quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Radionovela: o último dia de Sócrates



Capítulo 1: Sócrates na prisão, um dia antes da execução da sentença de morte.














BG: passos lentos no calabouço. Música do ápice para o fade out.

Xenofonte:
- Mestre...
Sócrates:
- Sim, Xenofonte.
-         Eu vos acordei?
-         Não, eu não estava dormindo.
-         Há quanto tempo estais assim, mergulhado... pensando?
-    Não tenho noção do tempo aqui, contemplo as idéias atemporais, não penso sobre coisas inconstantes como o tempo.
-         Não pensais preocupado com vosso destino?
-         Digas-me, o que é o destino?
-   Não tenho segurança para afirmar, mas vós que perguntais quereis ouvir uma resposta.... O destino deve ser uma vontade acima da vontade dos homens. O destino dita a vida dos homens.
-         Se achas mesmo isso, não deverias pensar que estou preocupado.
-         Por que, mestre?
-       Se o destino é o que me dizes, ele se encarrega de tudo. Se ele está acima da vontade dos homens, de nada adiantaria preocupar-me, se não posso mudá-lo. Logo devo aceitá-lo.
-         Confesso, mestre, não sei o que é o destino. Esclarecei-me, então.
-        Da mesma forma como nós buscamos responder a questões que nossos antecessores levantaram, nossos sucessores tentarão o tempo para responder a essa pergunta. Logo, isso é questão de tempo.
-         Platão:
-       Mestre, o vosso tempo está se esgotando. Deveis fugir. Vossos discípulos, eles não vos abandonarão, todos nós já preparamos um esconderijo com água e comida, longe de Atenas. Deveis fugir hoje à noite, amanhã poderá ser irremediável.
-         Se eu fugisse, eu não teria orgulho de mim mesmo e tão pouco vós o teríeis. Não seria, após fugir, admirado por vós tendo eu abdicado das minhas próprias ideias. Minhas ações não seriam merecedoras de minhas palavras. Platão, tu és meu discípulo mais esforçado. Não te lembreis das palavras que eu disse em meu julgamento?
-         Sim mestre, lembro-me bem.
-    Então fico feliz de saber que não me decepcionai. Após a minha morte, viverei na lembrança de meus discípulos.
-     Mas mestre, não quero vos retrucar, sei que estais seguro de que existe uma alma imortal e que vivereis para sempre. Sei que vos anseias em conversar com outras almas de sábios que deixaram este mundo de sombras. Porém não vos preocupais com vossa mulher e filho?
-     Sim, Platão, essa é mais uma razão para não fugir à minha sentença. Se fugir, não poderei retornar para minha mulher e meu filho, pois na companhia deles me encontrariam, e eu os exporia ao perigo. Tão pouco poderia eu fazer da vida de minha família uma aventura, obrigando- os a fugir para sempre. A responsabilidade do que eu disse e pensei deve recair apenas sobre mim. Quero poupar meu filho, pois se eu estiver errado, e não existir uma alma imortal; e a morte for um sono do qual não se acorda e não se sonha, eu pelo menos viverei, após minha morte, na lembrança de meu filho, que é minha carne e meu sangue. E meu filho viverá na lembrança e na carne de seu filho. Essa é uma forma de viver eternamente.... Já não sou jovem como vós, meus discípulos. Se fugisse, quanto tempo mais minha carne duraria neste mundo? Mais cedo ou mais tarde eu morreria, se não velho e doente, morto por algum que se sente ofendido comigo. Não poderia viver fugindo disso. Sinto pela minha mulher, que não poderá me abraçar novamente neste mundo. Mas espero um dia que, se houver um outro mundo, ela, meu filho e todos vós se encontrarão comigo lá.
Epicuro:
-         Mestre, qual a razão de vivermos se depois morremos. Não deveríamos morrer logo, e assim apreciar o outro mundo desde já?
-         Por Zeus, não Epicuro! Não deveis negar a importância do mundo material. Aqui estás por um motivo, deves olhar para dentro de ti mesmo para entender esse motivo. Assim te tornareis um homem virtuoso.
Zenão:
-         Mestre, não entendo esta calma com que vós vedes a proximidade da morte.
-     Zenão, não considereis isso um feito temerário. Não seria racional me arriscar numa causa a qual minha própria razão descrê. Se faço o que faço é porque acredito em minhas ideias. E não importa a época, a razão é atemporal, sendo assim, um dia entenderás também. Se negares tua condição humana sofrerás. Se aceitas com sabedoria que a morte e sofrimento são condições humanas, poderás mudar sua condição de sofrimento.
-         Antístenes:
-        Mestre, ainda assim, não me convenci. Não temeis a dor, mas as vossas necessidades serão satisfeitas após aceitares vosso destino?
-         Antístenes, meu amigo, os atenienses precisam de muitos luxos para viver. Na verdade eles ainda ignoram que não necessitam nem da metade da metade do que possuem. Tudo que necessito no momento é cumprir minha missão neste mundo, e ela será concluída após minha sentença, quando não abdicarei da razão de que há uma alma imortal em todos nós. Assim provarei a convicção das minhas ideias para vós, e assim poderão continuar, após minha morte, a buscar o próprio conhecimento que vós tendes dentro de vós. Não sou nenhum sábio, não vim ensinar uma doutrina, não poderia, pois nada sei. Só vim vos ajudar a vos tornardes conscientes da vossa própria ignorância, a desfazerdes dos vossos preconceitos e presunções que vós tendes. Vim como uma parteira, vos auxiliar a vós mesmos a darem a luz a vossas próprias novas idéias. Saiam das sombras da ignorância. Conheceis a vós mesmos e sereis virtuosos. Essa era a minha missão. 



Personagens:

Sócrates (469 a.C. a 399 a.C). – filósofo ateniense, criador da maiêutica, pai da filosofia humana ocidental. Célebre pelas frases "Só sei que nada sei" e "Conhece-te a ti mesmo".

Xenofonte Discípulo de Sócrates e relator de seus feitos.

Platão – Discípulo de Sócrates. Autor da "Apologia de Sócrates", livro que descreve o julgamento e autodefesa de seu mestre. Também escreveu o "Fédon", livro que trata da imortalidade da alma. Platão foi um filósofo idealista e criador da “alegoria da caverna”.

Epicuro Discípulo de Sócrates. Fundador da filosofia dos epicuristas. Estes reuniam-se num jardim. Eles valorizam os prazeres materiais (experiência sensitiva) e negavam a imortalidade da alma com base no atomismo de Demócrito.

Zenão Discípulo de Sócrates. Fundador da filosofia dos estóicos. Estes eram caracterizados pela indiferença ao exterior (tranquilidade estóica) e pela razão atemporal.

Antístenes Discípulo de Sócrates. Fundador da filosofia cínica. Para os cínicos a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo.
 

Renan, 2005.

Obs: esta é uma ficção criada por mim com o objetivo de ilustrar como Sócrates influenciou correntes variadas de pensamento filosófico. A inspiração veio um pouco de "Fédon", mas obviamente com mudanças e personagens acrescidos.

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