas simbólico neste poema. O mito de Proserpina enfatiza a renovação da vida e, simbolicamente, refere-se à unidade entre masculino e feminino e à consequente renovação da vida por meio de frutos (filhos). O eu lírico enfrenta a morte trágica e teme a verdade de Protilo (que o fim da matéria seja o fim de tudo, o nada absoluto).

A epifania que o eu lírico tem é a seguinte: “E eu bendizia (9º verso) a energia intracósmica divina que é o pai e é a mãe das outras energias (13º e 14º versos)”. Ou seja, ao ver Deus animando tudo, o eu lírico se acalma diante da morte, pois Deus é a perfeita unidade (energia intracósmica divina) que é pai e mãe (masculino e feminino) de todas as energias. Assim, o eu lírico contradiz a “verdade de Protilo”.

Muito confuso? É mesmo. Mas leia o poema de novo e releia mais uma vez. Depois dessas informações, e mais duas leituras, creio que ficará um pouco mais fácil. Obviamente, a pulsão de morte e a pulsão de vida também se fazem presentes no poema: morte e renovação da vida, eterno ciclo alquímico:


Que, aliás, é a sílaba Om dos mantras hindus e antigos textos védicos. O som dessa sílaba representa a unidade, o "um", o eterno.

Repare de novo o título do poema: Sonho de um monista (Som de Om).

2 comentários:

  1. Muito bom, vou usar esse poema como epigrafe do meu texto de qualificação de doutorado sobre o filósofo alemão Leibniz, mônada, também é um termo chave para Leibniz, alias uma de suas principais obras é a monadologia.

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