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sábado, 16 de outubro de 2021

O luthier

Precisando manutenir meu violino, recebi a dica de um velho amigo: levar o instrumento a um experiente luthier.

Esse amigo é um grande professor de música e sei que ele sabe do que fala. Sua argumentação, como conhecedor dos mistérios da antiga arte das musas, é tão técnica quanto didática - própria de alguém que é músico e também professor. Como se precisasse de mais, li uma avaliação do serviço daquele luthier que me fora recomendado. A nota dizia que ele tinha mãos mágicas.

Portanto, certo de que meu instrumento estaria em ótimos cuidados, tratei logo de seguir o conselho do meu velho amigo.

Chegando lá, no atelier havia vários instrumentos em construção e alguns em conserto. Era ao mesmo tempo um berçário de instrumentos musicais e também um hospital de violinos, violões e violoncelos.

O senhor luthier me recebeu muito bem e prontamente tratou de assistir meu violino, a fim de avaliar quais reparos seriam necessários. 

Enquanto eu aguardava o seu exame, caminhava admirando o atelier, que era um oásis de madeira e verniz, agradáveis à visão e olfato.

Num canto da parede, palavras atraíram meu olhar. Numa lista dos serviços que eram prestados naquele estabelecimento, um deles dizia assim: Colocação da alma do violino.

Lendo isso, recebi a informação inicialmente com surpresa: Violinos têm alma? Mas não tive qualquer resistência em aceitar isso, pois parecia óbvio supor que um instrumento tão angelical quanto o violino tivesse alma. E se alguém neste mundo era capaz de colocar alma em um violino, esse alguém era aquele artesão de mãos mágicas.

Perguntei àquele homem se meu violino tinha alma. Ele respondeu afirmativamente: "Sim. Mas posso colocá-la melhor! E fora alguns reparos no braço dele, você poderá retirar seu violino em poucos dias."

E assim se fez. Após 6 dias retornei ao luthier, paguei pelo bom serviço e peguei o violino. Saímos de lá, meu violino e eu, ambos de alma renovada.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Soneto de uma terça quente

O que há em mim sobretudo é o calor
E como distração só me resta compor.
Pouco importa sentir-se cansado,
Pior ainda é sentir-me suado. 

Que falta faz um ar condicionado,
Esse mormaço me deixa irritado!
Como pode alguém nesse inferno escrever
Com o cérebro que está prestes a ferver?

Amor é fogo que arde sem se ver,
Mas hoje está ardendo pra valer!
Quero ver o sol se afogando no mar

Na esperança desse calor dissipar;
Só posso pensar numa coisa e mais nada:
Alguém topa, na terça, uma breja gelada?




Escrito no interior de um ônibus, numa tarde muito quente!

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Ouroboros (haikai)

O haikai ou haiku é um gênero de poesia japonesa. Suas características são: 1- Fazer referência a uma ou mais estações do ano (Primavera, Verão, Outono e Inverno); 2- Uma única estrofe composta de 3 versos (a métrica não entra aqui neste caso, mas deve ser observada nos haikais tradicionais); 3- A ideia de mudança, ciclo de nascimento-morte-renascimento (efemeridade x eternidade). 

O haikai é como uma fotografia que congela um momento (uma imagem) em palavras.

Foto tirada no terminal de ônibus














O sol da primavera destrói a fria estação
E as flores mortas outrora nos galhos sem cor
Renascem ao novo ciclo de gozo e dor.

Renan,  13/09/2021

(Poema haikai composto dentro do ônibus, em 40min de viagem)



Ouroboros - símbolo alquímico, representa o infinito.
O ciclo da vida.













Dicas:

Ouça as músicas das "Quatro Estações" de Vivaldi.

Assista ao filme coreano: Primavera, Verão, Outono, Inverno... E Primavera.

Leia o poema "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" de Camões.