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sábado, 21 de dezembro de 2024

Antigo Egito

Tawy [em egípcio antigo], Aegypt [na raiz greco-latina], Mirs [em árabe atual]. O nome antigo do Egito [Tawy] significa "duas terras", ou seja, o Alto Egito [ao sul] e o Baixo Egito [ao norte, até o mediterrâneo]. O faraó usava uma coroa dupla simbolizando a unificação das duas terras.

A antiga palavra "Kemet" significa "terra negra" e referia-se à terra fértil nas margens do rio Nilo, em oposição à "Deshret", que significa "terras vermelhas/desérticas".

De todas as civilizações antigas [fenícios, persas, gregos, romanos etc] os egípcios são para mim os mais fascinantes. Obviamente a cultura greco-romana é de longe a mais influente em termos históricos. 

Todavia, as pirâmides do Egito são os monumentos mais impressionantes que qualquer civilização já construiu. 

Além disso, os hieróglifos, desenhos, esculturas, templos, estátuas gigantes e a Grande Esfinge de Gizé são objetos lindíssimos e sem precedentes em todas as culturas ao redor do mundo.



 









O antigo Egito em sua máxima extensão [no período do Império Novo].

Domínio sobre Biblos, Sidom e Tiro [cidades fenícias] e o Reino Cuxe ao sul






















A controvérsia da “raça egípcia”

Aplicar noções atuais de "raça" branca ou negra ao Antigo Egito é anacrônico. A história do Antigo Egito é milenar. Vários povos passaram e habitaram aquela região: assírios, fenícios [hoje sírio-libaneses], palestinos, núbios, hebreus, persas, gregos, romanos, árabes etc.

Porém, em 2017, um estudo genético foi conduzido com amostras de 151 múmias do norte do Egito, que estavam enterradas no Cairo, que constituiu o primeiro dado confiável obtido dos antigos egípcios usando métodos de sequenciamento de DNA de alto rendimento. O estudo mostrou que os antigos egípcios têm grande afinidade com povos modernos do Oriente Médio. Ainda assim, essa amostra representa uma fatia pequena daquela população e a maioria dos acadêmicos rejeita a ideia de que o Antigo Egito era composto de um povo homogêneo. A cor da pele variava por região [Alto Egito, Baixo Egito e Núbia] e em eras diferentes cada um desses povos subiu ao poder.


A gravura do Livro dos Portões, encontrada em túmulos do Novo Reinado, mostra as etnias conhecidas pelos egípcios até então:

Da esquerda para a direita: Líbio, núbio, semita, egípcio.












Linguisticamente, o egípcio antigo é um idioma quase isolado, tendo algumas similaridades com línguas semíticas [Oriente Médio] e línguas berberes [norte da África ocidental].


Raotepe e sua esposa Noferte (Museu do Cairo)
Raotepe era irmão do faraó Quéops, ambos filhos de Seneferu.






O Reino Cuxita (Kush ou Cuxe) localizava-se na Núbia, atual Sudão [ao sul do Egito]. Era muito rico em ouro. Na história do povo cuxita houve períodos de guerra contra o Egito, mas também convivência, e um período de dominação do Egito, que durou pouco mais de 1 século. Este período é conhecido como a era dos faraós negros. 


Periodização [meus destaques pessoais]

Império Antigo (2686 a 2181 a.C.) - capital: Memphis; necrópoles: Saqqara e Giza (Gizé).

Império Médio (2050 a 1710 a.C.) - capital: Tebas

Império Novo (1539 a 525 a. C.) - inclui o reinado de Ramsés II; necrópoles: Vale dos Reis e V. das Rainhas

Domínio persa (curto período, antes da conquista macedônica)

Período Ptolomaico ou Helenismo (332 a 30 a.C.) - capital: Alexandria.

Período Romano: a partir de 30 a.C.

Cristianização do mundo romano: a partir de 337 - destruição da biblioteca de Alexandria. 

Parte do Império Bizantino: a partir de 395

Expansão islâmica [árabes]: 632-661

Egito Otomano: 1517-1867 e invasão napoleônica (1798)

Colônia britânica

Independência do Egito (1922) e fundação da república (1953)


Cronologia de faraós [meus destaques pessoais]

Djoser - construção da primeira pirâmide do Egito [2.648 a.C.], em Sakkara, pelo arquiteto Imotep.

Seneferu - construção da pirâmide curvada e da pirâmide vermelha, em Dashur. Era pai de Quéops.

Quéops [2.589 - 2.566 a.C] - construção da primeira pirâmide de Gizé, seguido por seu filho Quéfren e seu neto Miquerinos.

Os Reis do Sol, com destaque para o rei Unas, pois sua pirâmide em Sakkara foi a primeira a ter inscrições e esses textos são os textos religiosos mais antigos já encontrados no mundo.

Faraó Aquenáton e rainha Nefertiti [1.370–1.330 a.C.]

Nefertiti: escultura da época de seu reinado








Tutancâmon e sua rainha Anksenamon [1.341 - 1.323 a.C.] 

Ramsés II, apelidado Ozymandias [1279 - 1213 a.C.] também conhecido como Ramsés, o Grande.

Dinastia núbia [reino Kush] - faraós negros, originários do atual Sudão [770 a 657 a.C.] - durou 113 anos. Curiosidade: O Sudão é o país com mais pirâmides no mundo.

Alexandre, o Grande: fundação de Alexandria em 331 a.C - início da dinastia macedônica, período conhecido como Helenismo - disseminação da cultura grega.

Ptolomeu - Alexandre da Macedônia foi proclamado faraó. Após sua morte, o general macedônio assumiu o trono egípcio. A partir daí, várias gerações de faraós macedônicos reinaram até 30 a.C. - durou exatamente 300 anos.

Cleópatra [falecida em 30 a.C.] - Seu nome era Cleópatra VII Filopátur [tradução: a sétima filha do pai, amada pelo pai].

A última rainha macedônica era poliglota e grande estudiosa de várias disciplinas, por isso talvez fosse a mulher mais culta de sua época. Sua morte marca o início da dominação romana. Antes, foi aliada do grande general de Roma: Caio Júlio César. Após o assassinato deste, ela aliou-se ao militar romano Marco Antônio, numa tentativa infrutífera de proteger seu reino. Mas foram derrotados e o imperador Augusto, sobrinho-neto de César, passou a controlar o Egito.

Ela teve um filho com Júlio César [Ptolomeu Cesarion] e três com Marco Antônio: um casal de gêmeos, Alexandre Hélio [Alexandre Sol] e Cleópatra Selene [Cleópatra Lua]; e o caçula Ptolomeu Filadelfo.


Cleópatra em uma moeda de sua época







Busto de Cleópatra esculpido em Roma
na época em que a rainha visitou a cidade.













Retratos de Fayum: pinturas sobre os caixões de múmias do Egito no período romano
















Observação: A atual polêmica sobre a cor dos egípcios antigos e a cor de pele da rainha Cleópatra [sua etnia e raça] não têm base histórica, mas sim ideológica, baseada em conceitos restritos e arcaicos de "raças" humanas. É um debate pseudocientífico e contraproducente. Não há mistérios neste mundo para a verdadeira Ciência, que já explicou, com riqueza de detalhes factuais, questões muito mais complexas, como a origem do Universo, a origem da vida e sua evolução. No mundo científico não há espaço para falácias e bobagens conspiratórias. As pirâmides e o Serapeum não foram construídos por alienígenas. O povo egípcio antigo era semítico-africano e também misto, com variações na cor de sua pele. O verdadeiro rosto de Cleópatra nunca foi um mistério. E desde Eratóstenes [Cirene 276 a.C - Alexandria 194 a.C.] o formato da Terra redonda já era conhecido.


Vídeo explicando o cálculo da circunferência da Terra, feito por Eratóstenes em Alexandria:




Dica de leitura: A Pedra da Luz - Nefer, o Silencioso [clique no link para ler minha análise do livro]



















Curiosidade para pesquisar:

Máscara mortuária de Tutancâmon





















A máscara cobria o rosto do faraó mumificado, dentro de 3 sarcófagos. A descoberta de seu túmulo foi considerada revolucionária e uma das mais importantes do séc. XX, graças à persistência do arqueólogo Howard Carter (Kensington 1874 - Londres 1939).


Curiosidade para você pesquisar:
Serapeum - Sakkara (ou Saqqara) - 24 túmulos gigantes, colocados num enorme corredor, para os touros sagrados.





Sobre a origem dos antigos egípcios, assista ao vídeo a partir do minuto 38:23


Segundo o estudo acima, baseado principalmente em anatomia, genética e linguística, os povos árabes, egípcios e berberes são descendentes de povos que vieram da Anatólia [atual Turquia] e do Oriente Médio no período neolítico. Eles tinham a pele clara.

Já ao sul do Egito, na Núbia, os povos tinham a pele escura, como já foi falado aqui nesta postagem.


Acima, um vídeo sobre a questão étnico-racial no Egito.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Dica de leitura: Nefer, o Silencioso







A Pedra da Luz - Nefer, o Silencioso.

Romance escrito pelo parisiense Christian Jacq, doutor em estudos egípcios.










A trama se passa durante o governo de Ramsés, o Grande. Uma confraria de artesãos e sacerdotisas em Tebas vive como uma comunidade isolada de iniciados que guardam secretamente seus conhecimentos. Usando de sua arte, esses artesãos têm o trabalho de construir, conservar e restaurar as moradas eternas dos faraós e rainhas do Egito.

A obra descreve em detalhes a vida nesse período do Egito Antigo, bem como os trabalhos feitos pelos escultores, desenhistas, pintores... e os ritos místicos que envolvem cada ação realizada por essa confraria.

Contudo, há uma conspiração se armando entre figuras poderosas de Tebas. Algumas delas motivadas por ganância, outras querendo modernizar o Egito e acabar com certas tradições, ou ainda por mera vingança. Esses detentores de altos cargos na sociedade tebana se reúnem às escuras com o objetivo de destruir a confraria do Lugar da Verdade¹, acabar com seus privilégios e descobrir seus segredos.

O enredo têm momentos de luta, amor e aventura. Algumas personagens recebem mais atenção e suas histórias individuais despertam a curiosidade do leitor. 

Para mim, a personagem mais cativante nessa obra é o jovem Paneb, o Ardoroso. Sua trajetória de vida em busca do sonho de se tornar desenhista e pintor, passando por várias provações, é um exemplo envolvente de perseverança!

É uma leitura simples, fácil de ser digerida, mas muito inteligente e prazerosa. Não é cansativa nem chata. Muito pelo contrário! Se você se interessa pelo Antigo Egito, por história antiga e assuntos afins, este é um romance que nos coloca no cotidiano dessa magnífica civilização.



¹ Lugar da Verdade, em egípcio antigo set Maât, era o local onde ficava a confraria de artesãos. O nome era em honra à deusa Maât que simboliza a verdade, a justiça e a retidão.


Detalhes técnicos:
462 páginas;
Bertand Brasil, 2011;
Tradução: Maria Alice Araripe de Sampaio Doria.




ADENDO (03/01/2020)

Nefer foi enterrado em Tebas, tumba 250 (JACQ, 2011, p. 119)

Paneb é citado no Papiro Salt 124 (BM 10055), datado da XX dinastia. Artesão residente do Lugar da Verdade, chefe de equipe do lado esquerdo, casado com Uabet.

No papiro citado acima, um tio adotivo faz várias queixas sobre Paneb, e as envia, em forma de carta,  ao vizir de Tebas. Porém, segundo interpretações de estudiosos sobre o conteúdo exaltado da carta, as acusações dão margem a muitas dúvidas, com muitos traços de parcialidade. Uma fonte diz que "Apesar de boa caligrafia, o papiro tem uma gramática ruim".

O papiro Salt 124 (BM 10055) está guardado no arquivo do Museu Britânico.



Papiro Salt 124 (BM 10055) - British Museum



















A coluna monolítica (pedra comemorativa) de Paneb























Fontes

O caso Paneb:
https://journals.openedition.org/cultura/1535


Museu Britânico:
https://research.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=100909&partId=1