quarta-feira, 10 de junho de 2020

Tecendo a manhã


1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


João Cabral de Melo Neto in A educação pela pedra (1966).

João Cabral de Melo foi um diplomata e poeta pernambucano. Como um exemplo de sua obra modernista, temos o poema acima, que, neste caso, não apresenta métrica [número fixo de sílabas poéticas] nem rimas externas.

Apesar de não se concentrar em formas fixas tradicionais [como sonetos, odes etc] esses versos trazem outras figuras sonoras; como a repetição de certas palavras, sílabas e fonemas.

Neste poema, o autor usa os cantos dos galos como metáfora de união, no mesmo sentido do ditado popular “uma andorinha só não faz verão”.

Assim como o ditado coloca a vinda as andorinhas como causa do verão, e não como sua consequência, João Cabral colocou os cantos dos galos como causa do amanhecer, embora saibamos haver uma inversão entre causa e consequência. Na realidade, o galo canta porque amanhece, e não o oposto.

Com esse efeito, o poeta pretende enfatizar a união como um bem, uma força, uma virtude.

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele [lançou]
e o lance a outro [...]

E assim, sucessivamente, um galo lança seu canto a outro galo e eles vão tecendo o amanhã. O poeta usa o verbo tecer, porque ele compara os cantos dos galos a “fios de sol” (verso 8), e assim, materializando esses cantos em uma imagem: os cantos dos galos como fios do amanhecer.

 [...] se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo [...]

O conjunto de cantos forma um conjunto de fios que tece o céu matutino, que o poeta compara a teia, tela, tenda e toldo. Aqui há uma gradação crescente, isto é, uma figura de linguagem que mostra um processo crescente; do fio à teia, da teia à tela, da tela à tenda, da tenda ao toldo.

[...] a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo (1ª estrofe, linhas 9 e 10)

E na segunda estrofe, linhas de 1 a 4:

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã)

Finalmente se tem o toldo, isto é, o céu matutino comparado a um longo tecido acima de uma superfície, acima de todos. Nesses versos, o João Cabral faz um jogo fonético entre as palavras “todos” e “toldo”. E além da aproximação semântica que o poeta criou entre as palavras “teia”, “tela”, “tenda”, “toldo”; também há semelhança fonética entre elas: teia, tela, tenda toldo.

Ainda no mesmo trecho, há uma palavra criada pelo autor: "entretendendo", gerúndio do verbo "entretender". Antes desse neologismo aparecer, a estrofe trouxe as palavras "entre" (preposição) e "entrem" (verbo). Então, morfologicamente, o neologismo seguiu essa tendência formal. Já no campo semântico, ele pode ter o significado de entreter + tender.

Nos versos seguintes, há um jogo semântico entre 1-tecido [substantivo masc.] e 2-tecido [verbo no particípio passado]:

A manhã, toldo de um tecido¹ tão aéreo
que, tecido², se eleva por si: luz balão.

No último verso, o autor define esse toldo como “luz balão”. Isto é uma figura imagética, algo que estimule a imaginação do leitor sobre esse tecido aéreo em movimento, se elevando como um balão.



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