quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Noam Chomsky discute Paulo Freire.


Em Harvard discutem Paulo Freire: 45 anos da publicação de "Pedagogia do Oprimido". Enquanto isso no Brasil......
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
Obrigado, Álvaro de Campos!!!!!!


* Noam Chomsky é um dos mais renomados linguístas do mundo, ativista político e filósofo.

** Álvaro de Campos é um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Ele é o heterônimo futurista e cosmopolita, em oposição a Alberto Caeiro (pastor bucólico), Ricardo Reis (latinista) e o próprio Fernando Pessoa (saudosista e místico português).

*** A onomatopeia no comentário acima é uma referência ao poema "O binômio de Newton" de Álvaro de Campos.

Obs: simultaneamente, também devemos comemorar o aniversário de 45 anos do álbum "Abbey Road" dos Beatles.















Parabéns aos ilustres aniversariantes. Que lástima serem tão pouco lembrados!




















Poema de Ricardo Reis



De Ricardo Reis (provavelmente dedicando a Alberto Caeiro)



Mestre, são plácidas 
Todas as horas 
Que nós perdemos, 
Se no perdê-las, 
Qual numa jarra, 
Nós pomos flores. 

Não há tristezas
Nem alegrias 
Na nossa vida. 
Assim saibamos, 
Sábios incautos, 
Não a viver, 

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos, 
Lendo as crianças 
Por nossas mestras, 
E os olhos cheios 
De Natureza ... 

À beira-rio,
À beira-estrada, 
Conforme calha, 
Sempre no mesmo 
Leve descanso 
De estar vivendo. 

O tempo passa,
Não nos diz nada. 
Envelhecemos. 
Saibamos, quase 
Maliciosos, 
Sentir-nos ir. 

Não vale a pena
Fazer um gesto. 
Não se resiste 
Ao deus atroz 
Que os próprios filhos 
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos 
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos,tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Poema de Florbela Espanca


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca 


Poema de Fernando Pessoa

    Gato que brincas na rua
    Como se fosse na cama,
    Invejo a sorte que é tua
    Porque nem sorte se chama.


    Bom servo das leis fatais
    Que regem pedras e gentes,
    Que tens instintos gerais
    E sentes só o que sentes.


    És feliz porque és assim,
    Todo o nada que és é teu.
    Eu vejo-me e estou sem mim,
    Conheço-me e não sou eu.



    Fernando Pessoa, 1-1931
     

sábado, 1 de novembro de 2014

A flor-de-lis como símbolo do curso de Letras



Uma análise semiótica:

Alguns modelos da flor-de-lis

As três pétalas superiores representam a tríade que compõe o curso: Linguística, Literatura e Gramática.

1- A pétala do meio é a Literatura (Letras em latim é Litteris). Por sua etimologia é a pétala central. Repare que ela aponta para cima, para o ideal, o elevado.

Sócrates apontando para o alto (o mundo ideal).


2- A pétala da direita é a Gramática, a tradição conservada.

3- A pétala da esquerda é a Linguística, a ciência, a revolução racional e crítica.

O traço horizontal no centro da imagem representa a união entre as três pétalas (Linguística, Literatura e Gramática) como um feixe.

Um feixe (símbolo de união)


Cada pétala tem sua continuidade abaixo do traço horizontal, ou seja, um lado idêntico, porém, oposto. É a representação da Dialética, a antítese de cada pétala, logo, a figura como um todo é uma síntese, representando o equilíbrio. A dialética foi uma das disciplinas curriculares básicas da Antiguidade e Idade Média.

Gramática, Retórica e Dialética entre as 7 Artes Liberais.

Outra análise:

A metade abaixo do traço horizontal também pode representar o caule e a raiz das pétalas, ou seja, a busca pelas fontes do conhecimento, a procura pelas raízes da sabedoria, a investigação do que está oculto (a raiz se esconde embaixo da terra).

Árvore e raiz, Yin Yang: dialética, equilíbrio.


As três pétalas também podem significar os gêneros lírico, narrativo e dramático. Ou ainda: descrição, dissertação e narração.

A coruja como símbolo de Letras representa a docência, a sabedoria, a curiosidade e o mistério. Como Licenciatura, divide a coruja com outras licenciaturas: Filosofia e Pedagogia.






Comentário meu adicionado em 30/05/2020
Em 2017 a página Língua Portuguesa do Facebook usou minha análise das pétalas e outras informações deste blog sem dar o devido crédito:


"As três pétalas superiores representam a tríade..." (plágio da minha análise)















Vejam que minha postagem é de 2014. A postagem da página Língua Portuguesa é de 2017 e não cita meu blog. Essa análise das pétalas e seus significados no curso de Letras não existiam antes. Em 2014 eu procurei na internet e não achei nenhuma explicação para a flor-de-lis ser o símbolo do curso de Letras. Então, criei minha própria explicação, com base em simbologia e semiótica. Desde então, essa explicação tem sido usada, por alguns, sem dar o devido crédito a este blog. Não é uma coincidência de palavras, usam exatamente as mesmas palavras que eu usei. E quais as probabilidades matemáticas de eles chegarem à mesma análise de significados das pétalas e com as mesmas palavras que eu usei?  É plágio constatado e comprovado!

Dito isso, só me basta ficar feliz por essa postagem ter feito tanto sucesso, com mais de 60 mil visualizações. Para um tema tão específico e sem apelo, é uma vitória.

Devido ao sucesso da postagem de 2014, fiz outra sobre a flor-de-lis em 2015:

http://interludico.blogspot.com/2015/01/a-flor-de-lis.html

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Literatura e psicanálise: Alteridade e terror auto-infligido



Gostar de tomar susto assistindo a filmes de terror ou descendo uma montanha russa. A isto dou o nome de “terror auto-infligido”. Mas não fica apenas nisso, como podemos ver a seguir.

Alguns casos clássicos:

a) O Autocrítico – o sujeito que sofreu uma castração rígida no período edipiano e que por isso possui um alto sistema de valores morais. Este sujeito não se permite à felicidade plena, mesmo quando tudo está bem em sua vida. Ele sempre se compara aos outros (alteridade), mas de modo a diminuir-se e cobrar-se mais.

a.1) Casos extremos: síndrome de pânico e transtorno de pânico.

b) O "crítico do vizinho" – este sujeito projeta suas insatisfações pessoais no outro (alteridade).

b.1) Caso extremo: o sádico – aquele que sente prazer no sofrimento alheio.

c) O apaixonado pelo desprezo – aquele sujeito que sempre se apaixona pela pessoa que mais o despreza. Há aí uma necessidade do sujeito de sofrer nas mãos de um outro (alteridade).

c.1) Caso extremo: o masoquista – aquele que sente prazer na dor física e/ou psicológica infligida por um outro.


Todos esses casos podem ser vistos nos estudos psicanalíticos e na literatura em geral: em personagens, narradores ou no eu lírico de alguns autores. O terror auto-infligido é muito comum. Reconhecê-lo e compreender suas razões é compreender a própria complexidade do ser.

É importante salientar que o terror auto-infligido é também um sofrimento auto-infligido. 

No campo social isso pode ser notado também, por exemplo, no pessimismo político que algumas pessoas manifestam, tanto em época de paz como em época de guerra, tanto na recessão econômica quanto no crescimento do país. Isto são sintomas de uma era pessimista. Por mais que as pessoas desfrutem de um padrão digno de vida, de "bens" de consumo e das facilidades tecnológicas, há muitas queixas e a sensação de que tudo vai mal. O pessimismo social é um terror auto-infligido, mas também é um terror infligido pela influência de terceiros a mídia, por exemplo.

Em razão do medo, a sociedade cede ao controle de terceiros. Isso até ela descobrir que não há razão para ter medo.




Dica de filme: "O primeiro amor" (Flipped, EUA, 2010).

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Sobre o perdão



Ô de casa, eu tô pra lhe dizer

Da glória da história deste homem que nasceu para morrer.



- E você cantou pra ele, encomendador de almas?

- Não houve um funeral, ô mestre das falas.

- Foi ele um homem pobre, encomendador de almas?

- Foi rico espiritual, ô mestre das falas.

- E como era essa riqueza, encomendador de almas?

- Era da sua nobreza, ô mestre das falas.

- Foi ele um rei falido, encomendador de almas?

- Era humilde pra ser rei, ô mestre das falas.

- Quanto humilde era ele, encomendador de almas?

- Lavou os “pé” de doze homens, ô mestre das falas.

- Foi ele um escravo, encomendador de almas?

- Sofreu como se fosse, ô mestre das falas.

- E por onde ele andava, encomendador de almas?

- Por toda, toda parte, ô mestre das falas.

- Foi ele um cigano, encomendador de almas?

- Tão sábio quanto um, ô mestre das falas.

- Quão sábio era ele, encomendador de almas?

- Sabia perdoar, ô mestre das falas.

- E o que mais ele fazia, encomendador de almas?

- Fez grandes proezas, ô mestre das falas.

- Trabalhava em um circo, encomendador de almas?

- Cativante como um, ó mestre das falas.

- Que proezas eram essas, encomendador de almas?

- Respeitava a natureza, ô mestre das falas.

- Era ele algum índio, encomendador de almas?

- Tão puro quanto um, ô mestre das falas.

- E o que mais ele fazia, encomendador de almas?

- Falava com um dom, ô mestre das falas.

- Foi ele um professor, encomendador de almas?

- Igual mal-valorizado, ô mestre das falas.

- O que foi ele afinal, encomendador de almas?

- Foi tudo isso um pouco, ô mestre das falas.

- E como pode isso, encomendador de almas?

- Ele amava a todos, oh irmão poeta.

- E ele viveu bem, encomendador de almas?

- Com morte sofrida, oh irmão poeta.

- E foi matada ou morrida, encomendador de almas?

- Foi morte matada, oh irmão poeta.

- E por que ele morreu, encomendador de almas?

- Ele foi mal compreendido, oh irmão poeta.

- Deixou ele alguma herança, encomendador de almas?

- Esperança do perdão, oh irmão das palavras.

Música e letra compostas em 2001, com registro de direito autoral nº 223.949, livro 393, folha 109, na Fundação Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro.  

A letra foi inspirada pelo auto "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Enquanto espero

Este soneto pra passar as horas
Só foi escrito para matar o tempo;
Pois longos minutos causam a demora
Do que espero que não seja lento.

Essa areia que teima na ampulheta,
Essa água na clepsidra engasgada
Parece que parou todo o planeta,
Saber da rotação vale de nada!

Que ciência ingrata e maldita esta é
Do relógio e dos números exatos,
Mas frios e por isso não dou fé.

Prefiro a arte inexata das musas
Na qual me refugio com paixão
Para matar o tédio e a solidão.



Decassílabo, esquema de rimas: ABAB CDCD EFE GHH
Renan, 27 de agosto de 2014.